EDNEY SILVESTRE

A FELICIDADE  FCIL

ROMANCE
O AUTOR DE SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA
"EDNEY SILVESTRE SE TORNOU UMA REVELAO DA LITERATURA BRASILEIRA."
O GLOBO


Digitalizado e corrigido por J. Martins em dezembro de 2011.
219 pginas, no rodap.


Orelhas:
Um dos maiores desafios para um autor 
lanar um novo livro depois de um primeiro
retumbante sucesso. Cria-se enorme expectativa, e
essa presso pode inibir o escritor. Edney Silvestre
enfrentou esse problema: Se eu fechar os olhos
agora mereceu importantes prmios literrios e
despertou o interesse do mercado estrangeiro.
Sem se abalar por essas questes circunstanciais,
Silvestre trabalhava uma nova narrativa, esta que
temos em mos.

A felicidade  fcil comprova que Silvestre veio
ocupar um lugar de destaque no quadro literrio
brasileiro. Com engenho, ele subverte a forma
vencedora do primeiro romance, em que a
macro-histria (o conturbado perodo pr-ditadura
militar) servia como pano de fundo a um
relato de violncia e mandonismo. Neste novo
livro, os destinos pessoais esto indissolvelmente
ligados  macro-histria, o governo Collor.
O autor une as duas pontas da histria recente do
Brasil: se em Se eu fechar os olhos agora havia ainda
uma certa inocncia, por meio do olhar das
crianas, em Afelicidade fcil ingressamos na era
do cinismo, do despudor, do salve-se quem puder.

Tecnicamente, Silvestre nos d uma lio:
com alguns elementos tpicos da narrativa
policial, cria um romance poltico, gnero difcil
e quase inexplorado no Brasil. Tudo transcorre,
em captulos intercalados, em menos de 24 horas,
a partir da cena de um seqestro. Ficamos
conhecendo ento Olavo e Ernesto, publicitrios
envolvidos com a alta corrupo do governo
federal; Mara, uma ex-acompanhante de executivos;
Irene e o marido, alm do filho, empregados
domsticos; Major, motorista particular,e
sua filha, Brbara; e os membros de uma quadrilha
internacional de seqestradores.

Impressionante como Silvestre penetra nos
universos distintos de cada um desses personagens.
O narrador trafega com desenvoltura
pelos gostos consumistas de Olavo e Mara, pelos
meandros da sangria de dinheiro do Brasil para o
exterior, pelo mundo de desejo e frustrao do
casal Irene-Stephan e do Major e sua filha e,
ainda, pelo linguajar e modos de delinqentes de
alto coturno.

Ao fim e ao cabo, em meio  lama que parece
avanar sobre tudo, Silvestre encontra esperana.
Como no poema de Drummond, em que uma flor
fura "o asfalto, o tdio, o nojo e o dio". Sublime.

Luiz Ruffato

Escritor e jornalista, Edney Silvestre foi correspondente
do jornal O Globo e da TV Globo em
Nova York. Hoje est baseado no Rio, onde faz
reportagens para todos os jornais da Rede Globo
e, semanalmente, apresenta o Espao Aberto Literatura,
na Globonews, programa no qual entrevista
grandes escritores consagrados e novos autores.

Autor de Dias de cachorro louco. Outros tempos e
Contestadores, estreou na fico com o romance
Se eu fechar os olhos agora  vencedor do Jabuti de
Melhor Romance e do Prmio So Paulo de
Literatura , tambm publicado na Srvia e em
Portugal e a sair na Holanda, Itlia, Alemanha e
Frana.

capa de Leonardo Iaccarino
sobre foto de Erik Cardona | 123 RF




A felicidade  fcil


romance



EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO

SO PAULO

2011



Cip-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.


S593f Silvestre, Edney, 1950
A felicidade  fcil : romance / Edney Silvestre.

-
Rio de Janeiro : Record, 2011.
1SBN 978-85-01-09499-5
1. Romance brasileiro. I. Ttulo.
CDD 869.93

11-4818
CDU 821.134.3(81)-3

Copyright  by Edney Silvestre, 2011
Capa: Leonardo Iaccarino
Texto revisado segundo o novo Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.
Direitos exclusivos desta edio reservados pela

EDITORA RECORD LtDA.
Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ- 20921-380 -TeL 2585-2000

Impresso no Brasil

ISBN 978-85-401-09499-5

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Lorsque l'enfant tait enfant,
Il ne savait pas qu'il tait enfant,
Tout pour lui avait un me
Et toutes les mes taient une.


Peter Handke/Wim Wenders

Asas do desejo



CAPTULO 1



Naquela tarde
Segunda-feira, 20 de agosto
15h43


O menino se assustou quando o carro comprido parou
a seu lado e o homem ao volante lhe indicou que
entrasse. O menino sorriu, porque era da sua natureza
sorrir e assim demonstrar reconhecimento a alguma
gentileza que lhe faziam ou prometiam. O menino
sorriu porque antegozou o prazer de entrar naquele
carro azul-marinho reluzente, de bancos de couro
macio e claro. O menino sorriu porque tinha aprendido
que, ao sorrir e inclinar um pouco a cabea para
a esquerda, como fazia agora, olhando os adultos com
os olhos azuis que herdara dos bisavs pomeranos,
quase sempre recebia um sorriso de volta dos patres
dos pais, um afago nos cabelos louros muito finos, por
vezes algumas moedas ou uma nota colocada no bolso
de sua camisa ou na palma da sua mo pelo senhor
de pele moreno-escura, dono daquela casa to ampla
e de muros to altos onde seus pais trabalhavam. Sorriu
porque assim entendera que apressava os homens
de preto que patrulhavam constantemente a casa e
7

que eram os nicos com controle do porto por onde
ele saa toda manh, para ir  escola dessa cidade 
grande para onde o pai e a me finalmente o tinham 
trazido. Sorriu porque assim fizera nos meses em que 
aguardava que o buscassem, como tinham prometido, 
e o sorriso lhe obtinha mais um pedao de comida ou 
um tapa a menos por alguma coisa que fizera errado, 
como na tarde em que abriu o cercado das ovelhas 
e correu com elas morro acima, sem nenhum grito, 
sem nenhum som, como outras crianas fariam, tentando 
pegar alguma das menores, at vrias sumirem 
no mato. O menino sorriu porque assim sempre fazia, 
quando se dirigiam a ele docemente, como o homem 
ao volante fazia agora. Sorriu porque no conseguia 
falar, nunca falara palavra nenhuma, nem jamais ouvira 
nenhuma, no sabia o que eram palavras, embora 
entendesse que elas existiam, que era com elas que 
os adultos e os outros do seu tamanho exprimiam o 
que queriam e esperavam dele, desde que lhe apontassem, 
indicassem ou mostrassem. 

O homem ao volante saiu do carro, abriu a porta 
de trs e indicou-lhe que entrasse. 

O menino assim fez, com alguma dificuldade para 
escalar o interior do veculo. Sentou-se, as pernas curtas 
sobre o banco, s os ps fora dele, com cuidado 
para a sola no sujar nada. Tirou das costas a mochila 
verde e preta, estampada com bichos de desenhos
8

animados que no conhecia, colocou-a a seu lado,
abriu-a, puxou dali um caderno e alguns lpis de cor, 
comeou a desenhar. No sabia escrever, nem ler, 
nem jamais aprenderia, mas no tinha conscincia de 
seu desconhecimento e achava que aquilo era estudar, 
e o fazia aplicadamente, traando linhas e formas 
para cima, para os lados, encompridando c e l, apagando 
aqui, refazendo nacos de formas, usando outra 
cor acol, metdica e cuidadosamente completando 
garranchos que pareciam sem sentido para os outros. 

O homem  frente deu partida ao carro, afastando-
se lentamente das crianas e mes alvoroadas, apressadas 
em direo aos pontos de nibus. A rea prxima, 
com caladas de cimento rachado, era pontuada 
por lojas estreitas, uma papelaria de vitrine atulhada, 
um par de mercearias, uma loja de bugigangas de coreanos, 
uma lavanderia. 

Pelo retrovisor observou, com admirao, a tranquilidade 
e o imediato alheamento do menino. 

Pensou em si mesmo naquela idade, correndo pelas 
ruelas sem calamento e lajes em constante construo 
no bairro da periferia que alagava a cada chuva 
forte, aos berros sempre, empinando pipas ou entregando 
as marmitas de comida que sua av preparava 
na cozinha escura, para cima e para baixo da favela 
que ele nem sabia que se chamava favela, era apenas 
o lugar para onde a me o tinha levado e deixado,
9

um moleque carregado de marmitas, sempre a gritar, espantando
os vira-latas famintos ou chamando os fregueses 
da comida ou driblando e pedindo licena a 
quem transitasse pelas vielas porque tinha pressa para 
entregar e logo ir pegar outra e entregar, e logo mais 
outra, e a prxima e a seguinte, at a hora de ir para 
a escola que ficava logo na parte de baixo, onde nunca 
se interessava pelo que diziam os professores, sem 
conseguir ficar sentado quieto, mas ainda assim ouvindo 
e escrevendo nmeros e nomes, louco para sair 
de novo e voltar correndo pelos meandros de barracos 
e comrcio apertados, mas que ele no sabia que 
eram midos nem estreitos, porque nada conhecia de 
diferente e porque ainda no tinha sido tirado dali, 
como a me um dia fez, desta vez acompanhada de 
um homem que ele nunca tinha visto, que batia nele 
para que sossegasse e parasse de gritar e rir e correr 
pelos jardins da casa grande onde a me e o homem 
trabalhavam, at que um dia, sem que se desse conta, 
parou. Virou um menino quieto, um rapaz quieto, 
um soldado quieto, o mais quieto entre os recrutas da 
polcia militar, um cabo quieto durante as patrulhas, 
um sargento quieto nas incurses contra bocas de 
fumo, um paciente quieto, enquanto se recuperava do 
tiro que estourou seu joelho, um militar reformado 
quieto dentro do apartamento quase sem mveis no 
centro da cidade, um segurana-motorista calado,
10

a que os outros empregados tratavam com deferncia e
chamavam de Major, posto que ele nunca alcanara. 

No tinha pena do menino. No gostava particularmente 
do menino. No gostava particularmente 
de ningum. Exceto da filha, talvez. Gostar, de pessoas, 
de coisas, de sabores, do que quer que fosse, era 
assunto que no lhe interessava. Os outros lhe eram 
indiferentes. Todos os outros. 

Assim se convencera de que acreditava. 

Normalmente no teria pegado o menino. A Kombi 
contratada para o transporte dos filhos de empregados 
domsticos do jardim Paulistano fazia isso. Sua 
tarefa j fora cumprida mais cedo, quando levara de 
volta para casa o menino slido e moreno como o 
pai, dono do carro que agora dirigia. Mas a patroa 
mandara. Uma ordem inusitada, como inusitado vinha 
sendo aquele dia. Como inusitada foi sua sensao 
quando viu o filho dos caseiros na porta da escola, 
mochila s costas, muito louro, muito plido, to pequeno, 
to... inadequado. 

Voltou pelo mesmo caminho que fazia com o garoto 
do patro. 

No demorou muito a chegar  avenida rebouas, 
com o trnsito desagradvel de sempre. Ligou o rdio 
e ouviu a mesma notcia que ocupava os jornais desde 

o incio do ms, a cada vez acrescida de novos detalhes:
o ditador do Iraque invadira o Kuwait.
11

Com 60 mil soldados, Saddam Hussein se apoderara da
quinta parte de todas as reservas mundiais de petrleo. 
Trocou de estao, mas acabou por desistir e desligar 

o aparelho, farto de outra mesma lengalenga, a recesso 
trazida pelo confisco do governo Collor sobre todos 
os depsitos, inclusive de poupana, acima de 50 
mil cruzeiros. Detestava poltica, os comentaristas o 
irritavam, no ligava para qualquer tipo de msica, 
no havia nenhum jogo de futebol quela hora. Preferiu 
o silncio. 
Algumas quadras acima virou  direita, na rua joaquim 
Antunes, entrando em um bairro de ruas arborizadas 
e casas de razovel elegncia, abertas e ergui-
das em uma das primeiras ondas de desenvolvimento 
urbanstico que, na segunda dcada do sculo XX, 
deslocaram os paulistanos afluentes para o que fora 
uma vrzea na Zona Oeste da capital. 

As ruas estavam quietas, sem gente pelas caladas. 
Os moradores dali s se deslocavam de carro. A agitao 
de veculos de fora, fugindo dos engarrafamentos 
da hora do rush, no comearia seno mais tarde. 

Seguiu devagar, contornando rotatrias com cuidado 
para que a suspenso macia do automvel alemo 
no o levasse a inclinar-se demais e incomodasse 
a concentrao do menino, que ele observava mais 
uma vez pelo retrovisor. 

Por um instante, sem perceber, invejou-o.
12

A felicidade  fcil. Basta uma folha de papel e
uma caixa de lpis de cor, pensou, quase no mesmo
instante em que a primeira bala o atingiu. 

O olho e a mente treinados registraram, imediatamente: 
um homem encapuzado, grande, vestindo 
uma japona escura, apontando para ele e disparando 
com a mo esquerda um revlver Magnum de cano 
longo, saindo da caminhonete preta que acabara de 
barrar a passagem do Mercedes-Benz, dois carros menores 
a bloquear qualquer possibilidade de fuga por 
trs, um sed preto atrs destes, outros encapuzados 
saindo dos automveis menores, todos a correr em 
sua direo, um, dois, trs, quatro, cinco homens, 
com armas nas mos, revlveres e pistolas, nenhum 
deles empunhando nada maior, o que pretendem, 
o que querem, ele se perguntou, o ombro direito ardendo 
da bala que o atravessara, apoiando-se na perna 
esquerda, erguendo o tronco e virando o corpo para o 
banco onde o menino parou de desenhar e olha para 
ele com curiosidade e incompreenso, enquanto grita 
para a criana, sem lembrar-se que ela nada ouve, enquanto 
grita que se abaixe, que se deite no piso do 
carro, ao mesmo tempo que v os homens encapuzados 
se aproximando em sua direo, s um dos encapuzados 
atira, o que tem a Magnum prateada de cano 
longo na mo esquerda, o sujeito grando que saiu da 
caminhonete preta, deve ser ele, tem que ser ele,
13

mas o menino no se mexe e Major no o alcana, sentindo
o impacto de outra bala, desta vez no ombro esquerdo, 
deve ser um atirador de elite que no pretende 
mat-lo, se no teria atirado em sua cabea, tem 
pontaria e viso para isso, raciocina, empurrando o 
corpo mas s conseguindo pegar a mochila verde e 
preta enfeitada com bichinhos de desenhos animados, 
ao mesmo tempo que dois encapuzados abrem as portas 
traseiras do Mercedes-Benz e ele recua no banco 
da frente, quer pegar a pistola Glock semiautomtica 
que mantm presa na parte de trs do cinto, amaldioando-
se por no ter feito isso logo, em vez de tentar 
primeiro salvar o menino, mas o encapuzado de japona 
escura j est a seu lado, disparando trs vezes seguidas 
a Magnum 3.57 em seu pescoo e nuca. 
O menino  puxado pelos encapuzados dos carros 
menores, tem a cabea coberta por um saco,  passado 
ao motorista da caminhonete escura, que o carrega 
at ela e o empurra para dentro do porta-malas. 

O grandalho da Magnum 3.57 de cano longo 
joga sobre o corpo inerte do Major uma folha de papel 
rijo, onde esto escritos dois longos nmeros. 
Uma seta, riscada com caneta hidrogrfica, aponta da 
primeira fileira de algarismos para a segunda. Com 
a mesma caneta, do outro lado, est anotada a frase 
Temos seu filho. 

O sed preto, especialmente adaptado para uso de 
paraplgicos, e os dois carros menores do r e saem
14

pela rua por onde chegaram, quarenta e dois segundos
antes, tomam rumos diferentes na rotatria. A caminhonete, 
com seus ocupantes de volta, se afasta na 
rua em frente. 

Logo o carro azul, grande, alemo,  o nico na 
rua deserta. 

H lpis de cor junto dele, espalhados pelo asfalto.
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CAPTULO 2



Naquela manh
Segunda-feira, 20 de agosto
10h56


At os canalhas se comovem, concluiu Olavo Guaimiaba
Bettencourt, percebendo os olhos marejados
do presidente da estatal, quando as luzes se acenderam
e as cortinas foram abertas no salo envidraado,
debruado sobre a avenida Cidade jardim, ao fim da
exibio dos filmetes recheados de depoimentos de
gratos moradores das reas beneficiadas por redes de
eletricidade, brotadas da hidreltrica formada pelas
guas do grande lago que inundara seus stios e cidades.
No mais tocante de todos, criado e dirigido por
ele mesmo, uma lavradora de rosto lanhado de rugas
relatava a morte de um filho por falta de uma incubadora,
como a recentemente instalada no posto de sade
do vilarejo prximo, e como na luz eltrica da escola
noturna realizara o sonho de quase sessenta anos:
aprender a ler e escrever, como fizera na tabuleta que
exibia para a cmera, com duas palavras, em garranchos:
Obrigado, Presidente.
17

Todos aplaudiram, seguindo as palmas iniciadas
pelo assessor de comunicao da presidncia da estatal 
de energia. responsvel pela indicao da agncia 
do paraense corpulento como seus antepassados tupinambs 
para a concorrncia  polpuda conta publicitria, 
ganha sem percalos, Ernesto Passeri sorria 
com seus dentes brilhantes, perfeitamente capeados 
pelo dentista mais caro do Brasil. Estava genuinamente 
contente. No pelo bom efeito da propaganda, 
que teria sido aprovada de toda forma, mas por toda a 
rede de benefcios deslanchada daquele momento em 
diante  com ele, por ele, atravs dele. 

Cabia ao homem dos ternos de risca de giz feitos 
sob medida em Londres, e das gravatas Herms, alinhavar 
e costurar as negociaes sobre os percentuais 
do faturamento da campanha a serem repassados s 
contas pessoais do presidente, do ministro e dele prprio, 
em parasos fiscais no Caribe. Estava acertada 
uma mdia ampla o bastante para garantir pginas inteiras 
em jornais e revistas de todo o pas, comerciais 
de sessenta segundos nos intervalos do noticirio de 
maior audincia e da novela das oito, anncios em 
algumas publicaes de prestgio no exterior, ainda 
a serem definidas, mas que com certeza incluiriam 

o New York Times,o Times de Londres, Le Monde, 
Der Spiegel, El Pais, El Clarn e, talvez, sonho antigo 
do ministro, um anncio de pgina dupla na revista 
Time. O momento pedia a construo de uma
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boa imagem internacional para o governo do jovem e
bem-apessoado presidente brasileiro e todos os bons 
negcios que poderiam advir disso. Se bem que seria 
mais fcil receber percentuais no contabilizados em 
negcios com pases e industriais asiticos. Mas isso 
viria a seu tempo. Um par de anos ou um tanto mais. 
No fazia muita diferena. O presidente empossado 
h cinco meses navegava na maior onda de popularidade 
desde os tempos de Getlio Vargas, a oposio 
se agitava sem foco nem fora, no frigir dos ovos a 
reeleio era favas contadas, como gostava de repetir, 
em suas inundaes de lugares-comuns, um dos comentaristas 
televisivos mais adulados de Braslia. Todos 
os que interessavam estavam bem comprados. Os 
caramingus das agncias de publicidade e dos veculos 
de comunicao, seis por cento aqui, sete acol, 
onze mais adiante, quinze entre os que eram presenteados 
com as contas maiores, j estavam se acumulando 
nos parasos fiscais. A compra do novo apartamento 
em Manhattan  que se tornara premente. 

Aplaudindo, Ernesto Passeri se levantou e caminhou 
em direo ao lado oposto da mesa Saarinen de 
tampo de mrmore onde estava Olavo Bettencourt, 
que preferia assinar apenas o sobrenome de origem 
francesa, como de hbito a sorrir com a falsa modstia 
que Ernesto reconhecia desde os tempos em que ambos 
eram profissionais em incio de carreira, cuidando 
da conta de uma rede de supermercados dos arrogantes
19

filhos de um portugus semianalfabeto a quem a
inflao e a falta de escrpulos transformaram em milionrio 
em menos de uma dcada. Aos trs rapazes, 
ele e Olavo agradavam com relgios de grife, temporadas 
em estaes de esqui e a companhia discreta 
para os dois mais velhos, escancarada para o caula 
deslumbrado com reportagens em revistas sobre novos 
ricos  de ex-misses e atrizes de novelas. Ao velho 
Liborio Freitas se dedicara ele mesmo, ouvindo 
por horas interminveis as mesmas histrias sobre o 
adolescente de Pvoa do Varzim desembarcado em 
Santos com apenas um bornal e um pedao de papel 
com o endereo de um tio que jamais conseguiu encontrar 
na cidade de So Paulo, obrigado a se virar na 
nova terra. Desenvolveram quase um afeto, o velho e 
ele, ou pelo menos um hbito que preenchia as horas 
vazias do imigrante desprezado pelos filhos, a ponto 
de um dia lhe apresentar, praticamente como uma 
entrega de mercadoria, a tmida e aparentemente tola 
filha nica, Adlia, com quem Ernesto se casou e que 
acabou se revelando astuta o bastante para tornar os 
irmos irrelevantes na expanso dos negcios, antes 
mesmo da morte do velho, agora acrescidos de uma 
rede de lojas de roupas populares, outra de venda de 
mveis e eletrodomsticos, e uma recente associao 
com empresrios espanhis interessados em construir 
hotis para turismo de massa em capitais nordestinas. 
Nesta sociedade, Adlia e ele no tinham colocado
20

um centavo: ele j fazia parte do governo recm-eleito
e suas conexes para avanar sobre a burocracia 
foram bem recompensadas. 

Ainda segurando a mo de Olavo e enfileirando 
elogios pelos filmetes e anncios que ele prprio 
orientara, Ernesto tentou conduzi-lo ao lado oposto 
da sala, mas Olavo fingiu no compreender a manobra 
do scio secreto da sua agncia e, inclinando-se 
para o presidente da estatal a seu lado, convidou-o 
para almoar em uma churrascaria da rua Haddock 
Lobo, sempre pontilhada por rostos e nomes que certamente 
reconheceria e teria prazer em citar, quando 
de volta a Braslia. O ex-senador, derrotado nas eleies 
para o governo de seu estado natal, como todos 
os outros candidatos de seu partido, aceitou e de pronto 
dispensou a comitiva que o acompanhava. 

Ernesto ficou. 

O presidente da estatal proclamou, satisfeito: Preciso 
mijar. Olavo o conduziu at a porta do lavabo. S 
quando ela se fechou, sem virar-se para Ernesto, disse: 

 No. 
 No, o qu? Eu estou calado, no pedi nada. 
 No, Ernesto. 
 Voc ainda no ouviu o que eu tenho a dizer e 
j est dizendo que no. 
 Exatamente. 
 No  nada para mim e voc sabe disso. 
 Sei. E a resposta  no.
21

 Voc est dizendo no para o ministro, no para
mim. 
 No posso atender a esse pedido. 
 Nem fiz o pedido ainda. Nem  um pedido. 
  um pedido e  sobre alguma das contas. No 
posso abrir mais uma conta no exterior. No tenho 
como justificar ao aiarss. 
 Hum? 
 Aiarss. Internal revenue Service. O leo dos 
impostos americano. 
 Desde quando voc se preocupa com fiscalizao 
de americano? 
 Assino os cheques que pagam as mensalidades 
da filha dele em Stanford, o curso de cinema do filho 
na New York University, as despesas dos cartes de 
crdito deles, os aluguis, as viagens. E se o IrS descobre 
que essas quantias so depositadas em minha 
conta mensalmente por bancos do Caribe? 
 Isso nunca vai acontecer. 
 E se algum na imprensa brasileira descobre? 
 Os jornalistas respeitam o ministro. 
 At o dia em que se cansarem da historinha 
do menino pobre que saiu do serto para se tornar o 
professor mais brilhante da USP. O ministro est indo 
mais uma vez para Nova York, no est? Vai para a 
abertura da ONU acompanhando o presidente, no 
vai? E depois para uma grande festa em sua homenagem, 
no vai? 
Ernesto acenou, afirmativamente.
22

 Toda a imprensa brasileira estar de olho nele,
no que far, no que comer, onde ir, com quem ir, 
no encontro com os filhos. 
 Voc no sabe o que o ministro quer. No sabe 
do que ele precisa que voc faa. 
 Ele tem um pedido ou uma intimao? 
 Olavo, acho que no preciso lembrar a voc de 
seus prprios interesses e da sua empresa. 
 Agncia, Ernesto. Empresa  coisa de industrial, 
eu sou um homem de criao. 
 Tanto faz. O que o ministro quer  que voc... 
 No agora. 
 Agora. Hoje ou, no mximo, amanh. 
 Surgiu um fator complicador na minha vida. 
 Pessoal ou profissional? 
 Pessoal. 
 Falamos sobre isso em outra hora. O que o ministro 
quer  que voc pague um apartamento que ele 
gostou em Central Park South. Ao lado do Plaza Hotel. 
 Perfeito para sair sem ser visto nos encontros 
com investidores ou o amante. 
 Isso no  problema seu nem meu. O ideal  
voc ir para Nova York hoje  noite. 
 Esta noite  impossvel. Nem pensar. No posso 
deixar a agncia de uma hora para outra. 
 Amanh, ento. j providenciei duas passagens. 
De primeira classe, claro. V com sua mulher. V 
com Mara, ponha um carto de crdito na mo dela,
23

leve-a para ver algum musical na Broadway, faa
como se fosse uma viagenzinha de diverso. O apartamento 
vai ser pago em cash. 

 Em dinheiro vivo? Vocs esto loucos? Lembra 
que Al Capone s foi para a cadeia por causa do imposto 
de renda? 
 Voc no  Al Capone nem ns somos gngsteres. 
Somos apenas homens de negcios com esprito 
pblico e bons planos para fazer do Brasil um pas de 
primeiro mundo. Voc vai usar o dinheiro que vem 
sendo depositado todo ms na sua conta daquele banco 
israelense. O FBI aceita e faz vista grossa porque 
tambm usa o banco quando precisa. Em mais de 
quarenta anos de existncia, nenhum cliente jamais 
sofreu qualquer constrangimento. 
Ernesto estendeu-lhe um carto de visitas. 

 Este  o corretor. 
Olavo pegou, leu, concluiu: 
 Brasileiro. 
 Cubano. Mas trocou o z do final do sobrenome 
para ficar mais abrasileirado. Faz business com brasileiros 
e portugueses desde os anos 1970. 
O rudo da tranca do lavabo os calou. O presidente 
da estatal de energia saiu, ainda enxugando as 
mos em um leno de linho azul claro. Olavo se perguntou 
por que ele no teria usado as toalhas dispostas 
sobre a pia. E que tipo de pessoa ainda carregava 
consigo lenos de linho.
24



CAPTULO 3


Naquela manh

Segunda-feira, 20 de agosto

7h12


No sou feliz contigo, ela ensaiava mais uma vez,
de olhos fechados, as costas viradas para o banheiro
de onde vinham os sons do irritantemente interminvel
banho de Olavo sob o chuveiro. Coisa de ndio
mesmo, pensou, mais uma vez, mais uma manh,
cinco anos depois de anunciar que estava grvida, levando-
o  separao da esposa dos tempos anteriores
 ascenso social e econmica do dono da agncia
mais criativa e premiada da dcada. Mas no posso
dizer a ele, simplesmente, No Sou Feliz Contigo.
Isso vai irrit-lo como se eu confessasse ter um amante.
 melhor inverter. Transferir a insatisfao. Olavo,
Tu No s Feliz Comigo. Ou, talvez: Olavo, Eu No
Te Fao Feliz. No, no posso falar dessa maneira
com ele, no funcionar. Ele  feliz comigo. Eu fao
ele feliz. Sou tudo o que sempre sonhou. Mais. Sou
o que ele jamais imaginou que teria. Quem no suporta
mais sou eu.
25

No suporto esse homem balofo, bufando em
cima de mim, enterrando esse pau comprido dentro
de mim, me causando clicas e esperando de mim o
que eu sempre fao, oh, Olavo, ah, Olavo, ai, ai, oh,
ah, ah, ah, Olavo, Olavo, Olavo, Olavo, chega. Chega.
No vale a pena.  um preo muito alto a pagar
por essa casa no Jardim Paulistano, por esses lenis
de algodo egpcio de mil fios, pelas roupas Versace,
pelo Rolex de ouro, pela casa de praia em Maresias,
pelo apartamento de minha me em Porto Alegre,
pelo Mercedes-Benz com chofer, pelos seis empregados,
pelos vos em primeira classe, pelas temporadas
de esqui em Aspen, pelas compras sem limites em
Miami, os jantares em Paris, o apartamento da rua 72
em Manhattan. No vale. No valem.
Abriu os olhos. Na mesa de cabeceira, junto ao
abajur italiano, em um porta-retratos de prata comprado
na mesma loja daquele filme em que Audrey
Hepburn cantava aquela msica e comia cachorro-
quente olhando as vitrines quando voltava de algum
programa com algum cliente, e onde Olavo comprou
para ela seu primeiro anel de diamantes, quando
ainda nem eram casados, estava a foto em preto
e branco, escolha dele, que achava mais chique foto
em preto e branco, em que os trs, ela, Olavo e Olavinho,
o nome foi escolha dele, ela preferia Rodrigo,
William ou Leonardo, estavam os trs sentados em
26

um sof tipo antigo, ela com um tailleur estilo Chanel,
mas sexy, tambm do Versace, mas comprado na
Bloomingdales, ela com o marido  direita e o filho
 esquerda, meio srios, eles sorrindo, ela s com um
leve sorriso, os trs mirando direto para a cmera.
Fechou os olhos.
Detestava aquela foto.
Essa criana gelatinosa, meu deus. Eu sou me
disso. Desse menino escuro, quase marrom, ainda
mais escuro que o pai, com essas bochechas gordas
e o olhar de quem precisa de mim, precisa de mim
o tempo todo, quer que eu tenha pena dele, que eu
segure ele, que eu acaricie ele, que beije ele, que eu
abrace ele, faa cafun, preste ateno no que diz,
acompanhe suas brincadeiras, olhe o papel em que
desenhou alguma bobagem, pegue em mais um boneco
de super-heri que ganhou do pai, oua suas
histrias sobre o que aprendeu na escola, o que disse
um amiguinho, o joelho que ralou numa queda, ai,
deus, um pedinte permanente, sempre choramingando,
ai, horror, horror. Horror.
No. No posso pensar isso. No posso sentir isso.
No posso ter nojo do meu filho, no posso, no posso,
no posso. Eu devo amar meu filho. Devo. Toda
me ama o filho, eu amo meu filho, eu amo meu filho,
eu no tenho asco do meu filho, eu sinto amor
pelo meu filho, amor, amor, amor. Amo meu filho.
27

Amo meu filho. Amo meu filho indiozinho. Meu
filho indiozinho obeso e oleoso como o pai, seboso
como o pai, tal qual o pai, igual ao pai. fio por fio de
cabelos grossos e negros, pele oleosa por pele oleosa,
ps chatos por ps chatos, perna curvada para dentro
por perna curvada para dentro, barriga mole por barriga
mole, dentes separados por dentes separados, nariz
grosso por nariz grosso. Eu no tenho nojo do meu
filho. No tenho. No posso ter. No tenho. Eu amo
meu filho. Amo. Amo?
O rudo do chuveiro cessou.
Ele agora vai fazer a barba, Mara pensou. Vai levar
de dois a cinco minutos colocando a espuma nas
bochechas flcidas, esperar que os ralos pelos de ndio
amoleam e rasp-los. Vai colocar algum dos muitos
ps-barba franceses comprados com os muitos perfumes
na free-shop do aeroporto de Paris e espalhados
pela prateleira acima da pia, todos com cheiro forte
demais, e o desodorante em roll-on que compra s
dzias naquela farmcia perto do nosso apartamento
da rua 72. Em seguida abrir aquela porta, nu, j
com o pau meio duro, vir at aqui, puxar os lenis
que me cobrem levantar minha camisola e se encostar
em mim. Exatamente como est fazendo agora.
E dir, como est dizendo:
 Mara... Mara...
E eu fingirei que estou acordando, gemerei, sabendo
que isso o excitar ainda mais. Ele repetir.
28

 Mara... Mara...
Eu gemerei de novo, virando um pouco o corpo
para o lado mais perto dele, sentindo seu pau pulsando
entre minha bunda e o meio de minhas coxas, que
abrirei um tantinho. Gemerei de novo, ainda de olhos
fechados. Balbuciarei alguma coisa, esfregando minhas
costas no peito e na barriga dele.
Mara, Mara  ele continuar dizendo, agora levando
uma das mos para apertar meus seios, enquanto
enfia as coxas gordas entre as minhas coxas.
 Hum... Ah... Hum...  direi alguma coisa desse
tipo, como deve fazer uma mulher que acorda acariciada
pelo marido que ama. Talvez diga o nome
dele, sim, boa idia, direi o nome dele suspirando um
pouco, me fazendo de surpresa.  Olavo... Hum...
Ah... O que tu est fazendo, ah, hum, Olavo?
Meu amor  em geral  nessa hora que ele comea
a me chamar de Meu Amor  Meu amor, eu
quero voc  dir, como diz agora, beijando meu
pescoo, mais lambendo do que beijando, com sua
lngua spera, ao mesmo tempo que traz minha camisola
at o meio de minhas costas.
Esse  o momento em que fico mais quieta, para
facilitar a retirada da minha roupa de dormir, sem
rasgar ou esgarar, como j aconteceu algumas vezes.
No digo uma palavra. Apenas suspiro um pouco
mais alto e reviro meus olhos azuis, entreabrindo
meus lbios, que ele espremer contra os seus, enfiando
29

em minha boca e rodopiando l dentro sua lngua
inquieta e dura. ainda com sabor de hortel da pasta
dental anticrie americana.
Ele rola o corpo para cima do meu.
Ele aperta demais o rosto contra o meu, aperta
meu nariz, me lambuza com sua saliva mentolada.
Ele  muito pesado.
No consigo respirar direito.
Escaparei me sentando em cima dele, jogarei
meus longos cabelos louros para o lado, esfregarei
meus seios contra o peito dele.
Meu amor, meu amor, voc me enlouquece, ele
dir, ou algo assim. E eu... E eu...
Mara se ergue, de repente, gira para fora da cama,
corre para o banheiro dizendo S Um Minutinho,
Querido,  Rpido, Um Minutinho s.
Fecha a porta.
Mal tem tempo de chegar ao vaso sanitrio. Vomita
na gua j amarelada pela urina de Olavo, que
nunca aperta o boto da descarga. Vai  pia, lava o
rosto. As lgrimas brotam, sem que ela consiga conter.
Lava novamente o rosto. Respira fundo uma, duas,
trs, quatro vezes. As lgrimas cessam. A vergonha
que sente de si mesma, no.
Abre o armrio, pega o tubo de lubrificante vaginal,
desatarraxa, aperta (est no fim, preciso lembrar
de comprar mais) entre os dedos, enfia o gel dentro
de si mesma.
30

Lava as mos, enxuga-as, leva aos cabelos, afofando-
os.
Sorri para si mesma, no espelho, o sorriso mais
sinceramente feliz e excitado que consegue. No est
bom o suficiente. Tenta de novo. Melhor.
Respira fundo.
D descarga no vaso, at os vestgios de mijo e vmito
desaparecerem.
Abre a porta, a nudez estupenda da mistura de genes
de imigrantes dos Aores, de Holstein e do Pie-
monte delineada pela luz da manh que atravessa as
persianas de madeira trazidas da Flrida. Diz, para
o homem no leito king size, a manusear o pnis, tal
como disse a outros tantos que a aguardavam da mesma
forma, em camas de hotis ou motis, quando seu
carto de visitas ainda a apresentava como modelo-
manequim, vivia na ponte area Porto Alegre-So
Paulo-Rio como escort de executivos e dizia se chamar
Pamela ou Vanessa ou Claudia ou Isadora.
Estou pronta para ti, querido.
31



CAPTULO 4


Naquela manh
Segunda-feira, 20 de agosto
8h22


Irene Bauer espalhou a farinha de mandioca na frigideira
bem quente, sem um pingo de gordura, como
o doutor Olavo gostava e lhe tinha ensinado. Sabia
como se tornar querida dos patres. Aprendera imediatamente
a fazer tapiocas perfeitas, mesmo sem
nunca ter visto uma antes. Panelas, fornos, frigideiras,
nada de cozinha e casa tinham segredo para ela. Era
rpida em aprender, desde menina no interior de
Santa Catarina cozinhava de tudo, desde que lhe
mostrassem como, ou lhe dessem uma receita. Sabia
ler e fazer contas muito bem, talvez at melhor do
que o marido Stephan. Por isso lhe couberam, desde
que comeara a freqentar a escola de Anitpolis,
as tarefas de equilibraro oramento do stio dos pais,
depois o da prpria casa, nos arredores da cidade vizinha
de Santa Rosa de Lima, agora daqui, onde Stephan
e ela eram caseiros e continuariam sendo, talvez
por uns dez ou doze anos, at juntar economias suficientes
33

para voltar s cachoeiras, aos pinheirais e s
colinas verdes de que sentia tanta falta.
A tapioca soltou-se da frigideira. Estava pronta.
Irene colocou-a no prato, recheou de carne de sol
com nata, polvilhou um bocadinho de gergelim, levou-
a at a mesa de caf onde o patro estava sentado,
diante de geleias importadas e outras que ela preparava,
mas que o doutor Olavo nunca tocava. Nem leite,
nem suco, nem fruta, nem iogurte, nem coalhada
fresca, nem torradas, nem po integral, nem baguete,
nem cuca de banana, nem bolo de laranja, nada: s
caf preto e tapioca. Ele queria a mesa posta com
aqueles sinais de fartura, mas tapioca e caf preto
eram tudo o que comia de manh. Variavam apenas
os recheios.
 Fao mais umas, doutor?
Ele tomava caf sozinho. No conversava. Folheava
os jornais, vez por outra os abaixava para ver alguma
notcia que parecia interess-lo no jornal da
televiso. Irene percebera que eram sempre sobre poltica.
Ou sobre Frmula 1. E sobre jogos de tnis,
tambm.
 Pode fazer. Tem doce de leite a?
A esposa s descia mais tarde. Tomava um iogurte
natural com granola, comia alguma fruta, tomava um
cafezinho e s. Estava sempre de dieta. Era a nica
gacha que Irene conhecia que no gostava de chimarro.
34

Achava cafona. E no gostava de lembrar que
era gacha.
 Tem. E tem tambm aquele doce que trouxeram
do norte para o senhor.
 Cupuau?
 Esse mesmo. Est a, tambm, na mesa. Do
lado da geleia de tangerina.
Adiantou-se, pegou ambos, colocou mais prximos
do patro, voltou ao fogo. Logo a frigideira estava na
temperatura ideal. Espalhou ali a farinha acinzentada.
O filho do doutor Olavo e dona Mara tinha comido
mais cedo. Ao contrrio das ltimas semanas,
no pudera esperar para ser levado  escola pelo pai.
Sara mais cedo, com o motorista da me e um segurana,
para fazer alguma coisa para uma festa oferecida
ao cnsul da Inglaterra. Irene sabia que a escola
tinha relao com o pas da princesa Diana. Olavinho
aprendia tudo em ingls, as lies, as contas, tudo.
Era assim que ensinavam na escola dele, era nessa
lngua que o pai conversava com ele, quando conversava,
quando tinha tempo, tinha to pouco, estava
sempre trabalhando, viajando para Braslia ou para os
Estados Unidos, ou indo a banquetes e festas, sempre.
Olavinho era agitado, inquieto, corria o tempo todo
pela casa e falava muito, falava sem parar, sempre fazendo
perguntas e nunca esperando pelas respostas.
O oposto do menino eternamente silencioso que era
o filho dela e Stephan.
35

A nova tapioca ficou pronta. Irene colocou-a em
mais um prato.
 O senhor quer que eu recheie com doce de leite
ou o outro?
 Pode deixar que eu ponho, Irene.
Olavo enfiou uma colher de prata Christofle no
doce de leite, tirou uma quantidade generosa, espalhou
pela tapioca.
 No precisa fazer mais nenhuma  disse, com
a boca cheia, levantando-se.  O motorista da minha
mulher j voltou?
 Ainda no. Mas o motorista do senhor j est
esperando.
 Depois de me deixar na agncia, meu motorista
ficar por conta do doutor Ernesto, que vir de Braslia
e tem vrios compromissos em locais que meu
motorista conhece melhor. Diga ao Major que a partir
das seis da tarde ele fica  minha disposio. Que
ponha o carro na garagem do subsolo. Virei jantar em
casa. Avise a dona Mara.
Irene meneou a cabea, o patro deixou a sala.
Pela janela viu-o ir at o Mercedes-Benz blindado e
sentar-se atrs do chofer. Nesse momento os portes
foram abertos pelos dois homens armados e o carro
azul entrou. Parou ao lado do blindado. O patro baixou
o vidro, falou algo para o Major, subiu o vidro.
O carro saiu. Major desceu do carro, caminhou na
direo do alojamento dos seguranas. Irene o chamou.
36

Ele se aproximou, devagar. Mancava, quase imperceptivelmente.
 O doutor Olavo deixou um recado para...
 Eu sei  ele interrompeu. Irene pensou em
fios de eletricidade desencapados.  Falou comigo.
 Para pegar ele na...
 Sim  disse, antes de virar as costas e retomar
o caminho para o alojamento.
O menino muito pequeno e muito louro, sentado
no cho junto  porta, no pareceu perceber quando
Major passou por ele. Tinha uma mochila ao lado.
Aguardava a hora de ser levado  escola especial. Irene
faria isso dentro em pouco, assim que se liberasse
das tarefas na cozinha. Tinha acabado de guardar as
geleias e a manteiga na geladeira quando a patroa entrou.
Estava maquiada, vestida para sair. Irene se surpreendeu.
Dona Mara nunca descia antes de nove e
meia, dez horas, o que lhe dava o tempo justo de levar
o menino e voltar. A quebra da rotina deixou-a
sem saber o que fazer. Na dvida, pegou um iogurte
na geladeira ainda aberta.
 No quero  Mara avisou.  No vou comer
nada.
 Nem um...?
 Nada, Irene. Meu guri...
 Uma pera? Tem mamo papaia. Melo.
 Nada. Meu guri j foi com o pai para a Escola
Inglesa?
37

 Foi com o Major, hoje. Um cafezinho, dona
Mara?
 A que horas saiu?
 Seis e meia. Posso fazer um espresso para a
senhora?
 To cedo. Sai sempre a essa hora? Todo dia?
 Era o horrio dele, mas nas ltimas semanas o
doutor Olavo tem levado mais tarde. Vou fazer um
espresso.  s ligar aqui  disse, acendendo o aparelho
Delonghi que Olavo comprara em Milo.
 O guri chora? Reclama?
 De acordar cedo? No, senhora. Quer uma torrada?
Posso fazer uma torrada para a senhora.
 O guri no diz nada?
 Fala muito. Daquele jeito que a senhora conhece.
Pergunta as coisas, pergunta pela senhora, pergunta
pelo pai. Ele  muito curioso.
 Chama o meu motorista. Ele sabe onde fica a
Escola Inglesa?
 O Major sabe sim, senhora. Era ele que levava
antes.
 Major?
 O motorista. Foi policial militar. Sabe onde  a
escola, sim. O cafezinho fica pronto em um minuto.
 Policial militar?
 Ele  segurana, tambm. Seu Olavo diz que
 o melhor.
 Aquele magro, alto?
38

 Sim, dona Mara. Tem uns biscoitos, tambm.
De nata. Fiz ontem. Vou botar unzinho para a senhora.
 gostoso com caf.
A mulher loura e maquilada, vestida e calada
com o que comprara h pouco na loja de trs andares
de um costureiro calabrs na Quinta Avenida em
Manhattan, olhou atravs da janela. Viu um menino
muito branco, muito louro e muito quieto sentado no
umbral do alojamento dos seguranas. Por um instante
ficou paralisada. Sentiu um arrepio atravessar seu
corpo. No soube se era um pressentimento ou o choque
de perceber, pela primeira vez, a extrema beleza
daquela criana.
 Seu filho...  apontou a criana para Irene.
  sim, senhora.
 Seu filho  muito quieto.
  sim, senhora.
 Nunca ouvi falar nada.
 No, senhora.
 No grita, no chora.
 No, senhora.
- Ele...
 No fala, no, senhora.
 Nada? Nunca?
 Nem escuta.
- No...?
 No. Nunca.
 Mas  um menino to...
39

 Ele no  bobo no, senhora.
 No ia dizer isso.
 Muita gente acha que ele  abobalhado porque
no fala nem escuta. Mas no .
 Como ele se chama?
 O caf est pronto. Quer acar ou adoante?
Mara pegou a xicrinha. Bebeu em dois goles. Gostava
de lquidos quentes: cafs, chs, sopas, at o chimarro,
que nunca mais queria tomar.
Abriu a bolsa procurou, no encontrou o que
queria.
 Tens cigarro a, Irene?
 No fumo, no senhora. Quer que eu mande o
Stephan comprar um mao?
 No precisa. Algum dos seguranas deve ter.
Pegue para mim.
Caminhou a esmo pela copa-cozinha, enquanto
esperava. A mesa ainda trazia os sinais da passagem
do marido: os jornais amassados, o caderno de economia
dobrado, O guardanapo jogado na cadeira. A xcara
com restos de caf. O prato com parte de uma
tapioca transbordando de doce de leite.
Voltou  janela. O menino continuava sentado no
mesmo lugar, imvel como antes. Parte das costas do
segurana-motorista, sem palet, podia ser vista. Tinha
uma pistola parcialmente enfiada no cs das calas.
Irene voltou. Trazia um nico cigarro, e um isqueiro.
Mara os pegou, acendeu o cigarro, deu um
40

trago longo, soprou a fumaa, apagou o cigarro no
monturo de doce de leite.
 Avise ao motorista que vou sair agora. Vou pegar
o Olavinho na Escola Inglesa.
 Agora?
 Agora.
 Ele fica na escola at duas da tarde.
 Vou pegar meu guri agora. Vou levar ele ao
shopping, depois vamos almoar, depois vamos a um
cinema. Hoje vou passar o dia com meu filho.
Irene no se movia.
 Vai. Chama o motorista.
 Dona Mara...  a caseira hesitou.   que...
O Major...
Irene temia desagradar a patroa. Talvez dona Mara
considerasse um abuso.
  que o Major, normalmente, a essa hora...
Quando ele j deixou o Olavinho na escola e a senhora
ainda no precisa dele, ento o Major... Eu peo
que ele...  uma coisa rpida, s para eu no perder
tempo... J que o carro est a mesmo...
Mara aguardava que a camponesa arredondada terminasse
a explicao.
 Para eu estar aqui quando a senhora desce para
o caf da manh, o Major, ento... Para ser tudo mais
rpido, j que tem tanto engarrafamento nesta cidade,
eu... Em vez de eu ir de Kombi ou de nibus... Eu
peo a ele que...  tomou coragem, disse tudo de
41

uma vez s.  Eu peo a ele que me leve e ao meu
menino  escola, no carro, que nos leve, meu menino
e eu, mas ns vamos no banco da frente, no vamos
no de trs, no, que  para os patres, eu sei, ns vamos
com ele, com o Major, sentados ao lado dele,
e est na hora de eu levar ele, o meu menino, se no
ele perde as aulas e...
 Eu levo teu guri no carro, Irene, e deixo na escola.
Tu podes ficar. Vai chamar o motorista.
42



CAPTULO 5
Noite da semana anterior
Tera-feira, 14 de agosto

21h41


A campainha do quarto e sala tocou quatro vezes,
quatro toques curtos, que o tiraram do torpor em frente
do aparelho de tev, levaram Major a levantar-se
e, num gesto automtico, pegar e destravar a pistola
Glock 22 em cima da mesa atulhada de latas de cerveja,
uma embalagem vazia de pizza, algumas caixas
de vdeos de filmes que sempre esquecia de devolver.
 Quem ?
 Sou eu, pai  respondeu uma voz feminina,
rouca, mas ainda com um longnquo tom infantil.
 Estou sozinha. Pode abrir.
O apartamento era mnimo: bastou-lhe esticar o
brao para destrancar a chave e os dois ferrolhos. Barbara
entrou, fechando a porta atrs de si. Major chaveou-
a e colocou os trincos novamente.
 Precisa de tudo isso?  perguntou, buscando
um lugar para se livrar da mochila pesada  Que
parania, pai.
43

 Pe aqui  ele apontou para a mesa, travando
e enfiando a pistola no cs traseiro das calas, afastando
as caixas de vdeos, pegando a embalagem de
pizza, dobrando-a e levando-a para a pia, ao lado do
fogo de duas bocas, dentro do cubculo sem janelas
que os corretores chamavam de cozinha compacta.
Barbara depositou a mochila. Tirou o casaco de
nilon azul-marinho, colocou-o por cima. Ajustou a
blusa e o suter listado de cinza e azul sobre o corpo
magro. Herdara o mesmo tipo longilneo e plido do
pai, tal como ele o herdara do av, vaqueiro no serto
da Paraba, de longnqua mestiagem entre invasores
holandeses e mucamas angolanas.
Era uma adolescente sem graciosidade. Tampouco
tinha a leveza e a despreocupao das meninas de
sua idade. Major temia que acabasse arrastada para o
mesmo desinteresse pela vida que ele. Mas no sabia
como evitar isso. Ou falar disso.
 Estou com sede. Tem Coca?
 gua.
-OK.
Major pegou um dos copos que estavam na pia, lavou-
o, serviu-o de uma garrafa plstica que j fora
de refrigerante, entregou-o  filha. Ela tomou um gole,
apenas. No estava com sede, realmente. Mas no
sabia como iniciar aquela conversa com o pai. Nunca
sabia como iniciar uma conversa com o pai. Nunca
sabia como iniciar uma conversa, pura e simplesmente.
44

 O senhor no toma refrigerante.
No se lembrava se a acostumara a cham-lo assim
ou se acontecera sem a sua interferncia. Mas gostava.
Filhos devem tratar os pais com respeito. E era
assim que a maior parte das pessoas tendia a se dirigir
a ele. Senhor. No, minha filha, no tomo refrigerante,
pode ser que eu no goste, pode ser at que eu
goste, no sei, nunca me acostumei a tomar refrigerante,
na nossa casa, em todas as casas em que eu vivi,
s tomvamos refrigerante em dia de festa, talvez aos
domingos, ou quando algum que nos visitava trazia,
no quartel era gua ou mate ou alguma laranjada servida
com a boia, alguma bebida que eu no lembro,
gua para mim estava bom, era s para matar a sede,
mesmo, pensou em dizer, mas continuou calado, entre
o vo da cozinha e a parte da frente do apartamento
que era a sala.
Ela ia colocar o copo na mesa de centro, mas recuou.
 bom ter alguma coisa para segurar, quando
no se sabe bem o que vai dizer, nem como diz-lo.
 Pai...  tentou.
 O que voc est fazendo aqui, a essa hora? Essa
mochila?
 Meus livros. Apostilas, na verdade.
Barbara passou o copo para a outra mo, tomou
mais um gole. Com a mo livre puxou parte do cabelo
castanho, desalinhado, para trs da orelha.
45

Major observava cada gesto da filha Se fosse interpret-
los  luz do que tinha aprendido na academia
de polcia, consideraria que a tenso da adolescente
de cala jeans e tnis no era por aquilo que precisava
contar, mas sim pelo que precisaria omitir, para no
se comprometer ou aos outros envolvidos.
 Estou estudando aqui perto.
Mas no queria ouvir a filha como fizera com tantas
adolescentes nas periferias daquela cidade indiferente
Mal via Barbara quando ainda era casado com
a me dela, menos a cada dia, desde que se separaram,
seis anos atrs. As visitas quinzenais nos fins de
semana, marcadas pelo juiz depois que a ex-mulher
o acusara de tentativa de agresso, raramente combinavam
com seus sbados ou domingos de folga.
Tampouco gostava que Barbara viesse ao apartamento.
Quase toda aquela regio do centro estava tomada
por drogados, prostitutas e vagabundos vendendo cocana
e maconha. Ali no prdio dele, mesmo, j tinha
posto um safado para fora na porrada.
 Estou fazendo um curso de...
 Aqui perto?
 A duas quadras daqui. Trs. Um pouco mais.
Pr-vestibular. Quero fazer vestibular.  um curso
pr-vestibular. Quer dizer,  um curso de ingls para
secretariado, mas vai me ajudar a arrumar um emprego
melhor para eu poder pagar o curso pr-vestibular.
Quando eu for fazer vestibular.
46

So quase dez da noite. Os cursos e escolas noturnas
encerram suas atividades por volta das oito, oito e
meia, nove. As ruas so mal iluminadas. Uma menina
frgil como ela vira vtima fcil. Assalto, estupro, estupro
com morte, Barbara no devia estar aqui.
 Por que no estuda no seu bairro?
 Na Barra Funda no tem curso de ingls.
 Todo lugar tem curso de ingls. Qualquer bairro
em So Paulo tem algum curso de ingls.
  ingls para o vestibular. Na Barra Funda no
tem. No tem esse tipo de curso. Vou fazer vestibular
para biologia. Ou para qumica. Ou para medicina.
Precisa de ingls bom para passar. No sei nada de
ingls. Quer dizer, sei um pouco. Mas no basta. Para
ser aprovada no vestibular de medicina no basta.
 Voc disse biologia.
 reas biomdicas. Biologia, medicina, odontologia...
 E como voc paga esse curso de ingls, aqui no
centro?
Barbara baixou os olhos, bebeu outro gole pequeno
de gua. Tentou encarar o pai. No conseguiu.
Tentou de novo. O olhar continuou voltado para o
soalho.
Ela no quer mentir, mas no consegue me dizer
a verdade. No sabe como me dizer a verdade. Ela
sabe que eu sei que a me e o padrasto tiveram a poupana
confiscada e no poderiam financiar esse curso
47

de melhor nvel. A poupana que eu vinha fazendo
para seus estudos tambm desapareceu com o confisco.
A minha pessoal, depositada ms a ms desde
que sentei praa, sumiu, como a de outros milhares,
quem sabe milhes, de brasileiros. Agora conto apenas
com a minha aposentadoria, roda pela inflao
a cada ms. Esse trabalho de motorista e segurana,
que eu consegui tem dois meses, sem carteira assinada
para no dar problema na minha penso por invalidez,
paga uma mixaria e ainda no passei um centavo
sequer para a me dela, nem para ela.
 Quem paga?
 Ningum paga, pai.
 Algum paga. Algum tem que pagar.
 Ningum.
 Quem? Um namorado?
 No tenho namorado.
 Quem, ento?
 Pai, o senhor no vai gostar, mas eu precisei
fazer isso.
 Fazer o qu?
 Uma permuta. Eu pago o curso com uma permuta.
 Que tipo de permuta?
 Eu trabalho l no curso. E eles me deixam estudar
de graa.
 Trabalha como? Trabalha fazendo o qu? Voc
tem s dezesseis anos.
48

 Servios gerais.
 Que tipo de servios gerais?
 Arrumo uma coisa aqui, limpo uma coisa ali.
Esse tipo de trabalho.
Major levou um breve segundo para entender o
que a filha lhe dizia.
 Esse tipo de trabalho  trabalho de faxineira.
 No, pai. Faxineira, no. No totalmente.
 Minha filha, voc est trabalhando de faxineira.
Em vez de estudar, voc est trabalhando de faxineira.
  trabalho leve, pai. S de tarde. E uma parte
da noite. De manh eu fao o curso.
 Sua me sabe? Ela deixou?
 Sabe. Deixou.
 Faxineira... Aos dezesseis anos.
 E mais jogar lixo dos alunos fora, passar pano
mido no quadro-negro, dar uma varrida nas salas.
Pouca coisa. No tenho que lavar banheiro, nem coisas
assim.
 Voc tem s dezesseis anos.
 Vou fazer dezessete. Todas as meninas da minha
idade esto trabalhando.
 So faxineiras, tambm? Todas elas?
 Umas so balconistas de loja, outras trabalham
como empacotadoras em supermercados, tem uma
at que j  caixa. Mas nenhuma quer estudar. Nenhuma
tem vontade de ir mais longe. Eu quero. Eu
tenho.
49

 Quem faz faxina no tem tempo para estudar.
Eu sei, eu conheo: minha me fazia. No quero
voc trabalhando de faxineira. Voc tem que ter tempo
para estudar. Vou arrumar um jeito de passar mais
dinheiro para voc. Eu pago esse curso. Quanto custa
esse curso de ingls? Diz quanto custa. Eu arranjo
esse dinheiro.
Barbara colocou o copo na mesa atulhada. Teve
vontade de chorar. Sabia que o pai estava sendo sincero,
mas tambm sabia que no tinha como cumprir
o que lhe oferecia. Mordeu o lbio. Teve vontade de
ir at ele e abra-lo. Mas no eram pai e filha do tipo
que se abraam e ela no saiu do lugar.
 Pai, olha o seu apartamento. O senhor no tem
nada. Tem a cama, esse sof, uma televiso velha, um
aparelho de videocassete mais velho ainda. S. Mais
nada. Nem mesa de comer o senhor tem. No tem
um carro, um telefone, um aparelho de som, uma
tev colorida, nada, pai. Nada.
 No meu novo trabalho tem telefone. Na rua
tem telefone. No ouo msica, vejo qualquer coisa
na televiso. No preciso de nada disso. No preciso
de nada. Toma  entregou um pedao do papel do
mao de cigarro onde anotara um nmero de telefone.
 Liga, se precisar.
Ela guardou o pedao de papel em um dos compartimentos
da mochila, sabendo que nunca ligaria
50

para ele na casa dos patres, nem ele jamais usaria
aquele telefone.
 Quanto custa esse curso de ingls?
 Nada. No custa nada, pai. Me deram a bolsa.
J estou trabalhando l faz uma semana. No se preocupe
comigo. Faa alguma coisa pelo senhor mesmo,
pai. Todo dinheiro que o senhor recebe, o senhor me
d. Sempre deu. Mas agora a gente est pobre, pai.
O senhor, eu, minha me, todo mundo que eu conheo
ficou pobre. O senhor teve que arranjar esse
emprego de motorista. O salo de cabeleireiro da me
vive vazio. Ningum tem mais dinheiro para fazer
as unhas, ou para pagar uma tintura de cabelo, um
alisamento, nada. Ningum nem entra na loja de
autopeas do meu padrasto. Ningum compra nada.
Ningum pode comprar nada. Ningum tem dinheiro
para nada. Nada, pai. Nada. Estamos todos pobres,
pai. Sem sada. Esse emprego vai me dar a chance de
estudar. No vou ficar to cansada assim.  um trabalho
leve. Eu vou conseguir, pai. Eu vou conseguir.
51



CAPTULO 6

Naquela manh
Segunda-feira, 20 de agosto
9h11


Quando Mara entrou no carro, o ar-condicionado
j estava ligado, como gostava e instrua aos motoristas,
em temperatura confortvelmente fresca o suficiente
para no arruinar a maquiagem cuidadosamente
composta. Nunca saa do quarto sem desenhar
a face com que preferia se apresentar ao mundo. Major
j fora informado aonde iriam.
Um segurana fechou a porta do Mercedes-Benz.
Irene, de p no gramado ao lado da garagem, acompanhava
a movimentao com a mesma expresso
indecifrvel que carregava o dia inteiro por toda parte
da casa. O guri no estava com ela, nem dentro do
carro. Antes que perguntasse pelo filho dos caseiros
que aceitara deixar na escola especial, viu o topo da
cabea muito loura, apenas o topo, por trs do banco
ao lado do motorista. Como esse guri  pequeno, pensou.
Que idade ter?
Saram para a rua, os portes foram fechados. Notou
os recortes do sol entre as folhagens das rvores,
53

as manchas da luz no asfalto. Um bonito dia de agosto,
quase to bonito quanto os dias de maio no sul, ela
se lembrou. E, de novo, viu o topo da cabea muito
loura, apenas o topo,  sua frente.
 Por que esse guri est sentado no banco da
frente?
 Eles viajam aqui na frente. Irene... dona Irene
 corrigiu-se  sabe que empregados no viajam no
banco de trs.
 Lugar de criana  no banco de trs  falou,
tentando parecer sensata e maternal.  Pe esse guri
aqui.
 Ele est acostumado aqui na frente, dona Mara.
 Pe ele aqui atrs  repetiu, segura de um ato
louvvel.
 Agora?
 Claro que agora.
Major sinalizou, pretendia fazer a curva ali mesmo
na rua, mas nesse momento surgiu um Fusca cinza
em seu retrovisor. Ele aguardou.
 O que voc est fazendo?
 Vou voltar para fazer a troca.
 Por qu?
 Estamos perto.  rpido.
 Pare aqui e traga o guri.
 No posso. As instrues da segurana so para
no expor nem a senhora nem nenhum outro passageiro.
54

 Bobagem. Pare aqui.
 Temos instrues da segurana que desaconselham...
 Pare, Major. Ponha logo essa criana aqui.
Ele obedeceu, a contragosto. Estacionou junto 
calada. O Fusca cinza passou. Major desceu e deu
a volta pela frente do carro, irritado. No percebeu
que o Fusca parara no quarteiro seguinte, com o motor
ligado.
Abriu a porta do Mercedes-Benz, destravou o cinto
de segurana do menino, pegou-o pelas axilas, levantou-
o, tirou-o dali. Ele comeou a sacudir as pernas
curtas e a se agitar. Apontava, insistentemente. A mochila
ficara para trs.
Major colocou-o no cho. Abaixou-se para pegar
a mochila, ao mesmo tempo que Mara, impaciente
abriu a porta do seu lado e, dando um passo para fora.
pegou a criana pela mo, tentando conduzi-la para
dentro. O garoto no pareceu compreender. Ela, ento,
pegou-o no colo, admirando-se de como era leve,
exatamente no momento em que uma Fiat Uno cor de
mostarda cruzava, lentamente, no sentido contrrio.
A criana deixou-se levar, com docilidade. O homem
de rosto oval e cabelos encaracolados, ao volante
da Fiat cor de mostarda, reparou no gesto que
lhe pareceu acolhedor e maternal, e na semelhana
da mulher loura e clara com o menino muito claro e
muito louro.
55

Mochila posta no piso em frente  criana, Major
bateu a porta, voltou a seu assento, partiu.
O menino olhava para Mara. No tinha nenhuma
expresso no rosto, nem de curiosidade por aquela
mulher que o pegara no colo, nem de satisfao
por estar solto do cinto de segurana, embora tentasse
colocar aquele rosto harmonioso na seqncia dos
que estavam registrados em sua memria, mesmo que
no permanecessem ali por muito tempo, ainda que
sentisse prazer em estar sentado livre naquele banco
macio e lhe agradasse o aroma adocicado que desprendia
dela.
O olhar incomodou Mara. Sentiu-se escrutinada.
Virou-se para o menino, fazendo uma expresso de
desagrado que, esperava, iria desencoraj-lo, mas foi
surpreendida por seu prprio espanto: ele  to pequeno,
notou mais uma vez. Que idade pode ter esse
guri?
 Que idade tem esse guri?  perguntou a Major.
 No sei, dona Mara.
 Trs? Quatro? Cinco?
 No sei, dona Mara.
 Os pais no te contaram?
 No falam sobre ele.
 O guri  mudo?
-.
 Surdo, tambm?
-.
56

Mara cruzou as pernas, com cuidado para no
amassar a saia nem deixar as coxas  mostra. Abriu a
bolsa, em busca de cigarros. O isqueiro Dupont de
ouro que Olavo lhe dera estava l, mas nenhum mao.
 Tens cigarros, Major?
 Tenho. Mas ...
Mara levou o brao em direo ao motorista, sem
esperar que terminasse a frase: era um comando, no
um pedido.
 ... muito forte.
A mo estava estendida, o indicador e o dedo mdio
junto ao ombro dele. Major tirou do bolso do palet
preto de tecido sinttico um mao vermelho e
branco e lhe mostrou:
 Serve esse?
 Tanto faz.
O menino acompanhou seu gesto de puxar o cigarro,
lev-lo aos lbios, pegar o isqueiro. Mas ela no
o acendeu. Algo a inibia. No sabia o qu. No importava.
Fumaria depois que deixasse a criana, antes
de pegar Olavinho. Manteve-o entre os dedos.
 Esse guri sempre fica olhando assim para as
pessoas?
 Ou desenhando.
Que insistncia desagradvel, ela pensou. Mas por
que me incomoda?  apenas um guri. Mas me incomoda.
E no adianta mandar parar de me olhar
fixamente assim, que no me ouvir.
57

 Falta muito para chegar na escola dele?
 Uns vinte minutos, dona Mara.
As ruas e avenidas de So Paulo lhe pareciam ter
carros demais. Estava sempre chegando atrasada. No
conseguia calcular o tempo que levaria de um ponto
a outro. Seria forada a aturar o olhar fixo do menino
por mais vinte minutos?
 Tudo isso? O trnsito est ruim, de novo?
 Normal.
Normal, para esses paulistas,  um trnsito sempre
lento, como agora. E so apenas nove da manh.
Nove e quarenta. Talvez no tenha sido uma boa
idia trazer esse guri para se sentar a meu lado. Talvez
devesse ter deixado que ficasse no banco da frente.
Como est acostumado. Como faz quando vai para a
escola com a me. Quando Major os leva. Empregados
e seus filhos no se sentam no banco de trs. Eu
sei, s preciso me acostumar e lembrar. Ele no est
acostumado a sentar aqui. Ele no deve estar entendendo.
Por isso fica me observando. Eu sou a patroa
da me dele. Ele deve perceber isso de alguma forma.
Mesmo sendo to pequeno, que idade ter esse guri?
No devia ter seguido meu impulso. Sempre alguma
coisa d errado, quando sigo meus impulsos. Deveria
ter deixado que ficasse no lugar a que est acostumado.
E eu no me sentiria como me sinto agora. Como
se eu fosse uma intrusa, aqui. No ele. Como se este
58

fosse o lugar certo dele e eu  que tivesse sido trazida
do banco da frente. Eu s veria o topo da cabea dele.
Seus cabelos louros. To louros que parecem brancos.
E to finos. To finos. Aposto que, se eu soprar,
eles se...
 Tem papel e lpis na mochila dele.
-Ha?
 Dentro da mochila.
Compreendeu que Major sugeria a maneira de
trocar o interesse da criana e, desavisada do que
a presena do menino lhe provocava, inclinou-se, as
pernas muito juntas e inclinadas nos bons modos
aprendidos quando tentara ser rainha da beleza em
sua cidade natal, correu o zper da mochila de tecido
emborrachado, estampada com figuras de personagens
de desenhos animados de Walt Disney, enfiou
ali a mo bem manicurada e retirou o que sentiu serem
cadernos. E os viu. Feios, acinzentados, de papel
vagabundo. Tinham um cheiro que talvez outras pessoas
no percebessem, mas ela sim, um vago cheiro
azedo de cola, como de um tecido mal lavado depois
de sujo de vmito. O cheiro de seus cadernos escolares,
na escola pblica de Tramanda, onde a me a
deixava toda manh, antes de ir para as casas das patroas
fazer faxina e cozinhar. Antes de se mudarem
para a capital.
Sentiu um toque leve em seu brao. Virou-se.
A mo to pequena do menino deslizou at a mo
59

dela e pareceu que a apertou, pareceu que lhe fazia
um... carinho?
Ele inclinou a cabea para o lado e abriu um sorriso.
Mara lhe entregou os cadernos, abaixou-se de novo.
procurou e encontrou alguns lpis de cor, colocou-os
no banco entre eles, o menino escolheu um verde
e comeou a desenhar, imediatamente entretido.
60



CAPTULO 7


Trs semanas antes

Quinta-feira, 28 de julho

21h05


De dentro do Monza observou desde o momento
em que ele saiu pelo porto da casa espremida entre
outras indistintas, na ladeira sem calada. Um nico
poste com luz de mercrio esparramava pelo asfalto
esburacado um tom azulado. Empurrava com vigor
as rodas de bicicleta adaptadas  sua cadeira de paraplgico.
No usava luvas. Subia sem dificuldade. Tinha
a fora e a estrutura larga dos antepassados visigodos
do norte de Portugal e dos sobreviventes das
travessias dos navios negreiros, acrescidas dos msculos
trabalhados com pesos e halteres desde a adolescncia
nos anos 1960, no interior do estado do Rio.
Foi direto ao carro, abriu a porta, apoiou-se nos
braos da cadeira, logo estava sentado ao lado do motorista.
No se cumprimentaram. Dobrou a cadeira,
colocou-a no banco de trs, mandou que o homem
de cabelos encaracolados tocasse em frente.
Para onde, o motorista perguntou, em espanhol
com sotaque chileno.
61

 Em frente, toca, no podemos ficar parados
aqui Antnio respondeu, calando-se em seguida.
Calados seguiram at sair do descarnado bairro de
Sacom.
Que apuraste, perguntou o Chileno.
 Ele se mudou.
Se mudou, como? Por qu? Para adonde?
 Para onde, Chileno. Assim se fala aqui no meu
pas.
Para adonde se vai mudar, insistiu, ansioso. E por
que se mudar?
 J se mudou. Saiu da casa em Alphaville e foi
morar numa rea de gente mais rica.
Adonde? Que barrio?
 Bairro. Para que bairro.
Quando?
 No fim da semana passada. Foi para uma casa
no Jardim Paulistano.
Pero por qu? De um momento para o outro?
 Ningum soube me dizer. Ningum sabia que
ia se mudar de Alphaville. Na quinta-feira despediu os
empregados. Pagou salrios at o fim do ano. Levou
vrias caixas, que os empacotadores de uma companhia
de mudana organizaram em um dia. No sbado
j no estava mais no apartamento. Disse que comprou
a casa com porteira fechada.
Portera fechada?
62

 Com os mveis e tudo o mais que tem por l
Os caseiros dos antigos donos ficaram.
Nadie compra una casa asi, de pronto,
 No fala em castelhano comigo, Chileno.
Ningum compra...
 Eu entendi. Mas no gosto dessa sua lngua.
Nem do seu pas.
A mi tampoco me gusta mi pas hoy, retrucou.
O Chile desmorona, refletiu. Desde que tomou
posse em maro, Patrcio Aylwin acolhe os comunistas
e socialistas que conseguimos extirpar em 1973.
Que adianta Pinochet continuar Comandante do
Exrcito de Chile? Pinochet  uma sombra do que
foi. Tornou-se um velho gag, dominado por uma famlia
corrupta e obtusa, agarrada ao que lhe sobrou
do poder. Eu e outros como eu, que tomamos de incompetentes
como Salvador Allende uma nao desestruturada
e pobre, para transform-la no Chile rico
e pujante de hoje, no temos mais lugar.
Pero por qu o publicitrio se mudou para uma
casa no Jardim Paulistano, assim, de repente, insistiu.
Antnio ignorou a pergunta. Mexia no rdio. Chegou
a uma voz estridente e curta de mulher. Cantava
um ritmo danante, apoiada por um coro.
It's called
A dance floor
And here's
63

What it's for
So come on
Vogue
Let your body
Move to the music
Move to the music
Hey, hey, hey
Come on, vogue
Let your body go
With the flow
Go with the flow...
Trocou de estao. Em tom meloso, um homem
lamentava:
He walks on
Doesn't look back
He pretends he can't hear her
Starts to whistle as she crosses the street
Seems embarrassed to be there.
Oh, think twice
it's just another day for you and me
In Paradise...
Trocou, novamente. Outra voz feminina, desta vez
quase infantil, a mesma batida aucarada, outra cano
em ingls.
64

There's nothing I can do
I'm helpless in your arms
Oh Baby what you do
I'm in love this is it
There's no turning back this time
No no no.
Here we are
Once again...
Correu o dial, em busca de alguma cano brasileira,
sem sucesso. Parecia que, aquela noite, todas as
rdios de So Paulo transmitiam de algum lugar nos
Estados Unidos.
O Chileno parou o carro no sinal vermelho. A notcia
da mudana o perturbara. Onze meses de planejamento
jogados fora. A Organizao em Santiago
no gostaria da notcia. Sabia que era bem apurada.
Confiava em Antnio desde que tinham se conhecido
durante o perodo de caa aos comunistas, nos meses
aps a derrubada de Allende, quando militares chilenos
convidaram especialistas do Brasil e de Uruguai
para conduzir interrogatrios. Os de Antnio,
com vasta experincia no DOI-CODI de So Paulo,
eram os mais bem-sucedidos. E tinha lbia imbatvel
para seduzir informantes. O Chileno aprendera muito
com ele. S lhe faltava conseguir o mesmo sentimento
de piedade que a cadeira de rodas de Antnio
provocava.
65

Analisou a nova situao. Quando o publicitrio
morava em Alphaville, um bairro de construo recente
fora da cidade, era obrigado a sair e chegar sempre
pela mesma rota, de e para uma rea nobre no
corao de So Paulo. J estava decidido onde, quando
e de que forma interceptar seu carro, retir-lo e
lev-lo. A mudana para o Jardim Paulistano complicava
tudo. O bairro era acessvel por inmeras ruas e
avenidas. Quase todas as casas e manses eram cercadas
por muros. Muitas, guardadas por seguranas
armados. Os investidores em Santiago precisavam ser
avisados. Os planos seriam adiados? Abortados?
 O semforo  Antnio falou, apontando para
a luz agora verde.
Prosseguiram por uma avenida que o Chileno no
reconhecia. Nada em So Paulo lhe parecia capaz de
ser registrado. Alguns trechos, de to cinzentos, lembravam-
lhe a Berlim do final dos anos 1960, onde tinha
recebido os primeiros treinamentos sobre tcnicas
de interrogatrio, junto a outros cinco funcionrios
do servio de inteligncia do Chile, por assessores militares
norte-americanos. Passava as marchas calado.
Antnio tambm se calara. Apenas apontava  direita
ou  esquerda, quando deveria virar.
Quantos milhares de dlares gastos inutilmente.
Aos investidores essas despesas inteis no agradariam
nem um pouco. Onze meses queimando dinheiro.
Quatro especialistas, baseados na Argentina, Paraguai
66

e Peru, trazidos para c desde meados de abril, fora
Antnio e ele prprio. O stio alugado entre sonolentas
cidades do interior, onde seria seguro manter o
publicitrio pelo tempo que fosse necessrio at o
pagamento do resgate. Os vos entre Santiago e So
Paulo, So Paulo e Buenos Aires, Buenos Aires e Assuno,
Assuno e Lima, Lima e Santiago, durante
a fase de contratao dos outros quatro operadores.
Novos vos de Santiago a So Paulo, de So Paulo a
Nova York, de Nova York a So Paulo. Os dias passados
em Manhattan, no apartamento de luxo alugado
a preo exorbitante na rua 72, bem em frente ao prdio
do publicitrio, acompanhando suas andanas
com a jovem mulher loura por butiques e restaurantes
da Madison Avenue, noites seguidas de insuportveis
musicais da Broadway, passeios vespertinos por
museus, instituies culturais, loja aps loja de brasileiros
na rua 46 at, finalmente, o prmio: testemunhar
sua entrada sem a mulher no discreto edifcio da
rua 52, onde, nos dois ltimos e amplos andares, funciona
a base nova-iorquina do banco israelense onde
tanto o publicitrio quanto a Organizao em Santiago
tm conta. A volta ao Paraguai para a compra de
quatro carros pequenos, mais este Monza, mais a caminhonete
Ford F-100 preta, mais uma Kombi e a
van com pintura de uma lavanderia de Osasco, todos
com nmeros de motores raspados, placas clonadas e
documentos de aspecto perfeitamente legal.
67

As identidades e os passaportes falsos, os dlares para os guardas
da fronteira, os aluguis de apartamentos separados,
na periferia, para cada um dos operadores, o dele
em Guarulhos, o suborno de garons, manobristas,
faxineiros, porteiros, entregadores, jardineiros, guardas
de trnsito, office boys, floristas, carteiros, mecnicos,
babs, ascensoristas, garis, balconistas, jornaleiros,
tanta gente para quem deu um dlar aqui, mais dois
ali, nos lugares freqentados ou por onde costuma
passar o publicitrio, tantas gorjetas em tantas mos,
nesses onze meses, que perdera a conta.
Antnio desligara o rdio e falara alguma coisa que
no ouviu direito.
Que disseste, perguntou.
 Blindado  foi a resposta.
Blindado, qu?
 Passou a circular em carro blindado. Um Mercedes-
Benz como o outro, s diferente na cor, prata.
No dirige mais. Contratou um motorista que tambm
 segurana, O Mercedes azul agora  usado
para levar a mulher e o filho. O motorista da mulher
 um ex-policial militar. Os dois motoristas andam
armados. A casa tem segurana vinte e quatro horas.
Dois sujeitos, de uma empresa confivel. E monitorao
com cmeras de vdeo.
Carajo, ainda esses novos fatores de desequilbrio
para nosso longo e minucioso planejamento:
68

um carro blindado. Com segurana. Armado. Bem treinado,
provavelmente. Sabes a origem dessas mudanas?
 Ordens de Braslia.
Braslia? Y por qu, surpreendeu-se genuinamente.
Braslia lhe ordenou que se mudasse? Braslia decidiu
que o publicitrio use carro blindado? Os motoristas
armados tambm foram uma ordem de Braslia?
A casa vigiada, a...
 Tudo. Todas as mudanas. Planejadas e executadas
com interferncia direta de Braslia.
Entonces no foi uma deciso do publicitrio,
 No foi.
Entonces Braslia tem razes prprias para que
o publicitrio seja muito bem protegido, o Chileno
concluiu.
Temem que seja seqestrado. Sabem de ns.
 No. Temem a imprensa. Vazamentos. Furto de
documentos. Revelao de nmeros de contas bancrias
na Sua, em Belize, esse tipo de coisa. O dinheiro
que vem sendo confiado ao publicitrio desde
o incio da campanha poltica ano passado.
Unicamente a ele?
 Principalmente a ele  informou Antnio, citando
fontes com que mantinha contato e negcios
no extinto, mas ainda atuante Servio Nacional de
Informaes.
Se  assim, refletiu o Chileno, seqestrar o publicitrio
faria o mundo desabar sobre ns. Por mais
69

furiosa que venha a ser a reao de Braslia, ainda que
coloquem a Polcia Federal atrs de ns, ainda que
seus associados arregimentem os melhores capangas
de Alagoas ou de Pernambuco para nos eliminar, no
seria nada, perto de todos os grupos de segurana e
resgate que esses bancos e instituies financeiras internacionais
poriam em nosso encalo. Pode ser que
a Organizao em Chile optasse por nos entregar,
quando constatasse todas as implicaes que o seqestro
do publicitrio teria. E toda a fortuna envolvida.
Quanto do dinheiro da campanha eleitoral no foi
contabilizado? Quanto vem entrando, depositado pelos
interessados nas privatizaes? Quanto ainda...
Em Miami eu serei feliz, pensou Antnio, enquanto
atravessavam uma rea desolada prxima  praa
Roosevelt. Um mendigo, enrolado em um cobertor,
aproximou-se de um grupo em torno de uma fogueira,
jogou nela um caixote. A felicidade  fcil em
Miami. Se no a felicidade, se no feliz como nas
esperanas tolas de meu irmo Paulo, pelo menos no
rodeado por putas e drogados como esses. Esquecerei
a demisso humilhante do SNI por esses corruptos do
novo governo, depois de quase duas dcadas de bons
servios. Miami. Ou Fort Lauderdale. Ou Tampa.
Miami. Miami  melhor. No digo uma casa na mesma
ilha onde o Emerson Fittipaldi tem a manso
dele, mas um lugar bacana. Com gramado na frente
e piscina no quintal. Um Mustang 5.0 conversvel na
70

garagem. Tambm pode ser um Camaro. Outro bairro
bom, aquele, como chama, mais antigo. Coral Gables.
Em Miami as caladas tm rampas. L, estar em
cadeira de rodas no  um problema o tempo todo.
No  humilhao vinte e quatro horas por dia. Na
Flrida todas as caladas tm rampas. Em todas as
cidades dos Estados Unidos que conheci, as caladas
tm rampas. Os cinemas tm lugares especiais. Terei
meu prprio negcio. Longe daqui. Em Miami. Olavo
tem muitos bons milhares de dlares. Eu quero.
Eu tenho direito. Breve estaro na minha conta. H
uma maneira.
 No podemos seqestrar o publicitrio.
No, Antnio. No Io podemos. s impossible. Vou
consultar a Organizao em Santiago e decidir o que
fazer em seguida. Amanh, logo cedo.
 No precisa consultar ningum.
 Seguramente preciso. Hoje mesmo. Ou amanh.
 No precisa. Tenho a soluo.
 Com carro blindado? Com segurana organizada
por Braslia? Com...
 No vamos seqestrar o publicitrio Antnio
cortou.  Vamos seqestrar quem vale tantos dlares
quanto ele. Ou mais. Algum que no represente
interesse algum para Braslia. Mas que obrigue Olavo
a nos dar quanto quisermos. Vamos seqestrar o filho
dele.
71



CAPTULO 8

Naquela manh
Segunda-feira, 20 de agosto

10h06


H quanto tempo estamos nesse engarrafamento?
Tem pelo menos meia hora que samos de casa. Mais,
at. Que horas so?
  muito longe essa escola?
 Estamos perto.
 Tu dissestes que chegaramos em vinte minutos.
J estamos h mais de meia hora neste carro.
 O trnsito, dona Mara. No sei por que est
to lento. Pode ser algum acidente. Faltam s umas
quadras.
Na calada as pessoas passavam apressadas. Em
So Paulo as pessoas sempre estavam apressadas, ela
pensou. Uma gorda carregava vrias sacolas de compras.
Um magro de casaco marrom tropeou e deu
um esbarro nela. Um repolho caiu de uma das sacas,
rolou at o asfalto, onde um pneu logo o esmigalhou.
Um velho esperava para atravessar no sinal. Trs meninas,
vestindo uniformes de escola pblica, riram de
73

algo que uma delas tinha dito. A mais baixa era ruiva.
Ruivas, morenas, loiras, gordos, magras, feios, bonitos,
altos, baixas, velhos, jovens e mais algumas outras
poucas definies bastavam para Mara. Assim estava
povoado seu mundo.
Voltou a ateno novamente para o interior do carro.
O guri a desenhar. Major quieto. No tinha uma
revista para ler, nada para se distrair.
 Liga o rdio.
Major obedeceu, a contragosto. Gostava de silncio.
A voz impostada de um locutor, dobrando os erres,
invadiu o carro: ... o ministro considera que a retirada
de oitenta por cento da moeda em circulao est
demonstrando o acerto das medidas do Plano Collor.
De maro a junho, a inflao caiu de oitenta e um por
cento para nove por cento. Segundo o ministro...
 Tira isso. Pe uma msica.
Girou o boto, passou por outros noticirios, at
chegar a uma voz de mulher a cantar uma balada
lenta:
 / hope life treats you kind,
And I hope you'll have all you've dreamed of.
And I wish you joy and happiness.
But above all,
I wish you love...
 Deixa nessa. Essa  bonita.
74

Era de um filme que vira em Nova York, com Olavo.
Com aquele ator louro que ganhou o Oscar e
aquela cantora negra que tinha um vozeiro.
And /... will always love you...
I will always love you...
You, my darling you...
Ela fazia papel de uma cantora, mesmo. Ele era
o guarda-costas dela. No ficavam juntos no final. Ou
ficavam, no tinha certeza. No entendia ingls to
bem assim. Entendia um pouco. Dava para falar uma
coisa ou outra nos hotis, ou no txi, mas pouco.
Nunca tinha feito um curso de ingls. Aprendera na
escola secundria de sua cidade, depois outro tanto
em Porto Alegre, e s. Olavo falava ingls. Falava e lia
muito bem. Estudara,  claro. O pai advogado obrigava.
Ingls e francs. Nas lojas de departamentos, nos
museus, nos restaurantes, nos bistrs, era sempre Olavo
quem falava ou lia. Como fez no contrato de compra
do apartamento da rua 72.
If I should stay
I would only be in your way
So I'll go
But I know I'll think ofyou
Every step of the way...
75

Gostaria de entender as palavras daquela msica.
Sabia o que queria dizer I will always love you, e mais
uma ou outra palavra. No bastava. Precisava saber
mais ingls. Com as idas freqentes a Nova York, agora
que tinham o apartamento, agora que ela era dona
de um apartamento em Manhattan, no podia continuar
sabendo to pouco. Talvez fazer um curso intensivo.
No. Um curso, em salas com a gurizada, no.
Teria aulas com um professor particular. Olavo podia
arranjar um.
 Estamos chegando  Major avisou.
Exceto pela placa no muro, a escola em nada diferia
das outras casas encardidas do bairro de baixa
classe mdia que desde os anos 1970 ia sendo tomado
por novos edifcios residenciais. Havia um ponto de
nibus quase em frente. Um guarda de trnsito se postara
ao lado, com um bloco de multas na mo. Major
o viu.
 Vou estacionar na outra quadra.
 No. J demoramos demais. Pare aqui.
 O guarda...
 Pare em frente. Eu levo o guri.
Mara tomou os papis e o lpis da mo do menino,
enfiou-os na mochila, pegou-a, colocou a criana
nos braos, abriu a porta, saiu.
O guarda observou com ateno a mulher loura a
levar no colo o menino muito louro e muito branco
at o porto da escola, aberto por uma professora.
76

O menino entrou. A professora fechou o porto.
A mulher loura voltou ao Mercedes-Benz. O carro
partiu.
O guarda de trnsito caminhou duas quadras 
frente e entrou em um Monza gren, dirigido por um
homem de rosto oval e cabelos encaracolados.
Dentro do Mercedes-Benz, estranhou o silncio.
 Tu desligou o rdio?
 Abaixei o volume.
 Aumenta.
No ordenava por arrogncia, como poderiam lhe
permitir seu tailleur, que custara o equivalente a quatro
salrios e meio do motorista, ou as jias penduradas
em sua orelha, pescoo e pulso, suficientes para
pagar alguns anos do aluguel do quarto e sala no arruinado
centro de So Paulo onde ele morava desde
o divrcio, ou a bolsa igualmente usada pela princesa
de Mnaco, mas porque no mundo em que crescera
a urgncia do querer, do necessitar, do tomar, no
permitiam a fraqueza  ou a hipocrisia  do acrscimo
de duas palavras. Por. Favor.
Ele obedeceu. Ousara diminuir o volume contando
que a mulher do patro no notaria ou se importaria.
Acatava a ordem como se no tivesse cometido
a transgresso de impor sua vontade dentro do veculo
de luxo que no lhe pertencia. De onde viera se
aprendia desde cedo: aqueles que mandavam de perto
nunca eram os reais detentores do poder, mas tinham
77

acesso aos que verdadeiramente o exerciam. Empregados
no confrontam patres, nem exprimem desagrado.
 ruim para as gorjetas e os favores. E ele queria
pedir um. Ainda no sabia de que forma faz-lo.
No um favor para si. Para Barbara. Uma mulher rica
como dona Mara devia conhecer gente que desse um
emprego para sua filha. Podia ser em uma loja. Barbara
no era bonita, mas com um tanto de arrumao,
uma roupa boa, podia ter um emprego em alguma
butique onde dona Mara fosse freguesa. Barbara
era educada, respeitadora, tinha bons modos. Podia
tambm trabalhar de bab. Gostava de crianas. Podia
ser substituta em fins de semana de alguma bab
das amigas de dona Mara. Qualquer coisa era melhor
do que ficar tirando lixo e limpando banheiros.
A americana da voz poderosa tinha acabado de
cantar seu amor eterno, o locutor disse seu nome,
acrescentando que a msica era o sucesso nmero
um nas paradas norte-americanas. Em seguida anunciou
uma cano cujo ttulo Major no entendeu.
Logo nos primeiros acordes percebeu que tambm
era um lamento de amor, s que desta vez em vrias
vozes.
I don't wanna talk
About the things we've gone through
Though it's hurting me
Now it's history
78

I've played all my cards
And that's what you've done too
Nothing more to say
No more ace to play
The winner takes it all
The loser...
Chata. Msica muito chata. No entendia o que
cantavam, mas percebia o lamento e a autopiedade.
No eram assim todas as canes? Sou infeliz, quem
amo me abandonou, no sei viver sem ele ou sem ela
et cetera e tal?
 Pe uma msica brasileira.
Mexeu no dial, levando o ponteiro adiante, at o
fim dos nmeros das rdios indicadas, parando a cada
uma e voltando do mesmo modo. Chegou a uma
cano antiga, que reconheceu vagamente.
Porque os desafinados
Tambm tm um corao
Fotografei voc na minha Roleiflex
Revelou-se a sua enorme...
A voz fanhosa do cantor foi interrompida. Ouviu-
se o rufar de tambores e o som de trombetas:
Interrompemos nossa programao para trazer a
nossos caros ouvintes, em primeirssima mo, a notcia
que nos chega de Berlim. Na capital alem, agora h pouco,
79

as autoridades anunciaram que a to especulada
unio entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha
Oriental ir mesmo ocorrer. E j tem data marcada. O
evento que sepultar em definitivo a Guerra Fria est
marcado para o prximo dia 3 de outubro. A separao
das duas Alemanhas aconteceu quando...
 Tira da.
 Sim, dona Mara.
 Quero ouvir msica brasileira.
As rdios transmitiam notcias ou msica estrangeira,
outra msica estrangeira, mais uma msica estrangeira,
at que ouviu uma dupla masculina a cantar
uma toada ou coisa assim, num ritmo como sua av
mineira gostava.
H uma nuvem de lgrimas sobre os meus olhos
Dizendo pra mim que voc foi embora
E que no demora meu pranto rolar
Eu tenho feito de tudo pra me convencer
Me provar que a vida  melhor sem voc
Mas meu corao no se deixa enganar...
Deixou ali. Mara no reclamou. Tampouco parecia
ouvir. Tinha acendido o cigarro, dera uma tragada,
agora o segurava entre os dedos da mo esquerda.
Vivo inventando paixes pra fugir da saudade
Mas depois da cama a realidade
80

E s sua ausncia doendo demais
D um vazio no peito, uma coisa ruim
O meu corpo querendo o seu corpo em mim
Vou sobrevivendo num mundo sem paz...
O isqueiro de ouro continuava na mo direita, a
bolsa aberta. Olhava para alm da janela. No estava
interessada no que se passava l fora.
Pensava no menino, to louro, to delicado, to
leve, que h pouco carregara no colo. Que idade teria?
Ele abraara seu pescoo. Quando o ia entregando
 professora, sentiu seu brao como se a apertasse
e viu que levava o rosto para junto do seu, como se
fosse beij-la. Afastou-se a tempo. Nada de borrar a
maquilagem.
Por que tentara beij-la? Por que o abrao? Tomara
que Olavinho no viesse com esse tipo de demonstrao
pblica de afeto. Tinha horror dessas cenas, cada
vez mais freqentes, que via em parques, praas, ruas
e shoppings, de filhos e mes se abraando e se amassando
como se tivessem se reencontrado depois de
sculos separados. Ridculo. No  necessrio nada
disso para demonstrar amor pelo filho. Minha me
nunca foi de ficar me abraando, me beijando, me
fazendo carcias, nada disso. E, no entanto, me amava.
Amava muito. Me ama. Fez por mim tudo o que
podia. Ajustava as roupas das filhas das patroas para
meu corpo, quando ainda era empregada domstica,
81

mantinha meu uniforme escolar limpo e impecvel
lavando  noite e secando a ferro para eu usar no dia
seguinte, me comprava os melhores xampus, e a maquilagem,
pode no ter sido a melhor, mas comprava,
me levava s selees de modelos desde os oito anos
de idade, me acompanhou a cada inscrio e desfile
para os concursos de Miss Porto Alegre Teen, Princesinha
das Rosas, Rainha disso, Miss daquilo, sempre
do meu lado, comprando revistas de moda e copiando
o melhor que podia os modelos das atrizes de
Hollywood e das novelas, desde que conseguiu emprego
em uma loja de tecidos no centro de Porto Alegre.
Foi um comeo. Um bom comeo. No o melhor
comeo. Mas tinha que ter algum.
No ganhou nenhum concurso, mas conheceu
gente que lhe arranjou trabalho de modelo, desfilou
em vrias cidades do interior gacho, algumas vezes
em Porto Alegre, participou de comerciais de boas lojas
de eletrodomsticos, passou a ser includa em selees
para comerciais em So Paulo e no Rio de Janeiro.
Da surgiram algumas oportunidades de sair
para jantar com um ou outro cliente, enfim...
Uma vida que acabou quando conheceu Olavo,
durante a seleo de elenco para um comercial de
cerveja que a agncia dele produzia. No ganhou o
papel, mas, enfim... Enfim ali comeou sua nova
vida. Sua felicidade. No do jeito que imaginava,
mas... Felicidade, assim mesmo. Porque felicidade .
82

Para ser feliz precisa... Felicidade  ter o que ela tem,
por exemplo. Paz. Tranqilidade. Uma bela casa.
Uma vida de viagens internacionais. Belas roupas.
A roupa que quiser. O sapato que desejar. Em Paris,
em Roma, em Miami, em Nova York, aqui mesmo.
Basta entrar na loja, escolher e levar. No. Mandar
entregar. Ou deixar que Major v pegando as bolsas e
as caixas enquanto ela desfila na frente, distrada, a
passear pelo shopping, sob os olhares de todas aquelas
que um dia a desprezaram, quando era a menina-
usando-a-roupa-ajustada-que-foi-da-filha-da-patroa-dame.
No mais. Nunca mais.
Felicidade  tambm ter um filho como Olavinho.
Inteligente, alegre, curioso. Saudvel. Bem diferente
do irmo dela. Vicente vivia na cama. Falava
to pouco. Era to magro. To plido. To diferente
de Olavinho, grande, moreno, agitado, sempre a falar
e perguntar por que isso, por que aquilo, fala, fala,
pergunta, pergunta, fala, pergunta, corre, fala, corre,
no para. Um menino saudvel. Assim so os guris
saudveis. Vicente mal conseguia sair da cama. Ela
ia para a escola de manh, voltava no fim da tarde,
incio da noite, e Vicente parecia no ter sequer
se mexido debaixo dos lenis. Muito quieto. Muito.
Os olhos azuis, mais azuis do que os dela, acompanhavam
a movimentao da me a preparar uma
sopa, esquentar um po, preparar um mingau de
aveia. A cama de Vicente era a mais perto do fogo,
83

o lugar mais morno. Na sua lembrana faz sempre
muito frio naquela casa mnima, onde os trs dormiam
no mesmo cmodo. At Vicente ser levado
para o hospital. Se lembra dos fios de gua escorrendo
pelas paredes, principalmente nas noites geladas
de agosto e julho. Mas a j eram apenas ela e a me
a dormir na casa.
Agora vai pegar Olavinho em uma das escolas mais
caras de So Paulo e lev-lo em um dos melhores carros
do mundo ao shopping mais chique da cidade mais
rica do Brasil. Iro ver um filme, depois faro algumas
compras, depois se sentaro em um bom restaurante,
talvez aquele de comida francesa na Nove de Julho,
La alguma-coisa, ou aquela churrascaria na Haddock
Lobo, melhor uma churrascaria. Criana gosta de
churrascaria. Eu, mais ainda. Espero que ele no fique
fazendo muitas perguntas. Espero que ele no fale demais.
Falar. Estar surpreso porque eu o busquei na
escola. Nunca o busquei na escola. No sou bab.
Tem quem faa isso. Mas ele vai querer saber. Porque
eu te amo, direi. Pronto. Da falaremos de outras coisas.
De que falaremos? Ele falar. Falar muito. De
muitos assuntos. O que aprendeu na escola e querer
me ensinar, o que conversou com a professora, o que
pensou, o que deixou de pensar, aonde foi, o que comeu
no lanche, como  sua professora, como  sua
classe, como  seu melhor amiguinho, como  o coleguinha
que ele detesta e que bateu nele, ou em quem
84

ele bate sempre, o exerccio de matemtica, no, ainda
no tem idade para fazer exerccio de matemtica. Ou
tem. No vejo os cadernos dele, no sei o que estuda.
No  necessrio. A escola  boa. A escola  tima.
Olavinho j fala ingls. Entende e fala tudo em ingls.
L em ingls. Olavo quer que ele v estudar na Inglaterra
ou na Sua. Ou nos Estados Unidos. Sou a favor.
Totalmente a favor. Quanto mais cedo Olavinho
for, melhor se adaptar ao novo pas e aos costumes
de l. Com nosso apartamento na rua 72, podemos
sempre visit-lo. E, mais tarde, ele poder nos encontrar
em Nova York, passar um fim de semana conosco,
algo assim. Ele vai ficar muito curioso de eu ir peg-lo.
Ele vai ficar perguntando. Perguntando sem parar. E
falando sem parar. No cinema, nas lojas, no carro, no
restaurante...
O cigarro tinha apagado em seus dedos. A longa
cinza caiu no tapete. Colocou a guimba no cinzeiro.
Abriu, fechou, acendeu e apagou o isqueiro vrias
vezes.
 Major  chamou.
 Pois no, dona Mara.
- Volta.
- Voltar?
 Para casa.
 A senhora no vai mais pegar o...
- Volta.
 Sim, dona Mara.
85

 Depois que tu me deixares, tu retornas e pegas
o Olavinho e esse filho dos caseiros.
 Seu Olavinho sai s catorze horas. O  disse o
nome do menino muito branco e muito louro, que
Mara no ouviu  fica naquela escola at s quinze
ou quinze e trinta.
 Tu pegas o Olavinho, deixa em casa, depois voltas
para pegar esse guri surdo-mudo.
 Sim, senhora  Major aquiesceu, sinalizando
para entrar  esquerda.
86



CAPTULO 9

Naquela noite
Segunda-feira, 20 de agosto

19h03


Amar  um verbo que s faz sentido em publicidade,
ocorreu a Olavo, folheando as pastas com os
anncios e storyboards da campanha aprovada pelo
presidente da estatal de energia.
Por amor ao futuro de seus filhos abandone sem
revolta o lugar onde viveu toda sua vida. Amar  permitir
que alterem sua existncia em nome de um futuro
com que o engabelam. Amar  segurar ar nas
mos e achar que tem ali a chave da vida na Terra...
Amar deve ter sido inventado para vender alguma
coisa. No havia linguagem codificada mas Amar j
era essencial para a sobrevivncia comercial do Neandertal
mais prximo. Quando as pinturas rupestres de
Altamira ou do Vale da Capivara forem decifradas, os
arquelogos confirmaro que anunciavam Voc Vai
Amar Nossos Tacapes Com Nova Frmula, ou Amar
 Servir Carne de Biso Sem Aditivos. Trinta mil anos
depois pintamos em outdoors e telas de televiso.
Voc vai amar a nova margarina Elion. Quem ama
87

protege, banhando os filhos com sabonete Dubox.
Amei cada bocadito de Clinton Nuggets. Feliz do
amor aconchegado com cobertores Pelobon.
Parou na fotomontagem de uma grande rea de
videiras carregadas de cachos maduros. Ao longe
viam-se as comportas de uma hidreltrica. Canadense,
provavelmente. Ou do norte dos Estados Unidos.
Eram as mais fotognicas. Em primeiro plano um
campons saudvel sorria com todos os incisivos centrais,
laterais, caninos e molares no devido lugar. Segurava
uma enxada nos ombros. Atrs dele havia um
trator. No percebera a redundncia antes. Um dos
elementos precisava sair quando a foto definitiva fosse
produzida, A enxada. Passava demais a idia de esforo,
cansao e anacronismo. Trator era mais moderno,
mais eficiente, mais up to date. E lembrar ao diretor
de arte e ao fotgrafo que o modelo deveria ter nariz
mais grosso e pele mais morena, mais prxima da fantasia
do que seria um brasileiro tpico. Aquele era um
dos anncios previstos para a mdia estrangeira.
No acompanhava mais as sesses de fotos. Nem
a filmagem dos comerciais. Ou o casting. No tinha
mais tempo para esse controle. No era mais o donocriativo-
faz-tudo-da-agncia-butique de cinco anos
atrs, quando entrara no estdio de um fotgrafo para
escolher a protagonista de um filmete de cerveja e a
viu pela primeira vez.
88

Entre outras vrias louras altas de cabelos longos,
enfileiradas de mai, sorridentes e semelhantes como
bonecas em prateleira, modelos de segunda linha 
caa do bom cach de figurao, percebeu-a. No
porque fosse a mais bonita. Nem a do corpo mais voluptuoso.
Ela no tinha o rosto inerte das boas modelos,
sobre os quais  possvel pintar qualquer inteno.
Mesmo congelada no sorriso profissional, percebeu
um incmodo por trs de sua face muito branca,
sob a maquiagem em excesso. No sabia se advinha
dela mesma ou de sua percepo daquela desconhecida.
Num impulso, mandou sua assistente convid-la
para jantar, algo que nunca fazia com modelos. Mesmo
aquelas com quem manteve algum relacionamento
eventual jamais tinham sido vistas com ele em pblico.
Prezava seu casamento de doze anos com
Selma e preservava de qualquer estorvo as duas filhas,
Alice e Carolina. Um jantar num lugar discreto seria
uma exceo. De l iriam para um hotel. Ponto final.
Mas a loura recusou o convite. E o seguinte, que
fez atravs da agncia de modelos. Descobriu seu
nome, que no morava em So Paulo e um nmero
de telefone em Porto Alegre. Deixou recado na secretria
eletrnica. Mara Elizabeth Grunnert no ligou
de volta. Telefonou mais duas vezes, deixou novos
recados, igualmente sem resposta. Obteve seu
endereo, mandou flores. Nenhum retorno.
89

Na vez seguinte mandou flores e um anel. Mara devolveu o
anel. Reenviou a jia e novas flores. O anel voltou
com um bilhete de agradecimento, escrito em letra
desenhada, inclinada para a esquerda. Ele armou reunio
com um cliente no fim da tarde em Porto Alegre,
convidou-a para jantar. Ela surgiu no horrio,
apenas levemente maquiada, o cabelo preso em rabo
de cavalo. Parecia mais jovem. Disse que estava grata
pela ateno, mas pediu que no mais a procurasse.
Estava noiva de um engenheiro de Furnas. Mostrou
a aliana, contou que ia se casar dentro de dois meses
e mudar-se para o interior, levando a me. Olavo ouviu
sem dar importncia nem registrar as palavras
dela. Solte os cabelos, falou, interrompendo. Ela se
calou. Olavo insistiu: solte os cabelos. E, em seguida,
surpreendendo a si mesmo; suba comigo. Quero te
ver nua. Ela baixou o rosto. Quero te ver nua, ele
repetiu. Quero te lamber toda. Quero te...
Mara colocou o guardanapo suavemente sobre o
prato, ergueu o rosto, murmurou Obrigada, Adeus,
levantou-se, saiu do restaurante. S ento Olavo se
deu conta. O que parecera desequilbrio no rosto de
Mara era a vulnerabilidade que afasta a arrogncia
comum s mulheres com certeza da prpria beleza.
Comoveu-se e sentiu-se ainda mais excitado.
Alcanou-a na rua, a entrar em um txi. Pediu-lhe:
no v. Pediu-lhe: fique comigo. Pediu-lhe: me
desculpe. Pediu-lhe: jante comigo, s isso, jante comigo.
90

Mara desceu do txi. O casamento dele acabou
alguns minutos depois. Entre seus braos compridos,
finos, envoltos na mesma penugem loura, quase prata
conforme a luz, a formar uma trilha macia de seu
umbigo at o sexo rosado, que ele lambia com a voracidade
dos tempos de adolescente nos puteiros de Belm,
e onde gostava de enfiar seu pau escuro, apoiando-
se nos braos para manter seus corpos separados
e se ver, entrando e saindo com fria da mulher to
plida, antes de gozar e se deixar cair sobre ela, suado
e satisfeito, imprensando-a contra o colcho, sentindo
que ela mal conseguia respirar, quase sufocada por
seu peso, s vezes com lgrimas nos olhos, e que aquilo
lhe dava ainda mais prazer.
Mara era sua. Muito mais do que a casa do Jardim
Europa e a da praia de Maresias, os carros com que
sonhara na juventude, os prmios dos festivais de filmes
publicitrios em Veneza e Cannes, as contas bancrias
nos parasos fiscais, a crescente confiana dos
assessores da Presidncia da Repblica na sua discrio.
Faltava-lhe pouco. Um pied--terre em Manhattan,
por exemplo. O apartamento da rua 72 pertencia
ao ministro, como seria o prximo, em Central Park
South, cuja papelada assinaria nos prximos dias. Mas
o seguinte seria dele, to logo descobrisse como driblar
o Imposto de Renda americano. No Upper East
Side. De preferncia prximo  Park Avenue. Ou nela
mesmo, nas cercanias da rua 80, agora que o mercado
91

imobilirio nova-iorquino est em baixa. Depois seria
a vez de comprar um apartamento em Paris. Na Rive
Gauche, que tem muito mais a ver com gente criativa
do que a Rive Droite, cheia de turistas bocs e potentados
rabes. Talvez no Marais, numa rua discreta
como a Jouy. Ou na rue Beautreillis, onde alugara
um apartamento no vero de 1985. Grande, mas um
forno. Todo apartamento em Paris precisa da instalao
de ar-refrigerado. Em qualquer margem do Sena.
Hum. Era bom lembrar que o presidente e os ministros
se sentem melhor na Rive Droite. E que l esto
as lojas onde as mulheres e amantes deles gostam de
fazer compras.
Ernesto entrou porta adentro, sem bater. Trazia
uma mochila na mo esquerda. Estava acompanhado.
O sujeito grandalho a seu lado vestia um terno
amarfanhado. A gravata, de tecido sinttico a imitar
seda, tinha estampas que Olavo s decifrou quando
chegaram mais perto: pssaros a se transformar em
peixes a se transformar em pssaros. Escher made in
China, imaginou. Uma dupla improvvel, continuou
analisando, passando da gravata Herms  mochila
com estampas de personagens de Walt Disney que
Ernesto pusera no soalho de mrmore, a seus sapatos
Church, deles ao Vulcabras com solas de borracha do
acompanhante que ele acabara de apresentar. Olavo
somente registrara as ltimas quatro palavras.
92

 Inspetor da Polcia Federal?
Por que estavam ali? O que os trouxera a seu escritrio
quela hora? Sem aviso?
 Voc disse Inspetor Vieira?
 Vieri.  gente nossa. Fique tranqilo.
Eu estou tranqilo, pensou. Ainda que irritado
com essa invaso. Mas tranqilo. Por que no estaria
tranqilo?
 O doutor Ernesto me pediu que eu viesse com
ele. Dar apoio neste momento.
Apoio a quem? Apoio por qu? Quem pediu apoio?
Esse no era um momento para conversas. Esse era
um momento em que precisava ficar sozinho, em silncio,
s com seus pensamentos e clculos.
 Sente-se, Olavo.
 Estou bem aqui. Estou trabalhando. Este realmente
 um mau momento para me interromper.
 Sente-se.  melhor que voc se sente.
Preciso estudar o plano de mdia da campanha.
Fazer os ltimos ajustes. J discutimos a ida a Nova
York. J aceitei o inevitvel. Irei. Assinarei o contrato
de compra do apartamento do ministro. No ser desse
assunto que ele querer que eu trate com um
inspetor da Polcia Federal.
 Por favor, sente-se. Fique calmo.
 Pode falar, Ernesto. Estou bem aqui, de p.
Preciso fechar o que estava fazendo. Para a sua conta.
Nossa conta. Nossa campanha. Diga.
93

Quem falou foi o grandalho da gravata Escher
made in China.
 O senhor conhece Carlos Roberto da Costa?
-No.
 Conhece, Olavo  Ernesto interveio, sentando-
se. Os outros dois homens permaneceram de p.
  o motorista da sua mulher.
 Ah, o Major.
 Tenente reformado da Polcia Militar  esclareceu
o inspetor.
 Tanto faz. Por que estamos falando dele?
 O senhor o conhecia bem?
 Claro que no. Era um dos motoristas da casa.
 Ns  que o contratamos  explicou Ernesto.
 Ele, o outro motorista e os seguranas da casa.
Todos indicados por gente nossa do antigo SNI.
 O tenente reformado Carlos Roberto da Costa,
de trinta e seis anos, foi morto com cinco tiros esta
tarde, ao volante de um veculo Mercedes-Benz azul
registrado em nome da empresa do senhor. Um tiro
em cada ombro, trs na cervical. Foi praticamente
decepado. H perfuraes de balas de vrios calibres
na lataria do veculo.
Meu Mercedes-Benz azul, pensou Olavo.
Nosso Mercedes-Benz azul, pensou Ernesto.
 As perfuraes indicam que os indivduos atacaram
o tenente Costa pela dianteira e pela traseira
94

da viatura. Ainda no temos informao de quantos
elementos eram. Ainda no temos testemunhas. Foi
uma ao rpida.
 Meu carro  blindado.
 O seu , Olavo. Esse no.
 Mas vocs disseram que...
 O que importa  o seu carro ser blindado, Olavo.
 No foi um ataque comum, doutor Olavo. O
tenente Costa foi executado. A arma dele, uma Glock
22, uma arma eficientssima, uma arma usada pela
polcia americana, ainda estava na cintura dele. 
uma arma cara.
 Ns  que providenciamos as armas dos seguranas
do doutor Olavo  explicou Ernesto.
 O tenente Costa no fez nenhum disparo. Foi
uma ao rpida.
 O senhor j disse isso.
 A boa notcia  que no h marcas de sangue
no banco traseiro. O menino no deve ter sofrido nenhum
ferimento.
 Menino?
 Sente-se, Olavo.
 Que menino?
 Sente-se, Olavo.
 Deixaram esta nota.
 De que menino vocs esto falando?
 
melhor voc se sentar, Olavo.
95

 Provavelmente vo entrar em contato com o
senhor ainda hoje, no mximo amanh, para estabelecer
as condies do resgate. Vamos precisar grampear
seus telefones daqui e da sua casa.
 Escutas telefnicas? Nem pensar.
  preciso, Olavo.
  o procedimento, doutor Olavo.
 Tenho conversas sigilosas com meus clientes.
Fao operaes que no podem vir a pblico. No
permito que grampeiem meus telefones.
- Com todo respeito, doutor Olavo, no precisamos
da sua permisso. Estamos investigando um
crime.
Sentiu que comeava a suar. Detestava suar.
 Ernesto, voc sabe que no pode haver escutas
em meus telefones. As conversas com o Gordo, lembra?
O dinheiro da campanha eleitoral? As transferncias
de fundo? Voc sabe. Avise para o inspetor que
meus telefones no podem ser grampeados.
 j esto, doutor Olavo.  o procedimento.
A camisa Pancaldi estava ficando molhada debaixo
do brao. Foi at o controle do ar-condicionado central
junto  porta de entrada, colocou a temperatura
no grau mais baixo que o aparelho permitia, voltou.
 Isso  uma arbitrariedade. No estamos mais na
poca da ditadura.
 Sente-se, Olavo. Acalme-se. Mandei avisar ao
Gordo que no telefone para voc at resolvermos
96

toda essa situao. Ele est em Zurique. De l vai
para Lausanne.
 Eu sei. Falo com o Gordo quase todo dia. Vou
continuar precisando falar com ele.
 Usaremos outras pessoas.
 H detalhes dos nossos negcios que s ele e eu
conhecemos.
 Nosso grupo  de confiana. Outras pessoas
cuidaro do Gordo.
Enxugou o suor da testa com a manga da camisa.
Outras pessoas no crculo significava mais riscos de
vazamento. E de partilha. O inspetor continuou sua
explicao.
 Primeiro eles vo ligar para c ou para sua casa.
O senhor vai escolher um telefone l e um outro aqui
para que esses elementos tenham acesso direto ao senhor.
Esses telefones tm que ficar livres. Quando
eles ligarem, o senhor vai ter que ter sangue-frio. Vai
conversar com eles sem pressa. Tem que dar a impresso
de calma e de que est concordando parcialmente
com as exigncias. Mas que o senhor no tem toda
a quantia que eles querem. E que precisa de tempo
para reunir o total que eles aceitarem. O doutor Ernesto
vai usar os conhecimentos dele na imprensa
para brecar qualquer notcia que atrapalhe o bom andamento
das investigaes.
Percebeu a mochila aos ps de Ernesto. Os desenhos
no tecido emborrachado. A viagem a Orlando.
97

Olavinho, Mara e ele rodeados pelos bonecos de
Mickey e Minnie Mouse, Pateta, Pato Donald. Sanduches
com gosto de isopor, baldes de refrigerantes
aguados, filas, gritos de crianas, sacolas de compras
cheias de bons, camisetas, lpis, bonecos, blocos de
notas, bugigangas, aquela mochila. Aquela mochila.
Aquela mochila?
Sentou-se.
 O carro foi rebocado da cena do crime, doutor
Olavo. Seus vizinhos do Jardim Europa tambm no
tm nenhum interesse em tornar pblico um ataque
em frente s residncias deles. O corpo do tenente
Costa...
 O senhor est me dizendo que...  virou-se
para Ernesto.  Voc e esse inspetor esto aqui para
me dizer que...
 O corpo do tenente Costa est no Instituto Mdico-
Legal. A famlia ainda no foi avisada. O doutor
Ernesto achou que era melhor avanar um pouco
mais na investigao antes de procurar os parentes
dele.
Aquela mochila. Tinha comprado aquela mochila
na Disneyworld?
 No sabemos por que o tenente Costa no reagiu.
No podemos acusar o tenente de ter colaborado
com o seqestro. No temos provas de que foi eliminado
pelos comparsas porque no confiavam nele ou
98

qualquer outra razo. Ainda no temos essas provas.
Tudo indica que sim, mas temos que reunir provas.
Estamos apenas comeando a investigar. Sabemos
que o tenente Costa foi criado em favela e que tinha
amigos nesses locais.
 Voc ps um amigo de traficantes para trabalhar
na minha casa, Ernesto?
 Calma, Olavo. O nosso pessoal est checando
essas informaes com gente confivel do antigo SNI.
Pode ser que seu motorista seja inocente.
 Inocente? Um segurana que no reage ao ser
atacado por bandidos?
 Ainda estamos investigando, doutor Olavo.
Logo teremos as provas necessrias. O importante,
agora,  pensar no bem-estar do seu filho.
 Meu filho?
O delegado apontou para a mochila.
 Deixaram para trs. De propsito. Para mostrar
que levaram ele.
 Essa mochila no  do meu filho.
Ergueu-se.
 Essa mochila vagabunda no  do meu filho.
Afastou-se da mesa, foi at o telefone sobre a escrivaninha
de ao escovado e tampo de vidro, discou.
 Essa mochila vagabunda no  do meu filho
 repetiu, enquanto aguardava que atendessem do
outro lado.  Al, Irene? Sim, sou eu. No, no quero
99

falar com minha mulher. Quero falar com o meu
filho. Chama ele.
Esperou, triunfante.
 Essa mochila vagabunda de nilon indicou
com o queixo  voc compra em qualquer loja da
rua 25 de Maro. Meu filho no usa uma porcaria
dessas. Al, Olavinho. Hello, sonny. Daddy wanted
to hear your voice. Daddy estava com saudade, por
isso ligou para voc  repetiu em portugus, olhando
desafiadoramente para o grandalho da gravata Escher
made in China. Para ouvir sua voz. Did you eat
already? J jantou? Bifinho com batata frita que a Irene
fez? What about dessert? Quindinzinho de coco?
Oh, yummy. E na escola, como foi hoje? Oh, how
nice, you learned about life in a coffee farm in Africa?
A coffee farm in Kenia? Good, good. Daddy is proud of
you, son. Qual motorista pegou voc na Escola Inglesa?
Which one? O Major, foi? A que horas o Major
pegou voc? You don't remember? Voc no lembra?
Mas foi o Major que apanhou voc na Escola Inglesa,
no foi? Depois do almoo?After lunch? Okay, Olavinho.
Daddy loves you. Daddy vai passar no seu quarto
quando chegar, para lhe dar um beijo. Agora chama
a Irene que Daddy quer falar com ela. Um beijo para
voc tambm, sonny. Irene? A que horas Major pegou
meu filho na Escola Inglesa? Deixou Olavinho em
casa s trs da tarde? E para onde foi depois? Pegar o
100

seu filho? Por qu? Quem deu ordem para o Major
pegar o seu filho na escola de surdos? Ah, dona Mara
disse que podia. No, Irene, no sei onde eles esto
agora. Retidos no trnsito, provavelmente. No se
preocupe. No comente nada com dona Mara. Tem
sorvete em casa? D um sorvete para o Olavinho.
101



CAPTULO 10

Naquela noite

Segunda-feira, 20 de agosto

18H50


Os dois automveis pequenos deixaram a rodovia
estadual, um na traseira do outro. Percorreram com
os faris baixos a estrada vicinal mal asfaltada e escorregadia
sob a chuva fina por quase quatro quilmetros,
at chegarem a um porto de toras de madeira
e arame farpado, aberto pelo sujeito gil e espadado,
a cabea raspada encoberta por uma touca de l, a
Magnum 3.57 oculta sob a japona escura. A operao
iniciada trs horas atrs funcionava exatamente no
tempo e nos detalhes, tal como planejada.
A caminhonete Ford F-100 foi o primeiro veculo
trocado, deixada a poucos quarteires de onde tinham
praticado o seqestro, com a porta destrancada, a chave
na ignio e todos os documentos minuciosamente
compostos e trazidos desde o Paraguai dentro do
porta-luvas. Dela transferiram o ba onde haviam colocado
a criana para uma picape menor, branca, fechada,
com o smbolo e o endereo falsos de uma
103

lavanderia de Guarulhos, depois substituda por uma
Kombi de vidros escurecidos em um posto de gasolina
na sada de So Paulo, mais adiante por uma Fiat
Uno cinza, com placa de Minas Gerais, no estacionamento
j s escuras de uma rede de restaurantes de
frango assado. Ao deixar o lugar, o carrico foi acompanhado
por um Chevrolet Kadett Hatch gren, placa
de Valena, estado do Rio, falsa como as de todos os
veculos anteriores. Menos de duas horas depois chegaram
 sada que indicava Piedade - Ibina - Pilar
do Sul - Votorantim. Entraram por ela.
Conversaram apenas o essencial durante o percurso.
Falavam-se em espanhol. Os sotaques eram
sul-americanos, mas diferentes na cadncia e nos pronomes.
Aps fechar a porteira, o homem de japona e touca
de l entrou no segundo carro. Os veculos subiram
a colina sacolejando pela trilha de cascalho at 
casa de tijolos aparentes e telhado pontudo, em tosca
mistura de estilo alpino. As janelas, painis duplos de
pinho barato, tinham o centro recortado em forma
de corao, como o construtor imaginava que fossem
os chals tiroleses. A nica iluminao vinha de um
lampio a gs, aceso na varanda. O lugar, como outros
naquela regio rural, no tinha luz eltrica e por
isso mesmo fora escolhido. No havia vizinhos nas
redondezas. O homem que montava guarda em frente  casa,
104

empunhando um fuzil, batia os ps no cho
em tentativa intil de espantar o frio.
Os carros foram estacionados lado a lado, com os
faris ainda ligados. Um dos passageiros do Kadett
entrou na casa, acendeu outro lampio. O motorista
do Uno e o sujeito de japona abriram o porta-malas,
retiraram dali o ba, levado sem esforo para dentro
da casa. O outro passageiro do Kadett, de rosto oval e
cabelos encaracolados, entrou em seguida. O homem
magro e mais velho que acendera os lampies levantou
o tampo do ba. Tirou dali o saco, pegou-o entre
os braos, empurrou uma cadeira com os ps, colocou
o saco sobre a mesa, desamarrou a corda que o
fechava, comeou a abri-lo.
Viram, primeiro, os cabelos muito louros do menino.
Sua testa alva. Os olhos fechados. A cabea
imvel.
O saco inteiro foi retirado. O menino no se mexia.
Houve um primeiro momento de surpresa e hesitao.
O homem com cara de ndio adiantou-se,
olhou a criana mais de perto, recuou. Que se passa
com ele, perguntou, assustado.
Est dormindo ou morreu sufocado, sups o Peruano,
que deixara a guarda para ver o resultado da
ao daquela tarde e para se abrigar do frio, mesmo
que temporariamente.
Viraram-se para o homem de cabelos encaracolados
e rosto oval, aguardando resposta e orientao.
105

Ele se aproximou, colocou o indicador e o dedo mdio no
pescoo do garoto, em seguida sentiu seu pulso.
Ficou fechado no ba tempo demais, disse.
Respira ainda, quis saber o sujeito da japona.
Sim. Est apenas desacordado.
E todo mijado, falou o homem mais velho,
mostrando as calas molhadas da criana. Tirem essas
roupas dele. Ponham roupas secas.
Entreolharam-se. Nenhum se mexeu.
No h roupas para ele, disse El Boliviano.
Por que no, perguntou o velho.
Daniel no disse que devamos comprar nenhuma,
justificou El Boliviano.
Ningum aqui  chamado pelo nome, repreendeu
o homem de cabelos encaracolados, elevando a voz.
Sim, claro. Perdo.
Ningum mandou que eu comprasse pijamas para
ele, repetiu El Boliviano. Ou qualquer outra roupa.
Ningum, indagou o velho Emiliano.
No para mim.
Nem para mim.
Eu tampouco. Nenhum de ns sabia que deveria
comprar roupas para o menino.
Isso no importa. Uruguaio, comandou o homem
de cabelos encaracolados, apontando para Emiliano,
tu ficas com ele esta noite. Amanh pela manh ficas
tu, disse ao sujeito de japona, tu  tarde  apontou
desta vez para El Boliviano  e uma vez mais o Uruguaio,
106

 noite. Peruano, tu dormirs durante o dia. Eu
alternarei a guarda contigo.
E comida, quando lhe damos, indagou Emiliano,
chegando com uma manta acrlica de tons amarelados.
Trs vezes por dia, no mais. De manh, de tarde
e  noite.
E se tiver fome? Crianas com fome choram muito,
comentou, enquanto tirava os sapatos, as calas e
as cuecas do menino.
Se chorar, d-lhe uns tapas.
As meias tambm esto midas. Se mijou muito.
Deve ter sentido muito medo. Melhor tirar as meias,
tambm. Alfonso...  corrigiu-se.  Tu, d-me um
par de tuas meias, falou ao sujeito de japona e touca.
Das bem grossas. Sei que tens.
So grandes demais para o menino.
D-me, caralho. Que importa se so grandes, irritou-
se Emiliano. O garoto est com frio. No vs que
tem frio?
A pele da criana estava arrepiada. Comeou a bater
queixo.
Traz logo, caralho. Vai. Pega as meias. Tu tens
meias de l. Traz logo, Alfon... Traz, caralho.
O sujeito tirou a touca de l, jogou-a no cho, virou-
se e se dirigiu ao quarto.
No provoque Alfonso, viejito. J fizeste outras
operaes com ele, sabes que  um pouco louco.
107

Que v para o caralho com sua loucura. Este garoto
vale ouro, no?
Vale muitas centenas de milhares de dlares para
cada um de ns. Tens razo, viejito. O garoto tem de
estar com boa sade. Pelo menos at o pai fazer o
depsito do que queremos.
O sujeito de cabea raspada trouxe as meias, enroladas
como uma bola. Lanou-as na direo de Emiliano,
que as pegou no ar, desenrolou-as e comeou a
enfi-las nos ps da criana.
O garoto est quente. Tem febre. Traz-me um termmetro,
comandou, a ningum em particular.
Onde h um, perguntou El Boliviano, aps alguns
segundos de hesitao.
No sei. Em alguma gaveta. Procura, v.
O homem de bochechas coradas abriu gavetas da
casa alugada dois meses antes, depois foi ao armrio
do banheiro, buscou em gavetas da cozinha.
Apressa-te.
No h termmetros aqui. No vejo. No encontro.
Traz-me um antitrmico.
Qual?
Que importa, caralho. Qualquer um. O que houver.
O menino comea a arder. Sua febre sobe.
H somente um vidro pela metade de sal de frutas.
Uma barra de manteiga de cacau. Mercurocromo.
Algodo. Esparadrapo. Nada mais.
108

Nem um analgsico? Nem uma aspirina?
Nada mais.
Ento tu mandas um deles buscar na cidade, Daniel,
disse ao homem de cabelos encaracolados.
No se fala nomes aqui, viejito.
Que se foda, Daniel. Este menino est com muita
febre. V como se encolhe de frio. Diz a um destes
que v a uma farmcia da cidade.
Te apiedas dele, viejito?
 nosso investimento, Daniel. Precisamos desse
menino. Tu me chamaste ao Brasil para um servio
com um adulto rico. Em vez disso me fazes pegar o
filho dele. No foi nosso arranjo. Nem comigo nem
com estes. No gosto. No gostamos. Mas tu nos deixaste
sem sada. E que temos agora, aqui? Um menino
doente. Febril. Diz logo a um destes que busque
um remdio para febre. E que traga um termmetro,
tambm.
Queres que eu v, ofereceu-se o ndio de bochechas
coradas. Sei onde ficam as farmcias de Pilar do
Sul. Vou e volto em trinta minutos.
Daniel meneou a cabea, concordando.
V com ele, Argentino, ordenou ao sujeito de cabea
raspada. Usem a Fiat. E me tragam dois pacotes
de cigarros.
Logo saram. Emiliano carregou a criana at o
quarto onde a nica janela estava trancada,
109

com ripas de madeira pregadas de cima a baixo. Daniel o
seguiu.
No me agrada que me fales desta forma, disse,
fechando a porta atrs de si. Estou no comando. Assim
foi decidido pela Organizao em Santiago. Tu
tens que acatar as decises que tomo.
Caralho que tenho de te obedecer, contestou Emiliano,
enquanto colocava o menino no catre. Tirou o
casaco de l, jogou-o sobre a cama encostada  parede.
Manteve a pistola Walther nove milmetros na
cintura. Nunca se apartava dela.
Tu crs que os outros no pensam como eu, Daniel?
Que no lhes parece absurdo realizar esta operao
com uma criana? Somos profissionais, Daniel.
Quantas vezes trabalhamos juntos? Em Venezuela,
Chile, Argentina, Peru, Colmbia, quantas vezes? Porm
nunca com uma criana, Daniel. Tu no nos
disseste que nosso alvo era uma criana.
No era, Emiliano. As circunstncias iniciais se
modificaram. Eis por que...
Nosso plano era deixar o publicitrio em alguma
estrada do Paraguai, depois do pagamento do resgate.
J adiantei parte do dinheiro aos policiais das fronteiras,
em Ciudad del Este e em Foz do Iguau. De um
lado e do outro os patrulheiros esperam que passemos
com um adulto, no com um menino de, que sei eu,
trs, quatro, cinco anos.
110

Para eles no faz diferena. O que querem  ter os
dlares nos bolsos.
Tu queres que saiamos daqui, que atravessemos
este estado, que cruzemos o Paran, que entremos no
Paraguai com este menino no porta-malas? Vivo?
Daniel no respondeu.
 idia de teu scio brasileiro, no , Daniel?
Sequestrar uma criana  idia do aleijado, no ?
Antnio no  um aleijado. Ficou paraplgico em
uma operao contra subversivos na selva brasileira.
E no usamos essa palavra, seqestro. Esta  uma operao
para transferncia de fundos.
Que se foda, Daniel. Que se foda um caralho de
merda na boceta de tua irm, Daniel.
Quando quatrocentos mil dlares estiverem depositados
em teu nome em um banco do Caribe, Emiliano,
tu no sentirs arrependimento. E no te recordars
nem mesmo da cor dos olhos desse menino.
Calaram-se. No tinham mais o que se dizer ou
acusar.
Caralho. Caralho, caralho, caralho, Emiliano disse,
entre os dentes.
Amanh, Daniel falou, antes de trocarmos a guarda
do menino, e quando ele melhorar desta febre,
gravas o primeiro cassete que enviaremos ao pai. Faz
com que diga: Papai, se me amas, paga pela minha
vida. Faz com que diga: No quero morrer, papai.
111

Ou: Tenho medo de morrer, papai. Algo assim. Se for
preciso que chore um pouco, d um tapa nele. Com
fora. Grava a hora que deres o tapa, para que o pai
oua. Grava o choro. Manda o menino dizer: Esto
me machucando, papai. No deixa que me machuquem,
papai.
Bateu a porta, com estrpito. O menino muito louro,
de olhos fechados, no demonstrou reao.
112



CAPTULO 11

Naquela noite

Segunda-feira, 20 de agosto

21H08



Passava das nove quando terminou de esvaziar as ltimas
latas de lixo. Estava com fome e estava atrasada.
Queria chegar em casa a tempo de reler as notas das
aulas, fazer os exerccios e ainda poder descansar
um pouco antes da manh da tera, quando chegaria
mais tarde ao curso. Precisava ajudar a retirar os mveis
e materiais do salo de cabeleireiro de onde a
me fora despejada por falta de pagamento. As poucas
clientes que lhe restavam seriam atendidas nas prprias
casas e apartamentos.
Tirou a jaqueta de brim verde com o crach que a
identificava como Barbara, Assistente de Servios Gerais,
pendurou-a no cabide de plstico dentro do armrio
que lhe reservaram no banheiro dos empregados.
Colocou o suter de l acrlica listado de cinza e
azul sobre a blusa creme, vestiu por cima o casaco de
nilon azul-marinho, pegou a mochila, pendurou-a
no ombro estreito.
113

Desceu os sete andares sozinha no elevador. Mesmo
assim, e apesar da fome, no abriu a mochila para
retirar o sanduche de po integral e pasta de gergelim
trazido de casa. No se sentia  vontade comendo
em lugares pblicos. No gostava que a vissem mastigando.
Igualmente lhe desagradava ver outras pessoas
a comer. No freqentava pizzarias ou lanchonetes
como as outras jovens de sua idade. No apenas por
economia e porque no comia carne vermelha. Os
maxilares se mexendo, os lbios tortos para a direita,
para a esquerda, o garfo enfiado dentro da boca, os
dentes enterrando no po, toda aquela alterao facial
lhe traziam mal-estar. Sempre arrumava um jeito de
fazer as refeies em horrios diferentes da me e do
padrasto. Deveria ter comido o sanduche no banheiro.
Teria tapeado a fome at chegar  Barra Funda.
Mas tinha nojo daquele lugar. Da permanente mistura
de odores de excrementos e desinfetante.
Saiu  rua Maria Paula. Chovia fino. Apressou o
passo em direo  estao do metr, buscando a proteo
das poucas marquises que havia no caminho.
Virou a esquina, entrou na rua Santo Amaro. Algum
chamou seu nome. Ou um nome igual ao seu. A rua
estava vazia. Ouviu seu nome novamente. Virou-se.
Era um rapaz. Magro e comprido. Tinha uma mochila
s costas. No o conhecia.
 Voc anda rpido  ele disse, arfando.
 Quem  voc?
 114

 Estava te esperando.
 Por qu? Quem  voc? Como sabe meu nome?
 Estava escrito no crach.
Barbara enrubesceu. Incomodou-a ser identificada
como uma Assistente de Servios Gerais. Incomodou-
a algum prestar ateno nela apesar do uniforme
verde. Acreditava que se tornava invisvel dentro
dele. Como tinham sido invisveis para ela, at ento,
pessoas que esfregavam pisos, limpavam janelas, areavam
pias. No sabia como responder quela situao.
Deu as costas para o rapaz e retomou a caminhada
rpida.
 Espere! Barbara!
Correu para alcan-la.
 Espere! Quero falar com voc. Espere!
Ela continuou, sentindo agora as gotas da chuva
no rosto. O rapaz a seguiu. Alcanou-a.
 Meu nome  Lus Cludio. Tambm sou aluno
do curso de ingls. Desculpe falar com voc assim, no
meio da rua. No tive coragem de falar com voc l
dentro.
 Por qu?  ela parou, encarando-o.  Estava
com vergonha de falar com uma faxineira?
 No! No.
 Est querendo me cantar?
 J vi voc muitas vezes. Estou na turma que
entra depois da sua.
 Me deixa em paz  disse, saindo.
115

Ele foi atrs. Mantinha-se a curta distncia. Estavam
na avenida Vinte e Trs de Maio. Aproximavam-
se da estao.
 Voc est indo para a Barra Funda.
Barbara no respondeu.
 Eu sei.
Chegaram  Estao Anhangaba. Estavam molhados.
 Eu j te segui.
Barbara parou. Disse, tentando no parecer assustada:
 Meu pai mora aqui mesmo, sabia? Naquele
prdio ali, , est vendo aquela luz acesa?  inventou.
  no apartamento do meu pai. Ele  da polcia,
entendeu? Polcia Militar. Vou ali e chamo ele,
entendeu?
O rapaz baixou os olhos. Tentou sorrir. No conseguiu.
 Desculpe. Desculpe, Barbara. Eu te segui
porque voc sai tarde. Te segui mais de uma vez.  perigoso
andar de metr to tarde. Eu queria ter certeza
que voc chegava em casa sem problemas. Por isso
te segui. Desculpe. Desculpe, Barbara. Ento, como
hoje est chovendo, eu pensei que podia tentar falar
com voc e... E...
Abriu a mochila, tirou um guarda-chuva dobrvel.
 Eu sempre trago. Quer usar?
Barbara riu.
116

 Voc tem um riso bonito.
Ela enrubesceu mais uma vez. Detestava quando
isso acontecia. Esperava que ele no tivesse notado.
 Posso ir com voc at a sua casa? Meu nome
 Lus Cludio.
 Eu sei. Voc j falou.
Ele era do interior, do noroeste do estado de So
Paulo, contou, a caminho do destino de Barbara. O
mais novo de quatro irmos, dois homens e duas mulheres.
Livia e Laura estavam casadas, l mesmo em
Promisso, tinham filhos, eram donas de casa. O irmo
Leonardo emigrara para os Estados Unidos, via
Canad. Trabalhava em construo civil, com outros
brasileiros, numa cidade cujo nome no se lembrava,
exceto que era perto de Boston. Leonardo estava tentando
obter o Green Card, mas ainda no tinha economizado
o suficiente para pagar a alguma americana
disposta a se casar com ele. Quando conseguisse, levaria
Lus Cludio para morar l. Por isso estudava
ingls. Morava em uma vaga de penso no centro
mesmo, dava para ir a p at o curso. Completava a
mesada fazendo trabalhos de digitao. s vezes fazia
entregas. Por causa delas conhecia quase todas as estaes
de metr. E sabia o percurso de dezenas de
linhas de nibus.
 Pergunta um lugar a, que eu te digo como chegar
l.
Barbara riu, novamente.
117

 Gosto quando voc ri. Nunca tinha visto voc
rindo. Voc no ri muito.
Outra vez no sabia o que dizer a ele.
 Quer que eu te conte uma coisa engraada?
Barbara acenou com a cabea, afirmativamente.
 Sabe qual  meu sobrenome?
Ela aguardou.
 Grosso. Meu nome todo  Lus Cludio Grosso.
Riram. O trem chegou  estao. Saram. Chovia,
ainda. Lus Cludio abriu o guarda-chuva. Proteger-se
os obrigou a ficarem mais prximos. No se disseram
nada por alguns minutos, ambos encabulados.
Foi Barbara quem quebrou o silncio.
 Eu tambm, s vezes.
 Tambm o qu?
 Tambm penso. Em ir embora.
 Virar emigrante?
-.
 Ir para os Estados Unidos?
 . Ou para Portugal. Soube de gente que foi
para l. Vrias pessoas. Tem uma vizinha nossa que
est indo. Vai com visto de turista.
 Para os Estados Unidos  melhor. Tem mais
emprego.  mais difcil para entrar, mas vale a pena.
L do valor a quem trabalha. Voc tem at trinta
anos para pagar uma casa. Os preos no mudam.
O que custa hoje, vai custar amanh. As pessoas planejam
118

o que vo fazer no ano que vem, daqui a cinco
anos, coisas assim. Meu irmo escreveu para mim dizendo
que no quer voltar para o Brasil. Se conseguir
o Green Card, s vem aqui para visitar nossos pais.
 Eu no posso ir. Minha me est com problemas
de dinheiro, meu pai  aposentado, meu padrasto
tem que pagar penso para a ex-mulher e um filho.
No posso. Eles precisam de mim. Mas acho que eu
gostaria. Se pudesse, acho que eu gostava de ir.
Desejou, naquele momento, que Lus Cludio lhe
perguntasse se queria emigrar com ele e sentiu vergonha
de pensar isso. Pela cabea do rapaz passou
a idia de dizer a ela: seria bom se a gente fosse juntos
para os Estados Unidos. Mas nenhum dos dois
deixou que a vontade aflorasse e se transformasse em
palavras.
 Barbara, voc quer trabalhar em qu?
 Secretria bilnge. Se eu souber ingls, eu consigo.
Tem muita firma estrangeira entrando no Brasil.
Com o salrio de secretria bilnge posso ajudar minha
me e ainda estudar. Quero fazer vestibular.
 De qu?
 Ainda no tenho certeza. E voc?
 No vou fazer vestibular. Vou para os Estados
Unidos. Assim que o Leonardo me chamar, eu vou.
Chegaram ao prdio de dois andares onde ela morava.
A chuva parara. Despediram-se, sem marcar um
novo encontro, nem mesmo trocar nmeros de telefone,
 119

mas ambos com a certeza de que se reveriam.
Barbara entrou. Subiu as escadas at o apartamento
de fundos para onde se mudara quatro anos antes,
quando a me abrira o salo de beleza numa rua prxima.
Encontrou-a sentada  mesa de jantar. Todas
as luzes estavam acesas, o apartamento revirado. Ela
ergueu-se quase num pulo.
 A polcia esteve aqui  disse, num tom alto
demais. Percebeu-o. Completou, tentando controlar
a voz.  A Polcia Federal.
Barbara olhou a desordem em volta.
 Revistaram tudo.
 O que...?
 Levaram seu padrasto. Acham que pode ser
cmplice.
 Henrique? Cmplice de qu?
 Do seu pai. Encontraram promissrias em
nome do Henrique no apartamento do seu pai. E nosso
endereo.
 Promissrias?
 Seu pai vinha ajudando Henrique. Emprestando
dinheiro para ele.
 Que dinheiro? Meu pai no tem dinheiro.
 Da aposentadoria. Eu achava que era dinheiro
da reforma dele da Polcia Militar que ele emprestava
para o Henrique. Para ns.
 Meu pai no tem dinheiro para emprestar.
Nem telefone ele tem.
120

 No era dinheiro da aposentadoria. Era de
drogas.
 Me, voc enlouqueceu?
 Seu pai tem ligao com traficantes. A Polcia
Federal descobriu. Encontrou drogas no apartamento
dele. Seu pai est preso. Incomunicvel.
- Onde?
 No disseram. Nem para onde levaram seu padrasto.
Ns precisamos arranjar um advogado, Barbara.
Ns precisamos fazer alguma coisa. No sei nem
por onde comear. No sou amiga de nenhum advogado.
Voc conhece algum advogado?
Barbara no sabia se conhecia. No se lembrava de
jamais ter conhecido um. Naquele momento o que se
lembrava era do que vira quando o pai abriu a porta
do apartamento apertado e sujo na rua Riachuelo.
Lembrava-se de cada mvel. No havia sequer meia
dzia deles. Uma caixa de pizza. Um fogo de duas
bocas. Uma geladeira vazia. Seu pai mencionara um
trabalho extra de motorista. E segurana. Talvez tenha
dito um nome. Ela no se recordava. No tinha
certeza de seu pai ter falado o nome de algum. Mas
no apartamento dele deveria haver algum sinal. Alguma
indicao. Para entrar l precisava de uma chave.
No tinha. Mas o porteiro teria uma cpia. Nesse tipo
de prdio eles sempre tm. Se no tivesse, poderiam
arrombar a porta. Ou saberia o nome do patro do
pai. Ou o endereo onde trabalhava. Ou...
121

Virou-se, saiu correndo porta afora. A me gritou
por ela. Barbara continuou correndo at a estao
do metr. Embarcou na direo Anhangaba. S no
meio da viagem se lembrou do pedao de papel de
cigarro que o pai lhe dera na noite anterior. Acabou
por encontr-lo, depois de vasculhar repetidamente a
mochila. Havia um nmero de telefone ali. O ltimo
algarismo estava borrado.
122



CAPTULO 12

Naquela noite

Segunda-feira, 20 de agosto

21h13


Ouviu a movimentao no andar trreo, maior do
que a habitual quela hora. Percebeu outras vozes
se misturando  de Olavo. O tom habitualmente alto
do marido vez por outra era suplantado pelo que lhe
pareceram conversas de outros homens. Duas, trs
vozes diferentes, no tinha certeza. Nem interesse em
descobrir. Talvez Olavo tivesse convidados para jantar.
Provavelmente acertou o cardpio com Irene.
Sempre tratava diretamente com Irene. No se incomodava
com isso. No sabia nem tinha interesse em
aprender a combinar prato de entrada, prato principal,
sopa, salada, peixe, carne, ave, sorvete para limpar
o paladar entre este e aquele, sobremesa, caf, licor.
Alm do mais passara a tarde na cama, com
enxaqueca, e avisou que no atenderia telefonemas.
Os trs homens, ou quatro, estariam tomando
drinques. Usque, certamente. Olavo deve ter oferecido
algum vinho. Gostava de mostrar o quanto
123

conhecia safras e tipos de uvas. Ou ter reservado os vinhos
para o jantar.
Reparou que no ouvia risos. Deviam estar discutindo
algum assunto srio. Provavelmente falavam de
coisas de Braslia. De gente de Braslia, com certeza.
Quando estava perto evitavam citar cargos e sobrenomes.
S usavam prenomes. O Fernando. O Marclio.
O Bernardo. A Zlia. O Leonel. O Pedro. A Teresa.
Se queriam evitar revelaes ou demonstrar intimidade
com os poderosos, para ela tanto fazia. No tinha
o menor interesse naquela gente, nem naquele tipo
de conversa. Quando as mulheres deles estavam junto
era mais chato ainda. Falavam de casa, de moda,
de decorao, de filhos, de empregadas, de fofocas de
gente da capital que ela no conhecia.
Precisava levantar-se. Colocar uma roupa. Pentear-
se. Maquiar-se. Colocar um sapato de salto bem alto,
para ficar quase uma cabea acima dos convidados,
como Olavo gostava. Um par de brincos. Um colar.
Uma pulseira. Abrir a porta do quarto. Caminhar pelo
corredor. Descer as escadas. Atravessar o hall. Entrar
no salo. Sorrir. Cumprimentar cada um deles. Dizer
alguma coisa a cada um deles. Aceitar algum drinque
que Olavo lhe oferea. Convidar a todos para passar
 sala de jantar e se retirar, se for um jantar de negcios.
Caso contrrio, teria de aguardar que Olavo indicasse
o lugar de cada convidado  mesa. Sentar-se,
para que os homens tambm pudessem sentar-se. Sorrir.
124

Conversar. Comer. No sentia fome. Cada vez
tinha menos apetite. Mas desceria e faria toda a encenao,
to logo o copeiro batesse  porta, avisando
que o jantar estava quase pronto. Mas primeiro precisava
levantar-se.
Levantou-se.
Agora  preciso escolher o que vestir.
Caminhou descala sobre o tapete cor de baunilha,
grosso e macio. O quarto inteiro estava morno.
O aquecimento central funcionava com perfeio.
Poderia usar uma roupa leve, apesar do frio l fora.
Abriu o closet. Hesitou, diante da fileira de vestidos,
tailleurs, chemisiers, pantalonas, a maioria presente
de Olavo, ou comprada sob a orientao dele. Escolheu
uma blusa de tons esverdeados e uma saia marrom.
Experimentou-as. Trocou a blusa por outra, creme
com pequenas estampas que lhe pareciam flores
azuis, mas eram traos indefinidos. Na prateleira do
lado oposto, entre dezenas de pares de sapatos, pegou
um bord, calou-o.
Voltou at a cama. Sentou-se. A conversa, exclusivamente
masculina, continuava l embaixo. Ouvia
uma palavra ou outra, nenhuma frase completa.
Deitou-se. Fechou os olhos.
Cochilou.
Acordou sentindo uma presso no peito. Abriu os
olhos. Olavo estava sentado a seu lado. Apertava e
girava as mos sobre seus seios. A sensao era dolorosa.
125

Ela gemeu. Ele sorriu. Ela queria que ele parasse.
No sabia como.
 Tentaram seqestrar nosso filho  ele disse,
tirando uma das mos e enfiando-a sob sua blusa, at
alcanar o seio esquerdo.
Mara tentou erguer-se. Ele empurrou seu peito
contra a cama.
 Hoje de tarde. Aqui perto.
Levou a mo por dentro do suti. Acariciou seu
mamilo.
 Atacaram o seu carro.
 O meu...?
 O seu Mercedes-Benz  disse, puxando e esticando
o mamilo.  Muitos tiros.
Mara gemeu. Olavo colocou a outra mo dentro
da blusa, empurrou o suti, mexeu no seio direito.
 Mataram seu motorista. Fuzilaram ele. Trs tiros
na nuca.
 O Major...?
 A cabea ficou pendurada.
Torcia e puxava os dois mamilos com os dedos.
Fazia-o a cada vez com mais fora.
 Uma quadrilha. Traficantes. Major era do bando.
Parou o Mercedes-Benz numa rua aqui perto.
Fingiu que estava sendo atacado. No disparou nenhum
tiro.
Mara mordeu os lbios. Queria resistir  dor. Queria
parar de gemer.
126

 Ele... Ai... o Major foi... Trazido por... Teus
amigos de Braslia.
 Recomendado. Todos os novos empregados foram.
Pelo pessoal do antigo SNI. Esto investigando.
Deve ser uma rede.
Soltou um dos mamilos, rodeou o seio esquerdo
com a mo espalmada, apertando-o. Com a outra
continuava torcendo o mamilo direito. Abriu os botes
da blusa. Empurrou o suti para acima dos seios.
Redondos, pesados, plidos, sob a pele escura de suas
mos. Apertou-os com mais fora ainda. Mara gemeu
de novo. Desceu a mo at as coxas, apalpando-as por
cima da saia.
 Tem dois carros patrulhando l fora, com agentes
 paisana. Mandei botar mais quatro seguranas
aqui dentro. Demiti os antigos.
Meteu a mo por baixo da saia, levou-a at a calcinha
de Mara. Sentiu os pelos que rodeavam seu sexo.
Apalpou-o.
 Nada vai sair nos noticirios.O corpo do Major
est na geladeira do IML como no identificado. Ningum
vai ter acesso ao corpo at tudo ser resolvido.
Oficialmente est preso, incomunicvel.
Puxou a calcinha at o meio das pernas. Acariciou
a trama macia que emoldurava a vagina. Deu um
tapinha nela. Estalou. E outro. E mais um terceiro,
um quarto, um quinto, rpidos, seguidos, os estalos de
pele sobre pele se repetindo.
127

 Deixaram uma folha de papel dizendo Temos
seu filho.
 Mas tu disse que o Olavinho...
 Est bem. Est em lugar seguro.
 No quarto dele?
 Escreveram dois nmeros na folha.
Olavo enterrou o dedo, inteiro, dentro de Mara.
Ela estava seca e sentiu dor.
 Ai, Olavo. Por favor...
 Dois nmeros. No so traficantes comuns.
Girou o dedo dentro dela. Continuou girando.
 Olavo, tu est me...
 No so seqestradores comuns.
Retirou o dedo, cuspiu nele, enfiou-o novamente
em Mara, que estremeceu.
 No ligaram at agora. O inspetor diz que  de
propsito. Para me deixar inseguro. Sem saber se meu
filho est vivo ou est morto.
 Mas tu falou que... Ai, Olavo.
Com a outra mo abriu a braguilha da cala.
 Pega aqui  comandou, tomando a mo de
Mara e levando-a a seu pnis enrijecido.  Segura
meu pau. Segura.
 Olavo, seus convidados l embaixo...
 Pega ele. Assim. Isso. Agora aperta. Dois nmeros,
Mara. Sabe qual  um deles? Aperta meu pau,
Mara. Mais. Eles sabem de onde  o nmero. Todos
os algarismos. Ah, Mara, assim. Mais.
128
Sua mo grande cobria a de Mara. Levou-a a fazer
movimentos para cima e para baixo. O dedo entrava
e saa da vagina dela.
 Mais rpido, Mara, mais rpido. Vai. Sim. Assim.
Vai. Os algarismos. Eles sabem. No so bandidos
comuns, Mara. Ah. Ah. Isso. Mais. Mais rpido.
Os nmeros da conta. Da minha conta. Vai. Vai. Vai.
Da conta em Nova York. Ah. Ah. Assim. Assim. A
conta do banco israelense. Ah. Minha maior conta.
A maior. Assim. Assim. Vai. Assim. Ah. Ah. Ah. Ah.
Aaaah. Aaaah. Aaah. Aaah.
Ejaculou na mo de Mara, em jatos contnuos. Algumas
gotas caram no tapete e em um dos ps dos
sapatos dela.
Olavo relaxou, deixou as costas carem sobre o colcho
e as pernas de Mara. Manteve o dedo dentro dela.
Mara limpou a mo no edredom forrado de plumas
de ganso. Entreabriu os lbios, achando que teria
alguma coisa a dizer, sobre eles, ou sobre aquele ato
que ela no sabia como classificar, ou sobre a notcia
de uma morte, e de um seqestro, e de um bilhete
que no era verdadeiramente um bilhete, de dois nmeros
no bilhete, de seu filho, de seu motorista, de
qu? Falar o qu? Por qu? Para qu?
Puxou o corpo mais para cima da cama, com esforo.
O dedo saiu de dentro dela.
 Dois nmeros, Mara. No so bandidos comuns.
Eu no sei o que fazer. No sei aonde isso vai levar.
129

Tudo o que eu constru pode acabar, de uma
hora para outra. Por causa de um maldito motorista.
Ligado a algum em Braslia. Quem? Quem?  um
grupo? Que grupo? Ligado a quem? Polticos derrotados?
Empresrios que no conseguiram contratos?
Mara no estava interessada. No momento tudo o
que queria era sair de debaixo de seu tronco. Ir ao
banheiro. Lavar-se.
 Nem voc conhece esse nmero, Mara. Nunca
lhe falei dessa conta. Eles sabem. Escreveram com
todos os algarismos. E deixaram um outro nmero
de conta. Para onde o dinheiro deve ser transferido.
Eles sabem. Tiveram acesso. O dinheiro nem  meu.
A conta est em meu nome, mas apenas represento
essas pessoas. Que no podem se movimentar no
exterior com a mesma desenvoltura que eu. Como
os seqestradores puderam saber dessa conta? Tem
que ser gente prxima, entende?  esse o dinheiro
que eles querem. Sabem que no  meu, mas que
est em meu nome, entende? Que eu tenho de passar
dessa conta para a conta deles se quiser salvar a vida
do meu filho, entende? Do nosso filho, entende?
 No, Olavo. No entendo. Tu disse que teve
um seqestro. Mas que o Olavinho...
 Est num lugar seguro. Nem sabe o que aconteceu.
 Tem seguranas no quarto com ele?
 Ele no est no quarto dele.
130

- Onde...
 A essa hora  conferiu em seu relgio Santos
du Cartier  est dentro de um Lear-Jet, a caminho
da Sua. Vai para uma escola como interno. Ns
iremos visit-lo assim que esse seqestro se resolver.
O pessoal que era do SNI est investigando. Vai ser
tudo muito discreto. O escndalo no interessa a ningum.
Talvez aos inimigos do Presidente. Talvez nem
a eles. Porque, se houver um escndalo, no haver
dinheiro transferido para a conta de ningum. Meu
medo  essa histria vazar para a imprensa.
 Se o Olavinho est em segurana, quem, ento...?
 O filho dos caseiros. Aquele menino surdo-
mudo. Estava no carro. Devem ter achado que era o
nosso filho.
Esfregou a mo na saia dela, retirando os ltimos
vestgios de seu gozo. Levantou-se. Sentia-se revigorado.
Pronto para a luta. Era em momentos assim que
surgiam suas melhores idias. E agora tinha uma.
Prosseguir com a farsa e aprofund-la. Tornar pblica
a tentativa de chantagem, sob o disfarce de seqestro.
Falar abertamente do ataque ao carro e do desaparecimento
da criana. Enfrentar. Seguir em direo
contrria ao que estava fazendo. Ora, ora, ora, ora,
ora, que bela idia. Viva o poder da informao e toda
fora a ele. Quanto mais se escondesse, mais poder
teriam seus inimigos, fossem quem fossem. E quanto
131

mais se expusesse, menores as chances de lhes entregar
o dinheiro. A exposio de contas secretas no
interessava a quem quer que fossem os chantagistas.
Falaria do pagamento de resgate dizendo que fora pedido
dinheiro vivo. Em notas no seqenciais. Nada,
nada, absolutamente nada sobre transferncia de fundos
de uma conta no exterior para outra. Apresentaria
a situao  mdia como um seqestro comum.
Comearia pela televiso. Tinha amigos influentes
nas maiores redes do pas. Executivos, scios, diretores,
proprietrios que faturavam muito bom dinheiro
com os comerciais dos clientes de sua agncia.
Bastava Ernesto telefonar a um deles. Tinha que ser
Ernesto, uma vez que ele, Olavo Bettencourt, o criativo,
premiado, carismtico dono de uma das maiores
agncias de publicidade do pas no tinha condies
emocionais de faz-lo naquele momento de dor, no,
de dor no, dor s se a criana estivesse morta. Naquele
momento de angstia. Perfeito: momento de
angstia. Naquele momento de angstia caberia a
Ernesto passar a eles a notcia do seqestro, solicitar
apoio para levar a milhes de telespectadores que
quela hora assistiam a mais um campeo de audincia,
em primeira mo, em edio extraordinria, o
amoroso, dramtico, comovente apelo de um pai e
uma me aflitos: por favor, no faam mal ao meu
filhinho. No, filhinho, no.  piegas. No faam
mal ao meu filho. Nosso filho.  mais eficaz dando o nome.
132

Individualiza. No  apenas uma criana qualquer,
no  s um menino desaparecido, nas mos
de criminosos frios.  Olavinho. Nosso Olavinho.
Por favor, no faam mal a nosso Olavinho. Um apelo
com fotos. Essa foto a na cabeceira. Pai, me e
filho. Juntos, amorosos. Mara est linda na foto, o
contraluz fazendo esse halo dourado em seus cabelos.
Ernesto se encarregar de contar como foi a ao
dos bandidos, em off, apenas como amigo da famlia.
Logo em seguida um de nossos assessores de comunicao
continua o trabalho, faz os press-releases, comunica
s rdios e jornais, filtra os reprteres com quem
falarei. Reprter mulher  melhor. Especialmente se
tiver filhos. Haver uma empatia natural com meu
sofrimento e o de Mara. Hum. Cuidado com Mara.
No saber sustentar o papel. A dico no ajuda. E
tem os erros de concordncia, os gauchismos de que
no consegue se livrar.
Mara fica de fora. Somente aparece a meu lado.
De culos escuros. Cabelos presos em coque. Deve
haver algum tailleur escuro ali no closet. Tailleur, salto
no muito alto, de p um pouco atrs de mim,
mos cruzadas  frente do corpo. Quieta. Ah, um leno
pequeno entre as mos. Amassado. Como se tivesse
chorado, antes. Enquanto isso Ernesto comanda
com o pessoal da ABIN a busca desses sacanas que
querem pr as mos em nosso dinheiro. Em meu dinheiro.
No final Olavinho aparece, so e salvo.
133

Trazemos ele de volta da Sua. Damos uma entrevista
coletiva. Diremos que o resgate foi pago, em dinheiro
vivo, entregue em algum ponto ermo do estado. Contaremos
todos os detalhes emocionantes. Eu mesmo
terei entregado o dinheiro. Um gesto destemido. Uma
atitude de amor paternal extremado. Os bandidos estavam
mascarados. Deixaram meu filho comigo, depois
seguiram pela estrada e desapareceram. Ernesto
pode arrumar isso. At mesmo com uma telefoto, tremida
e sem foco, do momento em que eu entrego a
pasta, talvez duas pastas, ou uma mala, com o resgate.
Nesse meio-tempo a Polcia Federal j encontrou os
verdadeiros seqestradores. Preparou uma emboscada.
Ningum pode sair com vida, se no o plano desmorona.
No sairo. A soluo  corriqueira: os
bandidos
morrem num confronto com a polcia.  isso.
Todos eles. Sejam quantos forem. Resistiram  priso,
houve tiroteios, pronto, foi assim. O corpo do motorista
de Mara  apresentado junto com os corpos dos
outros bandidos. Um ex-Policial Militar que envergonha
a corporao. Perfeito. Perfeito.
 Troque essa roupa  disse  mulher deitada, de
olhos cerrados.  Vamos descer. Temos que combinar
vrias coisas com Ernesto, l embaixo.
134



CAPTULO 13

Seis anos antes

Quarta-feira, 25 de janeiro de 1984
17h 34


A multido foi abrindo espao para o homem em
cadeira de rodas. Quem no o via, de olho pregado
no palanque ao longe, ouvidos tentando captar as palavras
que os ecos das dezenas de alto-falantes por vezes
embaralhavam, indiferentes  intermitente chuva
fina, era avisado pela pessoa ao lado, ou a de trs, todos
solcitos, um ou outro chegando mesmo a tocar
seu ombro, ou oferecendo a mo em cumprimento
sem se incomodar que ele a ignorasse, sentindo uma
sbita afinidade, porque at um cidado com inequvocas
limitaes de mobilidade fizera questo de estar
presente naquele lugar, naquele momento. Mais um
brasileiro para dizer basta.
Acima dele, adiante dele,  volta dele, penduradas
em janelas, amarradas a postes, presas a grades de ferro
de lojas, coladas em paredes e portas, carregadas
por grupos, exibidas por indivduos, duplas, trios, turmas
de jovens, filas de senhores de terno e gravata,
viu adesivos, faixas de tecido e plstico pintadas, panfletos,
135

cartazes impressos, folhas de cartolina escritas
com canetas hidrogrficas, volantes, bandeiras do Brasil,
bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, bandeiras
vermelhas com estrelas brancas. As ruas que
desembocavam na praa em frente  igreja de estilo
neogtico estavam cheias. E mais gente chegava.
Atingiu um ponto de onde no era mais possvel
avanar. Uma das rodas estancou sobre uma elevao
de grama, inclinando a cadeira para o lado. Estava
rodeado. Recuou at se colocar totalmente sobre o
canteiro.
Deve ter mais de vinte mil pessoas aqui, calculou.
Bem mais. Umas trinta mil.
Olhou de novo  sua volta.
Mais de trinta. Mais de quarenta mil. A praa
da S tem perto de cinqenta mil metros quadrados.
Todos os espaos esto ocupados. As ruas e avenidas
prximas, o viaduto Dona Paulina, idem. Quando as
fotos de nossos agentes forem reveladas, poderei
calcular melhor. Mas passa de quarenta e cinco mil,
com certeza. Ou cinqenta.
O grande palanque ao fundo fora construdo alto
o suficiente para ser visto de qualquer ngulo. Sobre
ele se espremiam algumas dezenas de pessoas. Polticos,
sindicalistas, artistas. Vrios, muitos, vestiam
camisetas amarelas. Um locutor anunciava as suas
presenas, dizia palavras de ordem, chamava um ou
outro  frente, para discursos ou incitaes.
136

Reconheceu-o pela voz, que se habituara a ouvir em transmisses
esportivas: Osmar Santos.
s vezes acenando, freqentemente se falando
com familiaridade, viu aqueles cujas fichas no seu
setor do Servio Nacional de Informaes s faziam
aumentar, desde os anos 1960. Ulysses Guimares,
Mrio Covas, Leonel Brizola, Franco Montoro, Fernando
Henrique Cardoso, Luiz Incio da Silva, Chico
Buarque, Henfil, Fernanda Montenegro  os subversivos
de sempre e alguns mais recentes.
Meu irmo deve estar aqui, considerou. Se Paulo
voltou do exlio, deve estar a nesse meio. Junto desse
tipo de gente. Mas continua na Sucia. Eu teria sido
informado, se Paulo tivesse voltado.
Todos os discursos eram aplaudidos, alguns com
maior entusiasmo. Como o do lder sindical Luiz
Incio da Silva. Em certo momento houve palmas
para a passagem de um cortejo levando um caixo
preto onde Antnio leu a palavra "Indiretas" em letras
brancas.
O governador de So Paulo pegou o microfone.
Me perguntaram se aqui esto trezentas ou quatrocentas
mil pessoas, Franco Montoro gritou, agitando
a mo esquerda no ar. Mas a resposta  outra. Aqui
esto presentes as esperanas de cento e trinta milhes
de brasileiros.
Foi ovacionado. Algum puxou um coro ao qual se
juntaram milhares de vozes.
137

Um, dois, trs,
Quatro, cinco mil,
Queremos eleger
O presidente do Brasil.
Eles perderam o medo, pensou Antnio. Depois
da anistia, da volta dos terroristas que estavam no exterior,
da interrupo das detenes secretas e dos
interrogatrios no DOI-CODI. do fim da vigilncia
aos rgos de comunicao e da retirada dos censores
nas redaes, eles esto pondo as cabeas para fora de
suas tocas. Os ratos esto saindo dos esgotos.
Os primeiros acordes do Hino Nacional comearam
a ser transmitidos pelos alto-falantes. Muitas pessoas
levaram a mo direita ao peito. Algumas tinham
lgrimas nos olhos. Quase todos cantavam.
Ouviram do Ipiranga as margens plcidas,
De um povo herico o brado retumbante,
E o sol da liberdade em raios flgidos
Brilhou no cu da ptria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com brao forte,
Em teu seio,  Liberdade,
Desafia o nosso peito a prpria morte,
O ptria amada, idolatrada...
138

Pobre ptria, refletiu. Entregue de bandeja a essa
gente por um presidente inepto, incapaz de impedir
que a crise internacional derrubasse nosso projeto de
um Brasil Grande. Um cavalariano medocre, ungido
pelo Pastor Alemo dividido entre aceitar a inevitabilidade
da represso para a construo do Brasil de
Primeiro Mundo iniciada em 1964 e a desordem de
uma suposta liberdade em prol de uma ainda mais
suposta democracia. Vamos acabar nas mos desses
corruptos, desses comunistas e socialistas apeados do
poder depois de tanto planejamento, vinte anos atrs.
Duas dcadas jogadas no lixo. Em outros tempos, teramos
podido colocar uma bomba no meio desta
multido. Ou provocar alguma pancadaria para desmoralizar
publicamente este comcio. Temos agentes
 paisana espalhados aqui pela praa da S e gente
nossa l no palanque, mas de que servem? Todos proibidos
de agir. Viramos bonecos. Viramos coniventes.
Pior. Viramos cmplices.
Girou a cadeira, deu as costas para o palanque. As
pessoas  frente abriram espao para que passasse.
Na esquina da rua Rangel Pestana cruzou com
quatro policiais militares vestidos em fardas de combate.
Havia muitos, em vrios pontos. Inteis, todos
inteis, concluiu Antnio, afastando-se.

* * *

139

Oito andares acima dele um homem esguio, de
palet apesar de estar no prprio escritrio, observava
atentamente a movimentao na praa da S, enquanto
acariciava, sem perceber, a gravata lils estampada
com mnimos golfinhos vermelhos e azuis,
imitao made in Taiwan quase perfeita e bem mais
barata de uma gravata Herms que vira na free-shop
de Paris. O som que chegava at ele, abafado pelos
vidros duplos e pelo rudo do motor do velho aparelho
de ar-condicionado que seu scio insistia em
manter ligado na temperatura mnima, no permitia
distinguir as palavras dos discursos proferidos no
palanque cuja montagem acompanhara nos dias anteriores.
Mas as faixas eram perfeitamente legveis.
Abaixo o Regime Militar. Quero Votar Para Presidente.
O Povo Unido Jamais Ser Vencido. Quem Sabe
Faz a Hora. Greve Geral Contra a Fome e Eleies
Diretas. Prefiro o Cheiro de Cavalos Do Que O Do
Figueiredo.
 Voc devia vir aqui  disse ao moreno corpulento
debruado sobre rascunhos, layouts, provas
e fotos da campanha publicitria de uma rede de supermercados.
 Precisa ver isso.
 No me atrapalhe. Tenho que acertar uma srie
de detalhes nestes anncios. Serei obrigado a virar
a noite para apresentar esta campanha de forma decente
amanh de manh.
140

 No esquente com isso. Quem aprova  a minha
mulher.  mais importante voc perceber o que
est acontecendo ali embaixo, na praa da S.
 Quero que esta seja a melhor campanha de
varejo da histria da propaganda brasileira. Ser. No
futuro, daqui a vinte, trinta anos, ainda estaro copiando
minhas idias mostradas nestas peas.
 O futuro est bem aqui, diante da sua janela.
E voc se recusa a se levantar dessa cadeira e vir aqui.
Ver essa manifestao to... To...
Buscava a palavra exata para definir a impresso
que a multido compacta lhe causava. Olavo comparava
duas fotos quase idnticas. Ambas mostravam um
casal na faixa dos trinta anos, sentado em torno de
uma mesa de caf da manh. Sobre ela havia uma
jarra com suco de laranja, um bule de caf e um de
leite, quatro xcaras, um aucareiro, pes doces e salgados,
manteiga, presunto, peito de peru, dois tipos de
queijo e um vidro de requeijo, dois tipos de geleia,
uma travessa com fatias de melo e uma fruteira com
uvas, peras e mas. Na segunda foto o casal tinha
junto deles um menino de seis anos e uma menina de
oito. Comiam flocos aucarados de milho. Nas duas
fotos o prato em frente ao pai continha ovos mexidos
e duas fatias de bacon. O da me, metade de um mamo
papaia.
 O que est errado nestas fotos?  perguntou,
interrompendo Ernesto.  Olhe bem. Olhe com ateno.
141

Tome. Pegue. Repare bem. Estes anncios
sero publicados aqui em So Paulo, no Rio, em Fortaleza,
Recife, Salvador, em Belo Horizonte, Braslia,
Curitiba e Porto Alegre. O que est errado nestas fotos?
O que est errado nas duas?
 Tem comida demais?  cogitou Ernesto, aps
alguns segundos.  Frutas europias? Bacon e ovos
aumentam o colesterol? Flocos de milho so comida
de criana americana?
Olavo pegou as fotos de volta, colocou-as lado a
lado sobre a mesa.
 Os modelos. Morenos demais. Os consumidores
se sentiro ofendidos. No Sul porque vero a famlia
como negra. No Norte e Nordeste, como pobres.
Negro e pobre tambm so sinnimos no Rio, no Paran,
em Minas, no Cear, no Brasil todo. Modelos
louros  que passam boa imagem. Amanh apresento
assim como est, na verso final mando refazer a foto.
A ateno de Ernesto era de novo a manifestao.
H apenas dois anos o Turco conseguira a indicao
como candidato e se elegera. Foi a primeira vez que
os militares tinham consentido em votao direta
para os governos estaduais. Em novembro do ano passado,
sem que ningum esperasse, mais de dez mil
pessoas se reuniram em frente a um estdio de futebol,
em So Paulo, exigindo eleies diretas tambm
para presidente. Antes tinha havido demonstraes
menores em capitais sem aparente peso poltico,
142

como Goinia e Curitiba. A reao do presidente
Joo Figueiredo fora tosca como ele. Aumentou a
censura e declarou que os protestos eram subversivos.
 Agora at ele admite ser a favor  comentou,
sem obter qualquer reao de Olavo.
Refez os clculos. Mais de cem mil pessoas esto
reunidas ali. Duzentas mil? O panorama descortinado
 sua frente lhe trouxe uma certeza parecida  de
quando o sogro lhe apresentou a filha Adlia.
 Vamos ficar ricos.
Desta vez o scio se interessou. Colocou a caneta
de lado, girou a cadeira e aguardou.
 Vamos criar as campanhas polticas dos candidatos
s eleies diretas. Inclusive as dos candidatos 
presidncia.
 O prximo presidente do Brasil ser Mrio Andreazza.
J est escolhido pelos militares. Sem eleies
diretas.
 Talvez. Mas depois dele, ter que ser um civil.
E precisar anunciar no rdio, na televiso, nos
jornais.
Oportunidades como aquela surgem apenas uma
vez a cada gerao, Ernesto compreendia, encantado
com as bandeiras vermelhas e verde-amarelas agitadas
na praa. Aquele povo todo encontrara um rumo e
um objetivo comum. Mesmo que levasse dez anos, e
no mais que isso, talvez uns cinco, se o movimento
crescesse na proporo que crescia, os militares cederiam.
143

Era a melhor forma de irem colocando seus
investimentos e seus herdeiros nas indstriase postos
certos. Permitiriam que o presidente fosse escolhido
em eleies diretas. Como aquiesceram com as eleies
diretas para os governos estaduais, Haver candidatos.
Genunos e aventureiros. Os candidatos tero
que fazer campanhas. Campanhas eleitorais movimentam
milhes. Milhes de dlares. Os empreiteiros
contribuem, os pecuaristas contribuem, os industriais
contribuem, as multinacionais de petrleo
contribuem, as multinacionais de cigarros contribuem,
o dinheiro vem de todos os lados. Uma parte
dele entra nas campanhas oficialmente. Outra, chega
por fora. Aliados como ele e Olavo podem levar esse
dinheiro a cofres seguros fora do Brasil. Cobrando um
percentual justo, evidentemente.
 Estamos bem com o Turco. Foi amigo do meu
sogro. Utilizou um bocado as contas bancrias dele,
da minha mulher e dos meus cunhados para agradar
os delegados da Arena em 1978. Um favor que nunca
esqueceu. A sua primeira conta no exterior, Olavo,
veio depois que o Turco foi eleito, se lembra? Do dinheiro
das campanhas que nossa agncia criou para
rgos do governo do estado. Foi nas ilhas Cayman
ou em Nova York?
Era uma pergunta meramente retrica. Olavo no
se preocupou em responder. Ernesto continuou.
144

 O Turco nos abriu conexes com os polticos
da antiga Arena. Ganhamos as verbas de propaganda
de dois bancos de estados do Nordeste. Mas a direita
est definhando, Olavo. O futuro est com a esquerda.
Basta olhar aqui em frente.
 O Turco vai acabar preso.
 "Rouba mas faz." O povo gosta dele. Enquanto
estiver construindo tneis e viadutos, e mandando
matar bandidos, continuar sendo eleito.
Olavo voltou s correes dos anncios. Ernesto
deu-lhe as costas. Continuava embasbacado com o
que via na praa, ruas e avenidas abaixo.
 Deve ter umas cem mil pessoas nesse comcio.
Ou mais. Precisamos de contatos com a esquerda,
Olavo. Sua mulher  nosso trunfo.
 Selma no  mais militante.
 Como no? Arrecadou assinaturas para a fundao
do Partido dos Trabalhadores, circula entre esses
deputados e senadores do PMDB, ajudou a organizar
protestos depois da morte de Vladimir Herzog, levou
mensagens para os exilados em Paris, foi presa quando
era lder estudantil...
 Isso foi em Belm, no incio dos anos 1970. Ela
mantm as amizades, s isso. Selma, hoje,  dedicada
s nossas duas filhas. No quer mais ir a teatro, cinema,
nada que a afaste das meninas.  me full time.
 Recentemente ela no fez um trabalho para o
Fernando Henrique?
145

 Tem mais de um ano.
 E aquela assessoria que ela...
 Voc e a Selma no se suportam, Ernesto. A
sua mulher detesta a Selma. A antipatia  mtua.
Dane-se a simpatia. No precisava disso. Precisava
 dos contatos de Selma. Ela os apresentaria aos lderes
de esquerda, inclusive o senador e os dois deputados
federais para quem j tinha feito assessoria de
imprensa e que, mais dia, menos dia, estariam partilhando
verbas com os representantes da direita.
 Ligue para a Selma. Chame-a para jantar. Vo
ao La Tambouille, ou algum outro lugar badalado.
Mostre que voc sente orgulho de ser visto ao lado
dela. Eu apareo antes da sobremesa. Sem a Adlia.
Dou um jeito de puxar o assunto.
 No posso.
 Claro que pode. Direi  Adlia que apresentaremos
a campanha daqui a dois dias.
 No posso.
 V, pegue o telefone. No se preocupe com
esses anncios.
 No posso.
 Ento eu ligo. Explico que voc est mergulhado
nessa campanha da rede de supermercados, da
eu estar ligando, e que voc percebeu que est diante
de algumas perspectivas para o futuro, complexas
demais para serem discutidas ao telefone, e que voc
precisa, que ns precisamos, ter uma conversa com ela.
146

Urgente. Esta noite. Uma conversa de que depender
o futuro das suas filhas  disse, aproximando-se
do aparelho.
Olavo levantou-se para det-lo.
 No posso. No  por causa da campanha.
Ernesto tinha discado os primeiros nmeros.
 No faa isso. Ponha o telefone de volta.
O fone continuava na mo esquerda, mas se detivera.
 No posso. Tenho um encontro esta noite.
-E da?
Olavo pegou o fone da mo de Ernesto, colocou-o
no gancho.
 Estou apaixonado. Estou fodido.
Antes que Ernesto comeasse a fazer perguntas capazes
de lev-lo a revelar mais do que queria ou deveria,
Olavo contou que tinha conhecido uma mulher.
Transferiu de novembro para maro o tempo de
relacionamento entre eles. Trocou o estdio onde a
vira pela primeira vez, tentando lugar de figurante em
filmete de cerveja, por um vo So Paulo-Porto Alegre.
Disse, num tom que denotava orgulho e preocupao.
 Ela tem quinze anos menos que eu.
 timo. Aproveite. O amor  lindo etcetera.
Mas encontre com ela outra noite. Nosso jantar com
Selma  mais importante.
 No posso. Mara est sozinha em So Paulo.
147

 Encontre com ela amanh.
 Amanh ela volta para Porto Alegre. Ela mora
em Porto Alegre. Est noiva. De um engenheiro. Vai
casar daqui a um ms. Ou dois. Ia. Estava marcado.
 Diga a ela que esta noite  impossvel. Que
voc tem um busine's meeting inadivel. Desmarca o
encontro com essa mulher, Olavo.
 No posso. Esta noite  abriu a maleta executiva
de couro com fecho dourado onde guardava
trancados seus papis sigilosos, tirou e mostrou quatro
chaves de formatos e tamanhos diversos  vou dar
a ela as chaves do apartamento que comprei na alameda
Casa Branca. Para ela entender que pode desmarcar
o casamento com o engenheiro de Furnas,
 Voc enlouqueceu? Um apartamento para sua
amante no mesmo bairro em que voc mora com sua
famlia?
 Ela no  minha amante. Vou me separar. Vou
viver com a Mara. Estou louco por ela.
Ia confidenciar: Mara  a melhor trepada de toda
a minha vida. Mas preferiu:
 Mara  a mulher da minha vida. Quero que
seja minha esposa.
 De jeito nenhum! No agora, Olavo. Este no
 o momento para se separar da Selma. Seria pssimo
para os nossos planos.
 Seus planos. Os meus incluem Mara.
148

 Nossos planos. Nossos futuros milhes de dlares.
De onde saiu essa mulher que enlouqueceu
voc?
 Porto Alegre.
 Quem  essa mulher?
Manteve a informao bsica inevitvel: Mara 
loura, alta, bonita, com olhos azuis cor de giz. Acrescentou:
estava viajando com a me. Acrescentou: tinha
representado o Rio Grande do Sul em uma conveno
internacional de turismo na Bahia. Acrescentou: foi
Miss Porto Alegre. Acrescentou: Mara  tmida e plida
e enrubesce a cada elogio que lhe fao. Acrescentou:
Mara  filha nica. Acrescentou: a me  de origem
italiana, o pai descendente de alemes e aorianos.
Acrescentou: a famlia  dona de uma cadeia de joalherias
no interior do estado. Acrescentou: o pai morreu
quando ela era criana. Acrescentou: Mara no aceitou
nenhum dos presentes caros que tentei lhe dar. Acrescentou:
Mara no aceita dinheiro meu, nem para pagar
o txi. Acrescentou: reencontrei nela tudo o que
perdi com Selma.
 Estou louco por ela  repetiu.
 Vocs transaram?
 No.
 No transaram?
 Sim.
 Sim ou no?
149

 Eu seduzi Mara. Ela no queria. Est noiva.
No queria trair o tal engenheiro. Eu insisti. Fiz de
tudo, tentei tudo para ela ir para a cama comigo. Ela
resistiu o mais que pde. Mas acabou cedendo. Eu fiz
ela gozar como nunca tinha gozado. Ela chorou, Ernesto.
Chorou de soluar.
 Uma boa trepada no  razo para casar com
uma mulher, Olavo.
 Mara  muito mais que uma trepada. Ela gosta
de ficar nos meus braos. Ela gosta de me ouvir. Tudo
o que a Selma e eu no dizemos mais um ao outro,
eu falo com Mara. Ficamos horas conversando. Ela
me olha e eu sinto vontade de me abrir, de ser eu
mesmo, como eu sou. Como eu fui. Como eu quero
ser. Para um homem da minha idade, Ernesto, sabe o
que  uma mulher provocar isso em voc?
 Olavo, veja bem: essa situao...
 Ela adormece nos meus braos, Ernesto.
 Em qualquer casamento as crises...
 O interesse dela no  a escola das filhas, as
roupas das filhas, os livros que as filhas esto lendo, a
excurso que as filhas faro, o aparelho ortodntico
das filhas, voc entende, Ernesto? A Selma  uma boa
pessoa,  uma mulher cheia de qualidades, uma mulher
culta, ... ... Era diferente quando ramos jovens.
Eu continuo ambicioso. Ela se tornou... A Selma
hoje ... Nem msica ela ouve mais. Aquelas que
 150

ela mais gostava, Coltrane, Bill Evans, Tom, Elis,
nada. O interesse dela so as meninas. O interesse da
Mara sou eu. Eu. Eu, Ernesto. Com a Mara eu falo
dos meus planos. Dos meus sonhos. Ela no acha engraado
eu querer ser o maior publicitrio do Brasil.
Ela admira isso. Essa se orgulha de estar comigo.
Quer saber do meu passado. Conto a ela sobre como
eu era quando jovem em Belm. Quais livros eu lia.
Os filmes que eu via. As msicas que eu ouvia. Digo
coisas que a Selma acha entediantes, mas que despertam
o maior interesse na Mara. Fao Mara descobrir
mundos que a gerao dela no conhece. Converso
sobre Jlio Verne, Alfred Hitchcock e Grace Kelly.
Cary Grant. Cyll Farney, Oscarito. Humphrey Bogart.
Ingrid Bergman. Cely Campello. Rita Pavone. Nat
King Cole. Ella Fitzgerald. Cole Porter. Jacques Brel,
Nouvelle Vague, Jeanne Moreau, Jules et Jim, Jean
Seberg, Belmondo, Jerry Lewis, Jacques Tati, Gustav
Klimt, Brancusi, Modigliani. Falo de futebol, publicidade,
design, os judeus brasileiros que saram de Recife
e fundaram Nova York, os primeiros imigrantes
japoneses que vieram plantar pimenta no Par, a Comuna
de Paris, o tesouro dos Romanoff, as fotos de
Cartier-Bresson, o afundamento progressivo de Veneza,
tudo. Falo de tudo. Tudo o que no converso mais
com Selma. Mara adora me ouvir.
 Mas ns precisamos da Selma.
151

 No posso deixar que Mara se case. No posso
perder essa mulher.
 No estou falando de paixo. Estou falando de
milhes de dlares. Fique casado com Selma. Compre
um apartamento para essa miss gacha...
 Mara.
 Compre um apartamento para Mara em outra
parte de So Paulo. Eu vejo tudo para voc. Mas no
se separe da Selma agora. No se separe ainda. Viaje
com Mara. Eu fao uma cortina de fumaa para voc
junto  Selma. Mara j foi a Paris? Leve Mara a Paris.
Toda mulher adora Paris. No. Paris, no. Est cheia
de brasileiros. V a Nova York. O dlar est caro, os
preos esto altos, voc no vai encontrar brasileiros
em Nova York. Eu sei de um hotel sofisticado e discreto
na Park Avenue. Segure a separao de Selma
por um ano. Por um ano, apenas. Nesse tempo organizaremos
jantares para o pessoal de esquerda. Ficaremos
amigos deles. Faremos as conexes para lig-los
a quem possa financiar suas campanhas. Por um ano
apenas, Olavo. Um ano. Depois voc e Mara podero
ser felizes para sempre. Agora, venha aqui  janela.
Levante-se. Venha. Venha ver o futuro de que estou
lhe falando. Venha. Venha.
No se lembrava de quando vira Ernesto to entusiasmado.
Tanto que lhe sorria, abertamente, esquecido
do constrangimento dos dentes frontais encavalados
152

e amarelos, habitualmente ocultos em um sorriso
de lbios fechados.
 Venha, Olavo. Venha.
Olavo ainda ficou imvel, por um minuto, talvez
dois. Em seguida apoiou as duas mos na beirada da
mesa, empurrou a cadeira para trs. Ficou parado alguns
segundos. Bateu com as mos nas coxas, ergueu-
se e foi at  janela. Cruzou os braos. Permaneceu
em silncio. Na praa da S a multido se dispersava.
Em meia hora estaria desocupada. Os poucos manifestantes
a circular ali e pelas ruas vizinhas, alguns
ainda levando cartazes e bandeiras, tentavam encontrar
os grupos com os quais tinham vindo, despediam-
se de outros, abraavam-se, encaminhavam-se para as
paradas de nibus e estao do metr, calculando se
no seria melhor aguardar um pouco mais at que
ficassem menos cheios, para voltarem mais confortavelmente
para casa. O transporte aquele dia todo tinha
sido gratuito, por deciso do governo do estado.
Quando o silncio possvel finalmente se instalou
no centro de So Paulo, os policiais militares cumpriram
a ltima ordem do dia. Marcharam, em formao,
da rua Rangel Pestana, onde tinham montado guarda,
at os micro-nibus que os aguardavam na rua Frederico
Alvarenga e embarcaram de volta ao quartel.
153

O sargento Carlos Roberto da Costa dirigiu-se ao
ltimo banco, onde sentou-se, desinteressado dos comentrios
dos camaradas em armas, e acendeu um
cigarro.
As conversas eram entre semelhantes em hierarquia.
Os dois tenentes responsveis pelo comando
da guarda estavam surpresos com a ausncia de ocorrncias
em aglomerao to grande  nem bbados,
nem valentes, nem provocadores, nem agressores,
nem mesmo os habituais batedores de carteiras. No
houve sequer uma provocao de sindicalistas e agitadores
aliados. Mais  frente um cabo e um sargento
citavam artistas de novelas e cantores vistos no palanque.
Nenhum nome lhe era familiar. Outro cabo
reclamou alto da chuva e do uniforme encharcado.
A seu lado a discusso era sobre a injustia de o brasileiro
Zico ter perdido o ttulo de melhor jogador do
mundo para o francs Michel Platini e a convocao
de Scrates e Roberto Dinamite para a Seleo
Brasileira de futebol, condenada por um e aprovada
pelo outro.
Por que viemos aqui, perguntou-se o sargento Costa.
Para garantira ordem? Foi uma manifestao contra
ou a favor do governo? Tinha gente do governo
discursando, tinha gente que  contra o governo discursando
tambm. A essa hora Barbara j deve estar
dormindo. Acabou a festa de aniversrio, a me botou
154

ela na cama, se deitou tambm. Deixou um prato
com um pedao de bolo e uns doces para mim em
cima da pia. Se sobrou algum. No ligo.
Deu um ltimo trago, colocou a guimba sob o coturno
e a esmagou.
Que diferena vai fazer na vida da gente votar ou
no votar para presidente? Poltico  tudo igual. O
presidente vai acabar com a carestia? Vai baixar o preo
do arroz ou do po ou do feijo? Ou da carne? Ou
do aluguel? No vai, claro que no vai. Como  que
um presidente consegue abaixar o preo do aluguel?
No consegue. Desde que eu sou criana que os preos
sobem. Se bem que nos ltimos meses tudo tem
subido muito mais do que nunca. S para esse aniversrio
da Barbara foram... Perdi a conta. E a Ktia nem
fez tanta coisa assim. Vi l uns quibes, uns bolinhos
de bacalhau, umas coxinhas  pouca coisa.  para
os amiguinhos da Barbara e um parente ou outro, a
Ktia deve ter chamado tambm as duas moas que
trabalham com ela no salo de cabeleireiro, um vizinho
ou outro.
Ali na vila todo mundo mora de aluguel.
Um dia ainda compro uma casa para ns.
Um dia ainda me livro do aluguel.
Pode ser uma casa pequena, depois a gente muda
para uma maior, quando as coisas melhorarem, conforme
eu for subindo e conseguindo uma promoo aqui,
155

outra ali, no precisa ser uma casa, pode ser um
apartamento.
A festa de quinze anos da minha filha vai ser na
nossa casa prpria.
No gosto de doce. Mas queria estar no aniversrio
da minha filha. Ela gostava que eu estivesse. Queria
ter estado. Queria ter cantado parabns para os dez
anos da minha filha. Queria ter comido um pedao
de bolo da festa de aniversrio que a Ktia fez para a
minha filha. Nossa filha. O bolo que ela fez para comemorar
os dez anos da nossa filha. Queria ter comido
um doce que ela me dava. Que Barbara me dava.
Vi um prato de brigadeiro, um prato de olho de sogra,
um prato de uns l que no sei o que so. No gosto
de doce. Mas bem que eu comia se ela me dava. Comia,
sim. Comia com prazer.
Nunca imaginei que um dia ia ter uma filha e que
ela ia fazer dez anos e que ia ter uma festa para ela
que eu ia poder pagar. Eu, que nunca tive nenhuma.
Ela pode achar que eu no fui na festa dela porque
eu no quis ir, mas eu quis. Querer ir, eu queria. Mas
de verdade fiquei aliviado de ter que trabalhar nesta
quarta-feira. Prefiro. Minha filha, eu gosto dela, mais
do que gosto de qualquer outra pessoa, no que eu
goste de muitas, mas dela, mais que todas. Mas  melhor
trabalhar hoje. Vai ter muita gente e eu no sei o
jeito de conversar com muita gente. Ou mesmo pouca gente.
156

Fossem quantas fossem as pessoas na festa
de Barbara. No sei. No tenho jeito pra isso.
Por que tanta gente se reuniu na praa da S?
S para mostrar que querem eleio direta para presidente?
Guaran. Eu tinha a idade da Barbara quando minha
tia me deu meu primeiro guaran. Vinha numa
garrafinha pequena, devia ser feita s para as crianas.
Gostei. Como eu gostei. Como foi ruim no poder
beber mais um. No naquele domingo. Pareceu que
tinham passado muitos domingos at que eu bebi outro
guaran daqueles pequenos. E nunca mais quis
tomar nenhum. Aprendi que no  bom querer o que
no se pode ter. Uso essa lio at hoje. Para tudo. Eu
s quero o que eu sei que eu posso ter. Eu s quero
o que eu posso querer.
Eu sei que no sou muito inteligente. Mas sei fazer
muita coisa. Sou trabalhador. No sinto falta dos estudos.
Gostava de saber mais, gostava de entender as
coisas melhor, gostava de saber responder as perguntas
que eu mesmo fao para mim, mas burro no sou.
Estou fazendo boa carreira aqui. Estou com boa sade.
Estou com boa velocidade, bom olho, boa pontaria,
bom instinto. Sei o certo a fazer nas operaes, sei
se devo entrar num beco, sei o momento de arrebentar
uma porta ou de ficar junto dela e levar uma conversa
com o sujeito armado l dentro. Sei. Nem tive
que aprender. Olho, ouo, e sei.
157

Em casa no sei. No entendo. Ktia fala, eu tento
entender o que ela me diz de mim, o que me diz da
gente, tento entender por que ela est insatisfeita, dizendo
que est insatisfeita, que no est feliz, que no
 feliz, por que no  feliz? Por que no? Ser que 
to complicado assim para uma mulher ser feliz? Ela
no pode dizer que eu no sou bom para ela, sei que
eu sou. S no gosto de falar. No gosto de conversar
muito. No sou de falar muito. Ser que  preciso
falar tanto? No gosto de ficar falando. No ligo de
ficar s ouvindo. Sei fazer. Falar, no sei. Nunca soube.
Quer que eu faa, eu fao. Mas falar. No. Isso
no quer dizer que eu no ligo. Eu ligo. Eu gosto.
Mas no sou de falar que eu gosto, que eu ligo. Quando
eu falo, o que eu falo no  igual ao que eu penso.
O que eu penso  melhor do que o que eu falo. Ento
no adianta eu falar. No falo o que eu gostava de
falar. Falo o que eu consigo falar.
Fao por ela e pela Barbara tudo o que eu posso.
Tudo. Mais at do que eu posso. Compro o que ela
pede. Tudo. Montei o salo de cabeleireiro, tive que
pegar dinheiro emprestado, estou afundado nessa dvida,
no adiantou, para ela no adiantou nada, no
adiantou. Ela diz que no  isso, que no  o dinheiro,
e eu digo que eu no consigo dizer o que ela quer
que eu diga. No sou assim. No fui criado assim. Ela
diz que  eu no estar l, que isso  que  o problema.
158

No estar mais em casa. Falar e estar mais em casa.
 o que ela diz que est errado. Como vou estar mais
em casa? Eu tenho que trabalhar, eu tenho que me
virar, fazer mais planto, fazer segurana noturna, fazer
o que eu puder porque eu tenho dvidas para pagar
e porque no sou de ficar parado em casa. No
fui criado assim. No falta nada para ela. Nem para
Barbara. No deixo que falte nada para minha filha.
Nunca deixei. Nunca vou deixar.
Um dia, l na frente, daqui a uns anos, quando ela
estiver na idade de fazer vestibular e entrar na faculdade,
eu vou poder pagar o estudo dela e Barbara vai
ser a primeira pessoa da nossa famlia, da minha famlia,
da famlia da Ktia, que vai ter um diploma da
universidade. O que ela quiser. Eu vou garantir para
ela. Vou garantir o futuro dela. Vou. Vou.
159



CAPTULO 14

Naquela noite

Segunda-feira, 20 de agosto
18h10/21h30



Naquela madrugada

Tera-feira, 21 de agosto

0h15

A demora no lhe pareceu normal. Mas como ainda
no tinha se habituado aos retardos causados pelo
trnsito da cidade grande, Irene aguardou, sem comentar
com ningum. Tentou no pensar no assunto
e no se preocupar. Dedicou-se a regar o molho de
vinho tinto sobre a carne assada no forno, preparar
a vinha-d'alho para o fil mignon do rosbife, caso o
doutor Olavo preferisse comer rosbife em vez de carne
assada, enquanto lavava as verduras para a salada,
separava as amndoas fatiadas que colocaria no arroz,
se ele optasse pela carne assada, descascava as batatas
que cozinharia em gua fervente antes de dourar na
manteiga com cebola ralada, que tanto poderiam ser
servidas com o rosbife quanto com o assado. Ocupou-
se, mas no se acalmava. Quando j passava das seis
da tarde, procurou Stephan.
161

O marido estava recolhendo a escada e os apetrechos
usados no conserto do telhado da lavanderia. Ela
o ajudou pegando o balde e o martelo, perguntou se
estava com fome e se queria jantar logo, ele respondeu
que sim, mas que queria tomar um banho quente
antes. No disse a Stephan uma palavra sobre o
atraso do carro em que Major conduzia o menino.
No soube como. Stephan era contra usar o automvel
do patro. E tinha se oposto a trazer o garoto.
Achava que o filho no tinha inteligncia e s atrapalharia
a vida deles em So Paulo. Estaria melhor
no meio dos carneiros e das plantaes de fumo e de
morango. Criado pelos tios no meio de outras crianas
e parentes que o aturariam e pouco debochariam
dele. Aprenderia a capinar, semear, regar, colher. Estava
bom para uma criana surda e muda. Mas Irene
insistiu. Acreditava que na cidade o menino acabaria
ao menos sabendo ler e escrever. Se nunca mais voltassem
a viver no stio em Anpolis, e ela tinha esperana
de que um dia voltariam para l, de frente para
as colinas verdes e com vista para o rio que corria no
fundo do vale, o filho estaria amparado. Junto da me
e do pai. Do jeito que fosse. Ao lado deles. Como
deve ser. Ele no tem culpa de ter nascido do jeito
que nasceu, pensou, enquanto voltava para a cozinha.
Eu tenho.
Esquentou a sopa de macarro e legumes que Stephan
gostava de tomar em noites frias como aquela,
162

ao mesmo tempo que separava e aquecia em fogo baixo
as panelas com arroz, feijo, abbora e bife rol
recheado de cenoura a serem servidos aos empregados
da casa. Colocou os pratos, talheres e guardanapos
de papel na mesa e se preparava para tirar as
panelas do fogo quando os seguranas entraram na
cozinha. Estavam acompanhados de dois policiais fardados.
Irene teve certeza de que alguma coisa tinha
dado errado. Muito errado.
El Boliviano fez novo giro pela pequena cidade.
Passava mais uma vez pelas ruas vazias e escuras de
Pilar do Sul. A chuva fria tornava o asfalto luzidio.
No vira nenhuma farmcia aberta.
A borracha do limpador de pra-brisas da Fiat cinza
fazia um rudo desagradvel a cada vez que ia da
esquerda para a direita, como se arranhasse o vidro.
Ele se acostumara e se abstraa, mas ao sujeito de
cabea raspada no banco ao lado o chiado irritava.
No pode consertar essa merda?
Acalma-te, Alfonso, pensou, sem lhe dizer. Por que
ests sempre to nervoso? Aquieta-te. Para de abrir e
fechar o tambor de tua Magnum. Estes anabolizantes
que tomas esto a te enlouquecer.
Sei que h pelo menos duas farmcias aqui, Guillermo
falou, porm no as encontro. H bares no Brasil
que tambm vendem remdios. No todos os remdios.
163

Aspirinas, sim, te asseguro que as vi. Porm
aqui tudo est fechado. Em lugares como este as
pessoas dormem cedo.
A outra cidade  longe daqui, quis saber Alfonso.
No muito, respondeu Guillermo. Uns trinta quilmetros,
talvez quarenta. No me recordo. H umas
quatro cidades, prximas. So todas pequenas e muito
parecidas.
Ento vamos  outra. Chega de ficar rodando por
esta cidade fantasma.
Como dorme em paz, mesmo com febre, pensou
Emiliano, sentindo a testa quente do menino. Pouco
se move. A febre parece ter aumentado. Est mais
plido. No abre os olhos. Os cabelos esto molhados
de suor, as roupas tambm. No temos outras. Ele
precisa tomar algum tipo de remdio. Est frio aqui
dentro. No h uma lareira nesta casa, no h um
fogo a lenha, coisa alguma para aquecer. Por que os
brasileiros constrem casas sem aquecimento em lugares
frios como este? O que passa nas cabeas deles?
Acreditam que o vero dura o ano inteiro? Que fao
eu com essa criana febril? A meu filho sua me colocava
em uma banheira com gua fria, quando tinha
febre. E tinha muita. Sempre. At o fim. Triste criana.
Triste me. Triste  o caralho. Me cago na boceta
da tristeza. Que se foda a tristeza. Que v  merda da
164

puta que a pariu, a tristeza.  merda. Todos que se
vo  merda da puta que os pariu.  merda. Todos.
Todos.  merda.
O Uruguaio foi at  cama no canto do quarto,
puxou os cobertores e lenis que a cobriam, trouxe
e os colocou sobre o menino. Enxugou-lhe a testa
e os cabelos.
Por que no temos outras roupas para ele? Como
no pensamos em comprar outras roupas, sabendo
que poder ficar muitos dias conosco? Ou semanas,
at que seu pai pague o resgate que queremos? Por
que Daniel no mandou que fossem compradas novas
vestimentas? Um adulto pode usar a mesma vestimenta
por sei eu quanto tempo, muito tempo, a mesma.
Mas uma criana se caga, se mija, se suja, como
ele se mijou. Daniel planejava que ns retivssemos
a criana por quanto tempo? Por que no a levamos
direto ao Paraguai? Por que no a mantivemos l,
onde temos maior controle, aonde j levamos outros
de nossos detidos e onde somos bem relacionados
com as autoridades que compramos, at o momento
de devolv-la?
O que Daniel e o Brasileiro planejam, realmente,
fazer com essa criana?
As quatro primeiras tentativas de falar com os patres
do pai no deram certo. Ningum atendeu
165

a primeira ligao, bateram com o telefone na cara dela
em outra, na terceira perdeu tempo com uma velha
meio surda, na quarta uma criana chorosa contou
estar sozinha em casa e com fome.
Encolhida dentro do orelho, o frio tornado mais
incmodo sob a roupa mida pela chuva fina que no
cessava, Barbara tentava o nmero no pedao de papel
de cigarro que Major lhe dera. A cada tentativa substitua
o ltimo algarismo, borrado. Seria trs, ou oito, ou
seis, ou sete, ou cinco. S lhe faltava tentar o ltimo.
Teria procurado um advogado, se conhecesse algum.
O pai no estava envolvido com traficantes tinha
certeza. No poderia estar envolvido com traficantes,
tinha certeza. Por carter e porque um policial
corrupto no viveria to desprovidamente. Tinha certeza.
Os patres dele a ajudariam a encontrar um advogado.
Tinha certeza que ajudariam. Atestariam o
bom comportamento dele. Tinha certeza. E nenhuma
outra alternativa.
Colocou mais uma ficha no telefone pblico. Ouviu
tocar do outro lado. Oito vezes, contou. Em seguida,
um clique. Uma voz de secretria eletrnica atendeu,
em ingls com sotaque americano; We're sorry
we can't take your call right now. Please record your
message after the tone and we'll call you back as soon
as possible.
O inusitado da lngua estrangeira surpreendeu e
intimidou Barbara. Desligou, sem deixar mensagem.
166

Restava-lhe uma ltima ficha. No viu por perto
nenhuma banca de revistas ou bar aberto onde pudesse
comprar outras.
Uma ficha.
Uma ltima tentativa.
Deus, se o senhor existe, salva o meu filho. Mostra
a tua cara, Deus. Desmente que gente como eu s
est c para trabalhar, ter filhos, trabalhar, comprar
uma geladeira, trabalhar, arranjar um pedao de terra,
trabalhar e mais trabalhar e um dia morrer, viver com
medo constante da misria e da fome e um dia morrer,
cheia de dor, com um buraco roendo a gente por
dentro, o mesmo buraco que matou minha me e de
onde veio esse meu menino to pequeno, to plido,
to indefeso, que eu no queria ter, Deus. No deixa
que ele morra, Deus. Ou deixa, se  melhor para ele.
Se tu no levou ele quando eu quis tirar ele, quando
ele estava na minha barriga, Deus, por que vs fazeis
essa criana passar por isso que est passando, Deus?
Fui eu que fiz ele nascer assim, Deus? Ou foi o senhor,
fostes vs, foste tu, para me castigar e me lembrar
sempre da maldade que eu fiz, Senhor, tentando
abortar ele de tantas formas, tantas vezes, Deus? Fala
comigo, Deus. Responde minha pergunta, me diz se
 pelo que eu fiz que ele nasceu assim? Fui eu que fiz
ele nascer assim, Deus? Ou o senhor est querendo
167

me mostrar que o senhor existe e que vai me castigar
para todo o resto dos meus dias aqui, o senhor quer
que eu aprenda e sofra nesse mundo, Deus, muito,
antes de morrer e ir para o seu, se o seu mundo existe
mesmo, Deus, Deus, fala comigo. Fala comigo. Me
diz alguma coisa. Me d um sinal. Vs que destes um
sinal a Moiss, que fizestes arder o arbusto para mostrar
que vs existis, vs que tirastes o punhal das mos
de Abrao, antes que ele enterrasse no corao de
Isaac, vs, Senhor, no faz isso com essa criana,
Deus. No deixa, Deus, no deixa que ele sofra. Se o
senhor vai matar o meu Isaac, no deixa que ele sofra.
Faz que seja rpido. Que eles no esganem o menino,
ou batam nele, ou afoguem ele, Deus, no deixa, no
deixa. Vs tendes me, tu sabe como ela vos ama,
assim eu amo meu filho. Ele  menos que os outros,
eu sei, vs reis o filho que dava orgulho  me, o filho
inteligente, que multiplicava os pes e os peixes,
meu filho nem sabe fazer contas, no entra na cabea
dele, Deus. Mas ele  um menino bom, um menino
meigo e bom, que sorri para mim e me olha com
aqueles olhinhos cor de giz e me faz pensar, tem que
ter uma razo para eu ter tido um filho desses, Deus,
tem que ter, no sei qual , mas tem que ter.
Eu no ligo para o sofrimento, Deus. Pode me fazer
sofrer, que eu no ligo. Nunca liguei. Pode me
botar para trabalhar desde de manh at de noite,
pode me dar uma vida de casada com um homem
168

que no liga para mim, pode me dar essas dores no
estmago de manh at de noite, todo dia, pode deixar
que eu fique mais gorda, e mais enrugada, e mais
feia, isso eu no ligo, Deus, isso  bobagem desse
mundo dos meus patres.
Mas o menino. No maltrata ele no, ele no tem
culpa que o pai no gosta dele, que todo mundo
debocha dele, que a mente dele no fica em lugar nenhum,
no maltrata ele, Deus. Maltrata a mim. D
pra mim a dor que os bandidos vo dar para ele. No
deixa que cortem a orelha dele, ou um dedinho do p
dele, meu Deus, se tu existe, se vs existis, se o senhor
existe, Deus, salva ele, mostra que tu  poderoso,
Deus, salva ele. Salva. Salva. Pelo amor da tua me
que te pariu, salva ele.
O farmacutico comeava a descer a porta de ferro
quando o carro pequeno parou em frente. O motorista,
com cara de ndio, antes mesmo de saltar pediu
um remdio para febre. Falava portugus com sotaque
espanholado. O passageiro ao lado permaneceu
no carro. Parecia um sujeito grande, era totalmente
careca ou tinha a cabea raspada.
O senhor est resfriado ou  algum tipo de inflamao,
indagou, deixando a porta de ferro descida at
quase a metade. Se for garganta ou alguma inflamao
dentria  melhor levar um antibitico.
169

No  para mim.  somente uma febre.
Muita ou pouca, insistiu o farmacutico.
Creio que muita.
Criana ou adulto?
Um velho, Guillermo respondeu, aps breve hesitao.
Ento  melhor dar um antitrmico e combinar
com este antibitico. O efeito  mais rpido. Quando
a febre baixar, continue dando o antibitico, de trs
em trs horas no primeiro dia, no segundo de seis em
seis, nos dois ltimos dias de doze em doze horas.
Guillermo pagou as duas caixas de remdios e os
dois envelopes de comprimidos antitrmicos. J saa
quando se lembrou do termmetro. Voltou, pediu-o,
recebeu-o, pagou-o. De dentro do carro, antes de partir,
perguntou pelo lugar mais prximo onde pudesse
comprar cigarros, o farmacutico lhe indicou.
Encontrou o bar aberto dois quarteires  frente,
em uma rua lateral. No tinha como errar: era o nico
lugar com luzes acesas. Apenas uma das mesas
estava ocupada. Os dois fregueses, uma garrafa de cerveja
 frente, os copos servidos pela metade, estavam
calados, de olho na televiso pendurada em um suporte
de metal.
Foi direto ao balco, pediu dois maos do cigarro
indicado pelo Chileno. O atendente no pareceu ouvilo.
Guillermo percebeu que o rapaz de jeito parvo
170

tambm mirava fixamente o aparelho de tev. Repetiu
a ordem. Ele pareceu acordar, foi at um pequeno armrio,
pegou os cigarros, entregou-os, recebeu o pagamento,
retornou a ateno  tev.
Guillermo caminhava para fora do bar quando ouviu
o locutor pronunciar a palavra Seqestro. Voltou-se.
A imagem na televiso mostrava um homem moreno
corpulento, ao lado de uma mulher loura como
a criana febril que estava no stio, tendo entre eles
um menino to moreno quanto o adulto. A cmera se
aproximou do garoto de pele escura. O locutor disse
que o filho do publicitrio Olavo Bettencourt tinha
sido levado por traficantes, num ataque fulminante
em um bairro nobre da capital paulista, mancomunados
com o motorista Carlos Roberto da Costa, um
ex-policial militar, que estava foragido. A foto do motorista,
em uniforme militar, foi mostrada. As imagens
seguintes eram de soldados e oficiais da polcia, armados,
entrando em uma favela. As buscas pelos seqestradores
prosseguem neste momento e continuaro
pela madrugada, contou o locutor. No descansaremos
enquanto no encontrarmos os facnoras e o
menino Olavo Bettencourt Jnior, disse um homem de
terno escuro. De novo exibiram a foto da criana seqestrada:
um menino moreno, de cara larga, os cabelos
e os olhos muito pretos.

* * *

171

A voz eletrnica atendeu novamente, aps a campainha
soar as mesmas oito vezes. Barbara aguardou
o bip ao fim da mensagem em ingls e disse: Meu
nome  Barbara e eu sou filha do Major que  o motorista
de vocs e eu queria saber como  que eu posso
fazer para falar com ele, porque a polcia esteve l
em casa e disse para a minha me que ele estava preso
mas no disse onde ele est preso, e como  que
a gente pode falar com ele e saber o que  que est
acontecendo, e como eu no conheo nenhum advogado,
nem minha me conhece nenhum, e o meu
padrasto tambm foi preso, e o Major, que  motorista
de vocs, eu sei que o meu pai no pode ter nada
com traficantes porque o meu pai, que trabalha a, o
Major, que  o meu pai, que trabalha a de motorista,
ele me deu esse telefone para eu ligar se quisesse falar
com ele e eu... Eu pensei que... Ns no conhecemos
quem possa ajudar nisso do meu pai estar preso e...
Por favor, se o senhor puder ajudar... Por favor... Eu...
Eu...
 A senhora  filha do Major?  disse uma voz
de mulher do outro lado, subitamente.
 Quem est falando?  a patroa do meu pai?
 Sou empregada  disse a mulher.  Sou a
caseira, com meu marido. Atendi porque ouvi que
a senhora est chorando.
 No estou chorando. S quero saber do meu
pai.
172

- No sei o que fizeram com ele. No falaram
para onde levaram o corpo dele.
- Que corpo? Que corpo? O que aconteceu com
o meu pai?
 No sei quem matou ele. No sei para onde
levaram ele. S atendi porque sei o quanto a senhora
est sofrendo.
- Cad o meu pai? Onde est o meu pai? Onde?
- No chore. No adianta. Deus no ouve.
A ligao terminou. Barbara ficou com o fone na
mo, ouvindo o som contnuo, como um zumbido.
Ou um grito.
173



CAPTULO 15

Naquela madrugada

Tera-feira, 21 de agosto

0h19


A porta do escritrio estava fechada. Mara girou
a maaneta uma, duas, trs vezes, at se dar conta
de que estava trancada. Bateu. Esperou. Bateu de
novo. Aguardou. Bateu novamente. Voltou a bater,
insistentemente.
Olavo abriu.
 Preciso falar contigo  disse, passando por ele
e entrando no cmodo dominado por uma enorme
reproduo fotogrfica da capa de um gibi do Capito
Amrica em uma parede vermelha,  frente da
qual ficava uma mesa de ao escovado, com tampo
de vidro fum. Entre os papis sobre ela, reconheceu
a logomarca de um dos bancos de Nova York que visitara
algumas vezes acompanhando o marido.  Tu
estavas fazendo contas? Sobre o resgate? Ernesto foi
embora? O delegado tambm foi embora?
 Ele  inspetor, Mara. Da Polcia Federal. Sim,
j se foram. Tudo est resolvido.
175

 Na televiso esto mostrando uma foto nossa,
com Olavinho.
 Hum, hum.
 Esto dizendo que o Olavinho  que foi seqestrado.
 Hum, hum.
 Por qu?
  a estratgia que decidimos.
 Mas e o menino dos caseiros? Por que no falam
do guri loirinho?
  a estratgia que adotamos para ganhar tempo.
At encontrar os seqestradores.
 Tu vai pagar o resgate do guri?
 Tu vais, Mara. Vais.
  desse banco de Nova York que tu vais tirar o
dinheiro?  perguntou, apontando o extrato sobre a
mesa.  O nmero que eles deixaram no carro  o
dessa conta? O outro nmero  de qual conta? A daquelas
ilhas do Caribe? Quanto esto pedindo?
 Eles querem o que est na conta, Mara.
 Quanto?
 Tudo. Transferido da minha conta do banco
israelense para a deles, no mesmo banco. Esse era o
significado da mensagem.
- Tudo?
 No se preocupe. No  problema seu. A polcia
vai encontr-los. Vai haver um confronto, Na troca
de tiros, ningum vai sobreviver.
176

 E o guri?
 O que tem o menino?
 O que vai acontecer com o guri?
 O mesmo que em todo seqestro de criana.
O mesmo que aconteceu com o filho de um empresrio
nissei daqui de So Paulo. O mesmo que fizeram
com aquela filha de farmacuticos em Minas
Gerais. E tantas outras crianas. Aqui, na Itlia, na
ndia, na Inglaterra. Crianas no saem com vida de
seqestros. Os pais sabem, a polcia sabe, todos sabem
que, mesmo pagando o resgate, os seqestradores
mataro a criana.  da natureza desse tipo de seqestro.
 Mas se tu oferecer uma boa quantia...
 Ofereceres. Se tu ofereceres. Esse menino no
 uma criana normal. Ele no teria futuro, de qualquer
modo.
 O guri ... Diferente. Mas se tu...
 O que vai acontecer com ele no importa. E
tambm no  problema seu.
 Podemos salvar o guri, Olavo. Ele vale menos
que o nosso filho. Muito menos. Quando os seqestradores
souberem que  filho dos caseiros, aceitaro
o que tu oferecer.
 No tenho nada para oferecer por essa criana.
 Eu tenho.
 Esquea essa criana, Mara.
 Eu posso vender o apartamento de Nova York
e oferecer o dinheiro.
177

 No, Mara.
 O apartamento  fcil de vender.
 No, Mara.
  bem localizado, num prdio bom, tem porteiro
vinte e quatro horas, tem lavanderia, tem...
 No, Mara.
 Fica num andar alto, tem vista, tem comrcio
perto...
- No.
 Tem uma sute e um banheiro social, o prdio
 novo...
 No podemos vender o apartamento da rua 72.
 Se tu no quer salvar a vida dele, eu quero.
O apartamento deve valer uns oitocentos mil dlares.
No foi isso que tu pagou? Sou boa de nmeros, me
lembro bem. Oitocentos e quarenta e cinco mil dlares.
Eu vendo e...
 Voc no pode vender o apartamento da rua 72.
  claro que posso. Da tu faz alguma negociao
com os seqestradores. Eles devolvem o menino
e...
 No pode, Mara. No podemos.
 Eu posso. No preciso da tua permisso. O
apartamento  meu. Tu comprou em meu nome.
 Tu compraste. Compraste, Mara.
 Eu assinei os papis. Eu tenho cpia desses
papis.
178

Olavo passou por trs dela, foi at a mesa, abriu
uma gaveta, pegou algumas folhas e estendeu-as a
Mara.
 Pois veja de novo.
Ela no se moveu.
 Veja de novo, Mara. Leia, com o pouco ingls
que voc sabe.
 Levo para um advogado.
 Ele lhe dir que estes papis so um contrato
de comodato. Voc tem o direito de utilizar o apartamento
sempre que quiser, desde que o proprietrio
concorde, pelo tempo que ao proprietrio convier, e
desde que o proprietrio no tenha uso imediato para
o imvel no momento da sua solicitao.
 Ou seja, desde que tu concorde.
 No  to simples assim.
 O que tu quer?
  impressionante como voc se torna incapaz
de fazer concordncias quando est com raiva. Baixa
a gacha total em voc. Mara, se voc no fosse branca,
loura, de olhos azuis, seria fcil, fcil, uma favela-
da do Rio de Janeiro.
 Para quem tu deu o apartamento de Nova York?
 Para ningum, Mara. No se trata da histria
simplria de outra amante. O apartamento da rua 72
no me pertence. Nem a mim nem a voc. Nem a
mim, nem a ti, como voc poderia dizer, se soubesse
fazer concordncias.
179

 Eu assinei os papis da compra.
 Estes. Do comodato. Se voc soubesse ingls,
teria visto.
 De quem...?
  propriedade do correntista de um banco com
sede em Tel Aviv. Um ministro de Estado brasileiro.
A quem eu devo favores, contas publicitrias, indicaes
para concorrncias de campanhas de propaganda
de empresas que dependem de aprovaes do governo,
toda essa coisa complexa que sua cabecinha
loura no conseguir compreender.
 Eu posso no compreender, Olavo. No em todos
os detalhes. Mas os jornalistas entendem. Qualquer
jornalista que eu procurar vai entender. Eu sei de
cor os nmeros de nossa conta bancria em Nova York.
 Posso mudar esses nmeros com um telefonema
agora mesmo.
 Sei muita coisa de teus negcios com Ernesto e
com esses teus amigos do governo em Braslia.
 Mara, no me ameace. Voc  linda, voc  a
mulher que mais me d teso, mas voc  uma tola,
Mara. Voc  burra.
 Liga para esse ministro, Olavo. Diz a ele que
tu precisa desse dinheiro agora. Fala novecentos mil
dlares.
 Mara Elizabeth Grunnert Bettencourt, minha
querida esposa e me do meu filho, quem ordena o
que o outro faz, aqui, sou eu.
180

 Manda esse ministro arranjar o dinheiro para
tirar o guri dos seqestradores. Hoje. Agora. J! Pega
o telefone e liga para ele, Olavo! Liga. Liga, Olavo!
Agora. Agora!
Ele colocou o contrato de comodato de volta  gaveta,
trancou-a, sentou-se, apoiou o queixo nas mos
cruzadas, sorriu.
 Que tom  esse, Mara Elizabeth Grunnert
Bettencourt?
 No vou deixar esse menino morrer. Liga para
o ministro. Diz que voc quer o dinheiro imediatamente.
Liga. Liga!
 Neste exato momento  Olavo levantou a
manga da camisa Brooks Brothers e certificou-se da
hora no relgio Cartier comprado na butique da Place
Vendme  o ministro est na primeira classe de
um Boeing 747 da Varig, acompanhado do presidente
da Repblica e de alguns ministros prximos e confiveis.
Esto a caminho de Manhattan, onde amanh
acompanharo a sesso de abertura da ONU e,  noite,
o ministro ser homenageado no Plaza Hotel com
um jantar de gala, seguido de baile, como "O Homem
do Ano", pela poderosa associao de empresrios
norte-americanos com indstrias em nosso territrio
e outros que esto interessados em fazer, ou j
fazendo, polpudos investimentos no Brasil.  impossvel
falar com o ministro neste momento. E, mesmo
que fosse, o ministro no teria tempo, nem interesse,
181

no destino que bandidos queiram dar a um menino
dbil mental, filho de caseiros semianalfabetos, seqestrado
por engano no lugar do filho do patro.
Saia daqui, Mara. Voc me perturba. Fico com teso
demais. No posso te comer agora. Tenho de preparar
alguns planos antes da nossa viagem.
 Que viagem?
 No lhe contei que vamos a Nova York? Iremos
depois de amanh. Alis...  conferiu, mais uma vez,
o relgio.  Amanh. Quarta  noite. Vamos nos juntar
 comitiva do presidente. Faa uma mala s com
o bsico. Cosmticos, calcinhas, essas coisas. No se
preocupe com o que vai usar nas festas e jantares.
Comprarei roupas novas para voc.
 Mas, Olavo, o guri... Os seqestradores ainda...
 O caso ser resolvido nas prximas horas. Est
nas mos da Polcia Federal e dos servios de inteligncia
do governo.
 No quero ir.
 Voc no diz No Quero para mim. Voc vai.
Preciso da sua assinatura em alguns negcios que farei
em Manhattan.
 No quero.
 Quer. Eu quero, voc quer. Agora saia.
Sua primeira reao era obedecer. Mas algo a retinha
ali, de p, ainda prxima  entrada do escritrio
de paredes vermelhas. No reconhecia aquele sentimento.
Era novo para ela.
182

 No.
 No o qu, Mara Elizabeth?
 No vou sair daqui. No vou a Nova York. No
vou assinar documento nenhum. No vou fazer o que
tu quiser. No vou fazer o que tu mandar. No vou
nada.
 No vai?
 No.
 Mara querida Elizabeth, isto no  um jogo de
poder. Simplesmente porque voc no tem nenhum e
eu tenho todos. Esse vestido de grife, esses sapatos, esses
cabelos bem-cuidados, essas unhas manicuradas,
essa pele sem manchas, esses dentes com obturaes
de porcelana, tudo em voc, tudo seu, no  seu. No
lhe pertence, Mara Elizabeth Grunnert Bettencourt.
Eu pago por isso. Pago por voc. Para ter voc. Para
entrar em voc a hora que eu quiser. Na sua boceta, no
seu cu, na sua boca. Onde e quando eu quiser. Vamos
a Nova York depois de amanh. Agora, saia daqui.
-No.
- No?
 No, Olavo. No. No vou. No quero. No
vou a Nova York. No assino mais nada.
-No?
 No. J disse que no.
 Ento venha aqui  disse, se levantando,
abrindo a braguilha da cala e colocando o pau para
fora.  Vem aqui e me chupa.
183

Mara ficou esttica.
 Vem.
Estavam a menos de dois metros um do outro.
Nenhum se moveu, aguardando o movimento do antagonista.
 Me chupa  ele ordenou.
 No  Mara finalmente conseguiu dizer, pela
primeira vez com convico desde o momento em
que se conheceram e ela iniciou o jogo de fingir tentar
escapar de Olavo para atiar sua cobia de conquista
e compra. A regra estava rompida. Mas ele no
acreditou.
 Me chupa  repetiu, pondo tambm o saco
para fora.  Me chupa todo. Agora.
Teve vontade de estape-lo. Conteve-se. Cruzou os
braos, apertou-os contra o corpo. Respirou fundo.
 Os jornais e revistas  disse, a voz tremendo
 vo gostar de saber que o ministro mais poderoso
do governo tem negcios secretos com o publicitrio
mais premiado do Brasil.
 E com alguns dos menos premiados, tambm.
E no somente no exterior. De onde voc acha que
vem o dinheiro para pagar esta casa, os empregados,
os seguranas, os motoristas? Como voc acha que foi
paga a casa de praia de que voc tanto gosta? O apartamento
que eu dei para sua me em Porto Alegre foi
quitado de que forma? Tudo isso voc pode contar
para os jornalistas, Mara. Ou prefere que eu chame
184

voc de Natasha? Ou Vanessa? Ou Tamara? Ou Isadora?
Qual desses nomes voc preferia, quando era
garota de programa? Vejo pela sua cara que est surpresa
com o meu conhecimento de seu passado, do
que fazia antes de me agarrar com o golpe do noivo
engenheiro com quem vai se casar.
 Eu nunca... Eu nunca fui, nunca fui. Tu fala
assim porque est com raiva de mim.
 No tenho raiva de voc, Mara. Ou prefere que
eu chame voc de Ingrid? O leo no tem raiva da
presa. O leo ama a presa. Ama a gazela que foge dele
em corrida desesperada. Eu te amo, Mara. Te amo,
Susana. Jackie. Francesca.
 Eu nunca...
 No seja hipcrita, Gisele. Letcia. Tatiana.
Angela.
 Eu era modelo. Eu no era...
 Garota de programa. No, Nathalie. Voc era
scort, Martina. Acompanhante de cavalheiros, Caroline.
Vinha de Porto Alegre para c, ou para o Rio
de Janeiro. Algumas vezes foi a Braslia, Vera. Poucas.
A Goinia, tambm, Karine. E a Salvador. E a Recife,
se no me engano, Rosana. Voc pode contar tudo
isso para os jornalistas, Mirella. Eu ajudo, fornecendo
fotografias suas nesses encontros.
 Tu no....
 Tenho, Stephanie. Tenho muitas fotos. E um
vdeo, gravado em um motel do Rio.
185

 O tempo todo tu sabia.
 Sabias. Sim, Roberta, eu sabia. Sim, Renata,
eu sabia. Sim, Flvia, eu sabia. Sim, Tnia, Soraya,
Nicole, Fernanda, Rafaela, Sandra, Marcela, Lia,
Camila.
 Tu sabia.
 Sim, Alessandra.
 Desde o comeo tu sabia.
 Um pouco depois do comeo. Sim, Carol, eu
sabia. Sim, Paula, Diana, Andressa, Simone, Denise.
Sim. Tenho relatrios das investigaes, nomes de
seus clientes, telefones, fotos, tudo. Posso ceder cpias
para os jornalistas, se voc quiser.
 Tu no faria isso.
 Sim, Sandra, eu faria. Sem titubear. Em defesa
do meu filho, do futuro do meu filho e do meu patrimnio
e o dele, seguramente eu faria, Giovanna. Serei
motivo de chacota por algum tempo, depois passa.
Com meu dinheiro, minha fama e minha rede de relaes,
todos estaro dispostos a esquecer que fui casado
com uma puta.
 No sou puta.
 Sim, . E assim eu a amo. Porque voc  uma
vagabunda, porque no preciso respeitar voc, porque
sua vulgaridade, seus erros de concordncia e sua
boceta rosada me deixam excitado. Sempre. Sempre,
Mara. Minha gazela. E voc tambm me ama. Pelo
meu dinheiro, por minha proximidade com o poder,
186

por tudo que voc sempre quis e eu lhe dou, pela dor
que lhe inflijo. Essas necessidades orientam voc. E
quem pode supri-las sou eu. S eu. Eu sou o seu norte,
Mara Elizabeth Grunnert Bettencourt. Sem mim
voc rodaria por a como um carro desgovernado.
Habituada  dissimulao e s mscaras por trs
das quais se escondia at de si mesma, Mara perdeu o
rumo de onde a indignaoa levara. No estava acostumada
a jogar usando a verdade como arma. Sabia
que queria salvar o menino e ainda sentia o incmodo,
a vergonha e a dor do dedo de Olavo cavoucando
dentro de si. Mas dali no ultrapassava. No
tinha idia de como enfrentar como ela prpria o homem
com quem h cinco anos vivia representando
um papel em que, s vezes, quase acreditava. Nem
quem de verdade ela prpria seria.
 V dormir, minha querida esposa. J passa da
meia-noite. No se preocupe em fazer a mala para
nossa viagem. Eu orientarei Irene sobre o que colocar
nela. Boa-noite.
187



CAPTULO 16

Naquela noite

Segunda-feira, 20 de agosto

10h51


Naquela madrugada

Tera-feira, 21 de agosto

1h03


Com a mo direita Alfonso abriu o tambor do Magnum
3.57, tirou as balas uma a uma, colocando-as
entre as pernas, voltou a enfi-las nos orifcios, ps o
tambor carregado na posio inicial, abriu-o com a
mo esquerda, tirou cada bala, repetiu os mesmos gestos
e assim continuou, ora com uma das mos, ora
com a outra, atento  prpria habilidade, por toda a
viagem de volta ao stio. No falava com Guillermo,
que tampouco tinha interesse em conversar com ele.
Assim agiam, desde o primeiro trabalho juntos, quatro
anos atrs, quando Daniel os contratara para eliminar
um jornalista que incomodava plantadores de coca
bolivianos. Assim agiriam no prximo, em Bogot,
quando deveriam sumir com a herdeira de um milionrio
colombiano exportador de pimenta que,
189

apaixonada por um professor de esquerda, passara a financiar
aes do grupo terrorista a que ele pertencia.
No gostavam um do outro. Aceitavam-se. E se
desprezavam. O vcuo mental em que Alfonso boiava
provocava em Guillermo tanto mal-estar quanto
a perspiccia do ndio ymana ao tetraneto de irlandeses
que ocuparam a terra de seus antepassados, levados
por missionrios anglicanos para o sul da Argentina.
Juntos trabalhavam com rapidez e eficcia.
Formavam uma dupla equilibrada. No falhavam.
No deixavam rastros. E tinham em comum o hbito
do silncio: nenhum dos dois era de muitas palavras.
Naquela madrugada, porm, a mudez de Guillermo
no estava montada na rotina.
Ele mesmo abriu a porteira, passou com o carro,
desceu de novo e a fechou. Alfonso parou de brincar
com a arma, segurou-a com a mo esquerda, com que
era mais preciso, mantendo-a sobre a perna.
Guillermo acendeu a luz do interior do veculo
antes de subir a trilha at a casa. O peruano de vigia
na varanda tranquilizou-se, baixou o fuzil que
apontara para eles, sentou-se de volta no banco de
madeira.
Aps estacionar ao lado do Kadett, esperou que
Alfonso sasse, pegou os cigarros e os remdios no
banco traseiro, fechou os vidros e trancou o carro, hbito
adquirido nos quatro anos vivendo em Assuno,
e caminhou at a casa.
190

Tentava conectar o que lhe pareciam pontos dispersos.
Alfonso j estava deitado no nico sof, de olhos
fechados, as mos dentro da japona de l. Fazia tanto
frio ali quanto do lado de fora. A porta do quarto que
Daniel reservara para si estava fechada. Dormia, seguramente.
No tinha por que se preocupar. Tudo
dera certo. De manh o Brasileiro chegaria, no mesmo
veculo que Alfonso e Guillermo deveriam usar
para retornar a So Paulo. Ali, segundo os planos, postariam
ao publicitrioo cassete com a voz e o choro
do filho, antes de embarcar, em vos separados, para
Assuno e Buenos Aires, onde aguardariam instrues
para o incio da Operao Bogot.
Foi ao cmodo destinado ao menino, abriu a porta.
No catre viu apenas um pequeno embolado de
cobertores, sem distino de cabea ou ps. Deu dois
passos e ia levantar a coberta quando sentiu o cano
frio da pistola do Uruguaio em sua tmpora. Parou.
Quero ver a cara desta criana, disse, sem se virar.
Por qu, perguntou Emiliano, sempre com o cano
da Walther nove milmetros encostado no ndio de
bochechas coradas.
Trouxe os remdios que tu pediste. E o termmetro.
Deixa-os a.
Por que mantns esta pistola em minha testa?
Tu caminhaste como indo a um inimigo.
191

Ests nervoso, Uruguaio?
D-me os remdios.
Pegou a sacola, enquanto colocava a Walther na
cintura.
Que  isto?
 antibitico. O farmacutico disse que o menino
pode estar com alguma inflamao.
Tu falaste do menino ao farmacutico, Emiliano
indagou, irritado.
Seguramente que no. Achas que sou estpido
como Alfonso, perguntou, acrescentando: Disse que
um velhinho tinha febre.
Trouxeste inutilmente. No se pode dar antibitico
de adulto para uma criana. Vai-te, Boliviano.
Sabes que no sou boliviano. Sou argentino.
Tens cara de boliviano. A Organizao em Santiago
te chama El Boliviano.
Sou argentino.
Ento diz de quem so estes versos: Ahora el mar
es una larga separacin entre la ceniza y la ptria. Ya
toda la vida, por humilde que seay puede pisar su nada
y su noche. Ya Dios lo habr olvidado y es menos una
injuria que una piedad demorar su infinita disolucin
com limosnas de dio.
No conheo poesia. Pouco estudei. Que significa
esmolas de dio?
E estas palavras, Boliviano, te recordas, desafiou:
No hay aplazaos ni escalafon, los inmorales nos han
192

igualao. Si uno vive en la impostura y otro roba en su
ambicin, da mismo que sea cura, conchonero, Rey de
bastos, caradura o polizn.
Tampouco as conheo.
Como podes ser argentino, se no conheces nem
Borges, nem tangos?
Somente argentinos brancos gostam de tango. Borges
era o cego?
Tu falas como um boliviano. No usas o tratamento
Vs, como os argentinos.
Nem tu, tampouco.
Sou uruguaio, caralho.
Os uruguaios falam como os argentinos.
Que caralho de merda que falamos como aqueles.
Temos sangue catalo e andaluz em nossas veias. Os
argentinos no sabem falar espanhol. Falam como
se fossem italianos.
No falo como italiano. E sou to argentino quanto
Alfonso. Mais, ainda. Meu povo estava l muito
antes dos gringos parentes dele chegarem. Quero ver
a cara do menino.
Por qu?
Quantos filhos tem o publicitrio, Uruguaio?
No sei. Trs ou dois. Pergunte a Daniel. Ele saber.
Trs ou dois?
Trs, dois, que diferena faz para ti, caralho?
Tu viste os outros filhos?
193

S vi este.
Quando?
Que te importa, caralho? Vi este filho, com a me,
na entrada da escola. Tu tambm viste, caralho.
Sim, vi. A loura alta. Ela o carregou no colo. Sim,
eu vi. Mas h pouco, na televiso, o menino que mostraram
era...
Que se foda a televiso. Traz um copo de gua.
Vou dissolver estes comprimidos e d-los ao menino.
A febre dele aumenta a cada hora, comentou para si
mesmo, depois que Guillermo saiu, desembrulhando
os cobertores e colocando o termmetro na boca da
criana.
Seus olhos continuavam fechados. Tremia. Suava.
No vago do metr a jovem magra, de roupas e
cabelos molhados, abraava a mochila como a uma
boia num naufrgio. Tentava manter-se  tona, mas
sentia-se arrastada por correntes muito alm de seu
entendimento. Respirava com a aflio de quem
engole gua, ao tentar puxar mais ar.
Ele est morto. A mulher disse. Falou que no sabia
para onde tinham levado o corpo. O corpo. O
corpo do meu pai. Ele no foi preso. Ele no est
preso. Ele est morto. Meu pai est morto. Mataram
meu pai. A polcia matou meu pai. Foi a polcia que
matou meu pai? Por que a polcia matou meu pai?
194

A polcia assassinou meu pai? Quem assassinou meu
pai? Por que assassinaram meu pai? Por que disseram
que ele  traficante? Que ele era traficante? Que era
cmplice de traficantes? Quem o matou? Por que o
matou? Por que o mataram? Quando o mataram? De
que forma o mataram? Onde o mataram? Ele sofreu?
Meu pai teve uma morte dolorosa? Ele no merecia
uma morte dolorosa. Meu pai no merecia a morte.
No assim. Assim como? Quem decreta que uma pessoa
vai morrer porque algum diz que  traficante?
Para onde levaram o corpo do meu pai? Onde est o
corpo do meu pai? Quem pode me ajudar a achar
o corpo do meu pai? Ningum pode me ajudar a
achar o corpo do meu pai. Por que sumiram com o
corpo do meu pai? Como puderam sumir com o corpo
dele? Quem sumiu com o corpo? Por que a polcia
foi na minha casa e revirou tudo e quebrou coisas e
assustou a minha me? Por que quebraram tudo na
minha casa? Como podem entrar numa casa e revirar
tudo e quebrar tudo? Como podem? Por que podem?
Entraram. Reviraram. Quebraram. E levaram tambm
meu padrasto. Por que levaram meu padrasto?
Quem diz que ele  traficante, como esto dizendo
que meu pai ? Era. Como puderam matar o meu
pai? Como podem matar uma pessoa e ningum saber?
Como fizeram isso com ele? Como podem fazer
isso com a gente? Quem pode? Quem d a ordem?
Quem comanda? Quem diz que aquele ali pode ser morto?
195

Ou aquele outro? Como podem entrar na
casa da gente, nos deixar com medo, nos fazer acreditar
que somos culpados de um crime que nem sabemos
qual crime ? Por que tenho medo deles, se sinto
tanta raiva deles? Por que sinto que eles no tm razo
e assim tenho medo de que eles faam coisas ainda
piores conosco? Por que podem fazer isso com a
gente? Quem permite? Por que eles tm o poder de
fazer isso com a gente? Quem so eles? Quem so?
Quem so?
Barbara no percebia que chorava.
Quando o metr parou na Estao Barra Funda,
ela saltou. Estava tonta. Encostou-se em uma pilastra.
Comeou ento a soluar. Deixou o corpo escorrer
at o cho, sentou-se e ali ficou, chorando alto, alheia
aos poucos passageiros que circulavam naquele incio
de madrugada. At aquietar-se.
Ento se levantou. Com a nsia de quem emergia.
Sobrevivera.
Sobrevivera.
E decidira: no queria mais viver neste pas onde
no tinha direito algum. Emigraria para os Estados
Unidos. Como Lus Cludio planejava fazer, como o
irmo de Lus Cludio fizera, como tantos outros brasileiros
estavam fazendo. Emigraria. Sim, emigraria.
Adeus, Brasil. Adeus, safadeza. Adeus, corrupo.
Adeus pobreza, adeus preos que sobem todo dia,
adeus medo da polcia, adeus Barra Funda, adeus So Paulo,
196

adeus me, adeus tudo, adeus todos, adeus
para sempre, adeus, adeus, adeus. Faxineira aqui, faxineira
l, que diferena fazia? E ainda iria ganhar em
dlar. Quem falsificasse o visto de seu passaporte tambm
podia falsificar sua data de nascimento. Aumentaria
a idade para dezoito anos. Dezenove. Amanh,
no curso, falaria com Lus Cludio. Talvez pudesse ir
com ele. Sim, iria com ele. Amanh de manh combinaria
tudo com Lus Cludio. Partiriam juntos para
o Canad e, dali, para a tal cidade perto de Boston
onde viviam tantos brasileiros. Amanh. Alis, hoje:
j passa de uma da manh.
O closet continuava aberto  sua frente, com as
fileiras de vestidos, blusas, casacos, jaquetas, palets,
saias, cintos a formar grupos de tom sobre tom, organizados
por Olavo em combinaes de maneira que
ela jamais se equivocasse na composio da elegante
jovem senhora nos crculos em que a exibia. Ao fundo
e nas portas duplas, espelhos de dois metros de
altura lhe permitiam observar todos os ngulos da prpria
montagem.
O que via: uma mulher alta, parecendo ainda mais
alta por causa dos sapatos de salto, de pernas longas,
quadris estreitos, seios ligeiramente maiores do que
seria de se esperar em algum de estrutura to esguia,
vestindo um chemisier bege de mangas compridas,
197

fechado na frente por botes forrados no mesmo tecido
e amarrado na cintura por uma echarpe cinza, a
gola levantada na nuca, uma corrente de elos grossos
e dourados de vrias voltas em torno do pescoo longo,
destacado pelos cabelos presos em coque, brincos
de prolas nos lbulos das orelhas pequenas. Parecia
aquela artista de Hollywood que virou princesa de
Mnaco. Tal como Olavo queria e montara.
Desenrolou, devagar, a corrente Versace. Largou-a.
No fez nenhum rudo ao cair sobre o espesso tapete
cor de baunilha. Desatarraxou os brincos Cartier.
Soltou-os. Tampouco fizeram qualquer barulho. O
silncio que pairava no quarto de paredes brancas,
mveis brancos, luminrias brancas, edredom branco,
persianas e cortinas brancas, aumentava sua impresso
de flutuar dentro de um amplo ventre vazio. Desatou
o coque. Os cabelos cobriram seus ombros. Descalou
os sapatos Gucci. Desamarrou a echarpe Dior.
Jogou-a sobre o grupo de tailleurs cinza, creme e
brancos em estilo Chanel. Abriu, um a um, os botes
do chemisier Saint-Laurent, deixou que escorregasse
at seus ps descalos. No usava nada por baixo.
O que viu: uma menina comprida, magra, branquela,
os ossos do trax marcados sob a pele, os cabelos
cortados muito curtos por causa dos piolhos da
escola, a barriga roncando de fome mas sempre com
horror de comida, os olhos to fundos no rosto encovado
que nem se percebia seu tom azul de giz,
198

uma primeira penugem, leve, loura, quase branca, surgindo
onde comeavam suas pernas finas.
A mulher diante do espelho cobriu o sexo e escondeu
os seios com um dos braos, envergonhada.
Subiu a ladeira em baixa velocidade, piscando o
farol alto do sed preto, adaptado para paraplgicos.
Era necessrio tranqilizar o sentinela. No breu, sob
a chuva, via apenas a silhueta delineada pela luz do
lampio na varanda, mas sabia que, fosse quem fosse,
teria uma AK-47 apontada para ele e o dedo no gatilho.
A menos de trezentos metros como estava, a
arma trazida via Paraguai podia atravessar o Passat
GTS Pointer comprado com o que lhe sobrara do
Fundo de Garantia de Tempo de Servio e enfiar
seiscentas balas em seu corpo, em menos de um minuto.
M perspectiva. Bela arma. Das poucas boas coisas
que os comunistas criaram sem copiar o mundo
democrtico.
Quando estacionou ao lado dos dois carros menores,
Daniel j chegara  entrada da casa e observava.
Logo uma figura mais alta, de cabea raspada, colocou-
se atrs dele. O ndio passou  frente dos dois,
desceu o degrau, postou-se junto ao Peruano. Todos
tinham suas armas nas mos.
Poderia execut-los com uma nica rajada, j esto
at enfileirados, lhe ocorreu, e a idia o teria divertido
199

se no estivesse to furioso. S no vejo o Uruguaio.
Deve estar dormindo, como fazem a toda hora
os velhotes.
Abriu a porta, tirou do banco de trs a cadeira de
rodas dobrada, colocou-a sem esforo sobre o cascalho,
abriu-a, passou do banco do motorista para ela
com agilidade surpreendente em um homem de 45
anos e mais de oitenta quilos, bateu a porta.
Teve dificuldade para girar as rodas da cadeira na
mistura de barro e cascalho.
Tragam-no, Daniel comandou.
 No preciso de ajuda, porra  protestou, sem
efeito, quando Alfonso e o Peruano o ergueram com
a cadeira e o carregaram at a sala.
 Est frio, aqui. E escuro.
No h lareira nesta casa, Daniel lhe disse enquanto
aumentava a chama do lampio sobre a mesa.
Nem luz eltrica para aquecedores. No  uma estncia
de luxo, bem sabes. Te espervamos de manh.
Que passa? Por que vieste antes?
 Porque voc  um boal.
Daniel crispou-se: que disseste?
 Disse que voc  um boal. Vocs todos so.
Alfonso deu um passo  frente.
 Abaixe essa arma, Portenho. No vem dar uma
de macho argentino para cima de mim. Estou nesta
cadeira de rodas mas quebro os teus cornos sem te dar
tempo de piscar o olho. J acabei com gente
200

duas vezes do seu tamanho. Aqui, no Uruguai, no Chile e
l na sua terra, tambm. Pergunte ao Daniel. Posso
fazer voc chorar de tanta dor que nem sabia que era
possvel sentir, tanta que voc vai pedir para eu lhe
matar para no sofrer mais.
Daniel fez um sinal com a cabea, Alfonso baixou
o Magnum 3.57 e deu um passo atrs.
 Voc podia ser o mais burro de todos, Portenho.
Mas aqui tem um babaca maior ainda.
Fez uma pausa, teatral, melodramtica, como nos
bons tempos dos longos, minuciosos interrogatrios
de jornalistas, sindicalistas e operrios que conduzia
na rua Tutoia, antes de serem suspensos, e por fim
encerrados, a partir da demisso do general D'Avila
Mello pelo presidente Pastor Alemo, diante da gritaria
da imprensa subversiva, aps a morte daquele judeu
Herzog dentro do DOI-CODI.
 O grande babaca sou eu.
Fez nova pausa. Os quatro homens aguardaram
que conclusse. Antnio preferiu prosseguir atravs
de um desvio. No se deixava tomar pela raiva: utilizava-
a para retomar a liderana da operao, que nunca
deveria ter deixado de ser sua. Tinha informaes
que decidiriam o futuro de cada um ali.
 A busca pela criana agora incluiu, alm da Polcia
Federal, policiais da ROTA e da Polcia Civil.
timo. Tenho bons informantes na Polcia Civil. Por
eles fiquei sabendo que os seqestradores do filho do
201

publicitrio so cinco traficantes de favelas da periferia
de So Paulo. A polcia j entrou em uma delas.
Matou dois seqestradores que resistiram  priso.
Est caando outros dois. Sero encontrados at o fim
da madrugada. Com certeza vo enfrentar os policiais,
trocaro tiros e preferiro a morte  priso. Foi
o que adiantaram meus informantes. Eles tambm
me contaram que o cabea do seqestro, o bandido
que planejou tudo,  um ex-policial militar que trabalhava
como motorista da mulher do publicitrio, sabia
a rotina da famlia e passou todas as informaes
aos traficantes. Tambm est foragido.  to perigoso,
ou mais, do que seus comparsas.
Daniel percebeu que Antnio invertera os papis.
Como bom e experiente estrategista, acatou o poder
emergente, at situar-se mais claramente.
Falas do motorista que Alfonso neutralizou?
 Sim, Daniel. Aquele mesmo que o Portenho
deixou com a cervical cortada.
No compreendo, admitiu em voz alta Leonel, o
peruano que raramente falava.
Eu tampouco. Acertei trs balaos no pescoo
dele.
E um em cada ombro, lembrou Guillermo.
Conta-nos o que se passa, disse Emiliano, de p
junto  porta do quarto. Que histria  essa de traficantes?
Por que vieste?, acrescentou, fechando a porta
atrs de si.
202

 No somos procurados, Uruguaio. No seremos
procurados. A polcia no caa babacas.
Que caralho dizes, exclamou Emiliano. Babaca 
a porra da puta da me que te pariu, Brasileiro.
 Babaca  quem sequestra a criana errada 
Antnio gritou.  Babaca  quem no percebe que o
publicitrio j esperava algum tipo de operao como
a nossa e passou a levar o filho para a escola no carro
blindado. Babaca  quem no investigou direito, foi
tapeado e arriscou a vida atacando o Mercedes que
levava o filho do caseiro. Babaca  quem acreditou
que teria dois milhes, trezentos e setenta mil dlares
transferidos da conta secreta desses filhos da puta
do governo para as nossas. Babaca sou eu. Eu sou o
maior babaca. Mais que qualquer um de vocs, seus
cucarachas imbecis.
Nenhum deles se mexeu. Nenhum disse palavra.
Cada um entendeu que seu plano para um futuro
com mais trezentos mil dlares no bolso, deduzidos
os quinhentos mil setecentos e setenta e cinco dlares
da Organizao em Santiago, fora pulverizado.
 Desmontem tudo. Cada um volta para sua
base.
Peruano, voc retorna a Lima por Mato Grosso e
Bolvia. Tome trens e nibus. Uruguaio, leve Alfonso
at Porto Alegre na Fiat. Ali ele toma um avio para
Buenos Aires. Voc segue at a fronteira entre Uruguaiana
e Paso dei Leon, queime o carro e prossiga de
203

nibus Boliviano, voc vai no Kadett at Foz de Iguau,
deixa o carro no Brasil, atravessa a p a Ponte da
Amizade. Em Ciudad del Este hospede-se no Hotel
Valenciano. O gerente lhe dar as chaves de um automvel.
Siga para Assuno e aguarde. Voc, Daniel,
vem comigo para So Paulo.
Por qu?
 Falei com a Organizao em Santiago. Assim
querem. Assim voc far.
Daniel baixou os olhos, logo os levantou. Fitou
cada um dos homens na sala, demoradamente, e cada
um o olhou de volta, da mesma forma. O silncio
entre eles era a admisso do fracasso.
Vou pegar minhas coisas, disse dando as costas a
todos e entrando no quarto.
E o menino, vamos deix-lo nesta casa, perguntou
Guillermo.
 H uma represa aqui perto. Joguem o corpo l,
amarrado a alguma coisa pesada. Voc, Portenho. D
um fim nessa criana. Mas no a jogue viva, que 
crueldade.
204



CAPTULO 17

Naquela madrugada

Tera-feira, 21 de agosto

5h34


Ainda no tinha amanhecido quando um automvel
Fiat Uno cinza, ano de fabricao 1989, movido a
lcool, com placa de Minas Gerais, chegou ao grande
lago formado pela represa Paineiras e parou prximo
 rea destinada a piqueniques.
A chuva cessara.
Deitado no banco de trs, quieto, enrolado em cobertores,
havia um menino. No banco da frente, 
direita, um homem magro, precocemente envelhecido,
reparou nos finos traos de cores que comeavam
a riscar as nuvens gris, como rabiscos de criana sobre
papel vagabundo. Os rabiscos eram duplicados na superfcie
plcida do grande lago abaixo onde boiavam,
imveis, bandos de bigus.
O sujeito de cabea raspada a seu lado desligou o
motor, sacou da cintura o revlver prateado de cano
longo e o destravou.

* * *

205

Ainda no tinha amanhecido quando a jovem de
cabelos desalinhados embarcou com outras centenas
de passageiros, indistinta entre mulheres e homens
cansados de mais uma noite de sono insuficiente, na
estao da Barra Funda, em direo ao centro de So
Paulo, carregando uma mochila pesada demais para
seu corpo frgil.
Levava livros e apostilas de seu curso de ingls
para secretariado, um dicionrio ingls-portugus a
que recorria com freqncia, saboneteira, pasta dental,
escova de dentes, uma camiseta branca para trocar
antes de iniciar o trabalho de faxina, fotos trs por
quatro e documentos de identidade que entregaria a
Lus Cludio junto com seu pedido de ajuda para a
viagem sem volta aos Estados Unidos.
No viu, porque nunca se interessava em ver, as
primeiras pginas dos jornais pendurados na banca da
estao. Dois deles estampavam a imagem de seu pai,
em foto dos tempos de militar. Policial Era Chefe de
Quadrilha de Traficantes, dizia o ttulo de um deles.
No outro a mesma foto, impressa em tamanho menor,
aparecia sobre a foto de quatro homens mortos,
com armas ao lado. Seqestradores Enfrentam Polcia
e Levam Bala, era a manchete.
Ainda no tinha amanhecido quando a caseira da
famlia Bettencourt entrou na cozinha e foi direto a
206

um dos armrios de frmica branco onde guardava a
chaleira italiana de alumnio polido e bico de cobre.
Nem precisava acender a luz. Bastava a luminosidade
que atravessava a janela de frente ao alojamento dos
seguranas. Conhecia cada centmetro daquele cmodo
duas vezes maior do que a casa onde vivera a
infncia no interior de Santa Catarina. Ferveria gua
porque precisava fazer alguma coisa. Passara a noite
em claro, andando entre o corredor que ligava a casa
principal s dependncias dos empregados e seu prprio
quarto, para logo sair e andar de novo, at a garagem,
de volta ao quarto, mais uma vez pelo corredor
at a garagem, com passos leves, cuidando para no
atrapalhar o sono de Stephan e no incomodar ningum.
At que no suportou o prprio vai e vem, lavou
o rosto, escovou os dentes e decidiu iniciar o dia
de trabalho.
Ouviu um barulho atrs de si.
Imediatamente acendeu a luz.
 Dona Mara  exclamou surpresa, ao ver a patroa
sentada na mesa da copa, as mos apoiando a
cabea baixa.
A mulher loura, os cabelos presos em rabo de cavalo,
ergueu o rosto, Tinha os olhos vermelhos, inchados.
 Dona Mara  a caseira repetiu, sem saber
como continuar ou o que dizer.

* * *

207

Ainda no tinha amanhecido quando os dois carros
sados da estrada vicinal entraram na autoestrada
de seis pistas. Tomaram ali sentidos diferentes. O
Chevrolet Kadett Hatch gren para o sul, em direo
ao Paran. O Passat Pointer GTS preto tomou a rodovia
dos Bandeirantes para o leste, rumo a So Paulo.
Fracassamos, disse ao motorista o homem de rosto
oval, os cabelos antes encaracolados agora esticados
em um penteado adequado ao terno cinza, a camisa
branca e a gravata azul-marinho que vestia. Na pasta
ao colo levava um passaporte da Comunidade Europia
com que embarcaria para Lisboa aquela noite
como Rodolfo Lpez Rubio, espanhol de nascimento,
engenheiro de profisso, o mesmo que utilizara para
entrar no Brasil nas ltimas duas vezes. Da capital
portuguesa prosseguiria de carro at Sevilha, para
uma misso que s ali lhe seria revelada.
Mas aprendi que tens um mercado bom c em
Brasil, continuou, depois de esperar inutilmente por
uma resposta de Antnio. Muito bom. No para retomadas
grandes, como a do publicitrio. Demasiado
grande. Demasiado atado  gente poderosa de Braslia.
Mas adequado para outras retomadas, menores.
Proprietrios de indstrias medianas, por exemplo. Os
h, tantos, aqui. Patriarcas de redes de lojas. Irmos e
outros parentes prximos de artistas de msica sertaneja
e de jogadores de futebol. Donos de empresas de nibus.
208

Tantos, Antnio, tantos. As famlias so muito
amorosas, aqui em Brasil.
Irene virou-se, fingindo que procurava a chaleira,
constrangida com a demonstrao de fragilidade de
Mara, dando-lhe tempo para se recompor e a si mesma
para encontrar a melhor forma de agir naquela
situao que a incomodava profundamente.
A felicidade  fcil para esta mulher, que tem
dinheiro, tem esta bela casa, tem um bom marido, tem
um filho inteligente, tem sade, tem tudo de bom e
tudo o que quer, e no entanto... No entanto...
 A senhora quer um caf, perguntou, como teria
perguntado Voc Quer Uma Ajuda, se estivesse falando
com algum que considerasse de sua prpria classe
social. Sentaria ao lado da jovem mulher loura
como faria com uma vizinha, uma prima, uma irm,
e perguntaria: Por Que Voc Estava Chorando. Perguntaria:
Posso Ajudar Em Alguma Coisa. Diria: Eu
Tentei Chorar A Noite Inteira Mas No Encontrei
Esse Alvio. Diria: Estou Com Um Aperto No Peito
Que Di Tanto Que Eu Acho Que Vou Morrer. Mas
disse, apenas:
 Vou botar a gua para ferver.
Mara assentiu com a cabea. Irene despejou dois
copos de gua do filtro na chaleira, colocou-a sobre o
209

fogo de oito bocas, acendeu o queimador mais forte.
Pegou o p de caf guardado na geladeira para manter
mais fresco, ps trs colheres no coador de papel
e este sobre um bule de porcelana branca. Estou fazendo
bem forte, disse, evitando olhar para Mara.
A chaleira logo comeou a emitir sons musicais
pelo bico de cobre. Irene despejou a gua fervente
sobre o p.
 A senhora quer com leite?
 Quero s um cafezinho, Irene. E um cigarro.
 No fumo, dona Mara, desculpou-se, estendendo
a xicrinha. Adoante ou Acar?
Alfonso indicou com a arma a criana no banco
de trs.
No, disse-lhe Emiliano. Eu, no. Tu cuidas disso.
Foi a ti que Daniel incumbiu.
Ento voc me ajuda.
Que queres que eu faa?
Arranje uma pedra, um pedao de ferro, algo para
amarrar no corpo do menino para que afunde. Assim
nos instruiu Daniel, lembrou, saindo do carro e abrindo
a porta de trs.
Tinha ainda a arma na mo.
Puxou o embrulho de cobertores que envolvia a
criana.
Para, Alfonso. Deixa que eu o tire.
210

Alfonso acedeu.
Emiliano saiu da Fiat, pisando no barro do local
onde tinham parado, foi at o lado de Alfonso.
Sai. Deixa que eu pego.
Os ps da criana, calados nas grossas meias de
l de Alfonso, estavam voltados para os dois homens.
Emiliano segurou a ponta do cobertor e arrastou suavemente
o menino em direo a si. Em seguida passou
as mos por baixo dele, ergueu-o, colocou-o sobre
um dos ombros.
L, apontou Alfonso, mostrando uma tora para
amarrao de botes. Coloca-o l.
Assim fez Emiliano. A cabea do menino, de olhos
cerrados, inclinou-se para a direita quando o deixou
encostado no pedao de madeira, sentado sobre a
lama. No emitia nenhum som.
Emiliano afastou-se. Chegou  beira do lago. Os
primeiros raios de sol atravessavam as nuvens cinzentas,
salpicavam as guas, delineavam as margens do
lado oposto onde tinham estacionado.
Alfonso aproximou-se da criana.
Apontou a Magnum 3.57.
Hesitou.
Na cabea ou no corpo, ponderou, em voz alta.
Onde devo atirar, viejito?
No obteve resposta.
Na cara ser melhor, concluiu, apontando novamente.
Estourar e ficar mais difcil reconhec-lo.
211

Um tiro rasgou o silncio do lago. Alguns patos
voaram, assustados.
Daniel refletira desde a madrugada e agora apresentava
a proposta a Antnio: vamos continuar a atuar
regularmente nisto que a Organizao em Santiago
nos juntou para fazer esta vez.
 O que est querendo me dizer, Daniel?
Que fracassamos nesta operao porque era grande
demais e invadimos o terreno de gente mais poderosa
que ns. Que, entretanto, c em Brasil, temos
um vasto campo de atuao. Estamos em um enorme
mercado livre. Aqui poderemos obter mais lucros
com investimentos menores.
 Como?
Atuando com maior freqncia em operaes de
menor envergadura. Temos excelente mo de obra
em Chile: aqueles que esto sem tarefa desde a decadncia
de Pinochet Hbeis em seqestrar e manter
em cativeiro por quanto tempo for necessrio.
 A Organizao em Santiago j os emprega.
No a todos. No todo o tempo. Pensa em quantos
donos de metalrgicas existem, s em So Paulo. Pensa
em quantos fazendeiros existem no Mato Grosso do
Sul. Pensa em quantos empresrios de construo
atuam no Paran. Pensa em quantos donos de corretoras
212

de valores, de agncias de turismo, de joalherias,
de mineradoras, de...  um mercado infinito.
 O que fazer com eles?
Com suas contas bancrias, no com eles. Exigiremos
pouco. Apenas o suficiente para irmos compondo
nossas prprias contas bancrias, sem esvaziar as
deles. No pediremos nada absurdo. Suas famlias
concordaro com o resgate.
Antnio gostou da idia. Planos e imagens voltaram
 sua cabea. Mami. Mustang. Camaro. Coconut
Grove.
Quando eu voltar desta operao em Madri ajustaremos
os detalhes. Ficars rico, Antnio. Tu e eu
ficaremos. Depois tu podes at ir viver em meu bairro
tranqilo e protegido, nas cercanias de Santiago.
 Santiago tem ladeiras demais.  ruim para cadeira
de rodas. No gosto de Santiago. No quero viver
em Santiago. Quero viver em Miami.
Miami, perguntou Daniel. Como te entenders
com as pessoas nos Estados Unidos, disse-lhe, rindo.
Tu mal falas ingls.
Antnio tambm sorriu. Ao lado da estrada surgiam
casebres inacabados e barracos de madeira, primeiros
sinais da cidade que se aproximava.
 No ser problema. Ningum fala ingls em
Miami.

* * *

213

Irene repetiu, percebendo o alheamento de Mara:
adoante ou acar?
 Irene, esta noite viajo para os Estados Unidos e
preciso que voc...
 O doutor Olavo me avisou ontem que preparasse
a mala da senhora.
 Ontem? Tu sabia desde ontem que eu... Tu sabia
antes de mim que eu ia...
 A senhora quer que eu ponha alguma coisa especial
na mala?
 Preciso que tu ligues para este telefone  Mara
colocou um pedao de papel na mo de Irene. 
Depois que Olavo e eu tivermos viajado. Sem que
Olavo saiba. Sem que ningum saiba. Liga de um
telefone da rua.
Irene viu um nmero e o nome de um homem.
Retirou a mo, deixando o papel sobre a mesa.
 No, dona Mara. Desculpe. Desculpe, mas no
vou ligar  recusou, imaginando um amante. 
No posso fazer isso com o doutor Olavo.
  o telefone do editor desta revista  Mara
disse, percebendo o equvoco de Irene e mostrando o
semanrio sobre a mesa, lido e relido muitas vezes
aquela madrugada.  Est atacando a corrupo do
governo. Pode pegar o papel, Irene.
 No, dona Mara. Desculpe. No vou ligar. No
posso.
214

 Por favor, Irene. Tu liga e diz quem eu sou e
que estarei em Nova York, na festa do ministro que
eles esto investigando.
 No, dona Mara. No posso fazer isso. No sei
se posso.
 Tu liga e diz que eu tenho informaes. Que o
meu marido  que compra as coisas do ministro. Que
ele tem um apartamento em Nova York, comprado
com dinheiro da campanha presidencial. Diz que o
ministro tem uma conta secreta e que eu sei de tudo
e que eu quero contar. Diz para um reprter me procurar
na festa.
 No sei se posso, dona Mara.
 Diz para um reprter me procurar amanh.
Que eu vou contar tudo,
 Dona Mara,.. Eu tenho medo.
 Eu tambm, Irene. Eu tambm.
Bastou um tiro.
A ogiva de chumbo nove milmetros, fabricada no
estado americano de Dakota do Sul entre a ltima
semana de maio e a primeira de junho de 1989, penetrou
pela glabela  velocidade de trezentos metros
por segundo e, fraturando o osso frontal, atravessou o
crnio, destruindo cem bilhes de neurnios ao
perpassar crtex, corpo caloso, vasos sangneos, tlamo,
215

vermis cerebelar, hipfise, hipotlamo, hipocampo,
amgdalas, lobo temporal, toda a massa formadora dos
hemisfrios cerebrais, do cerebelo e do tronco enceflico,
responsveis pelo raciocnio e pela coordenao
motora, pela contrao dos msculos, pela fala,
pela audio, pela viso, postura, equilbrio, respirao,
interesses, medos, dvidas, simpatias e antipatias,
pela vontade de tomar uma cerveja ao fim de um longo
e quente dia de vero, pela escolha do time de
futebol e do desenho animado favorito, pela primeira
orao decorada e pela primeira msica cantada, pela
torcida para que o lobo no coma os trs porquinhos
nem a Chapeuzinho Vermelho, pelo entendimento
que dois mais dois somam quatro, pela viagem no p
de perlimpimpim, pela exaltao dentro do corpo da
mulher, pelas cores dos lpis preferidos, pela percepo
do aroma do bolo a assar se esparramando pela
casa, pelo prazer de brincar de pique-esconde, pelo
alerta ao perigo, pelo deslizar para dentro do sono,
pela ginga do drible, pelo sabor de doce de leite a
desmanchar na lngua, pelo alvio de esvaziar os intestinos
e os rins, pelo deslumbramento da primeira
viso do mar, pelo arroto do refrigerante e pelo arrepio
do golpe de vento, pelo arranho do cisco no olho
e pela pacificao da fome no peito da me, pelos
enganos, pelas surpresas, pelas risadas, pelas lgrimas
e pelas recordaes e sonhos e desejos e iluses que
nunca mais teria.
216

A bala saiu pelo osso parietal, deixando um grande
rombo e duzentos mil anos de evoluo transformados
em pasta disforme.
Alfonso despencou sobre si mesmo, como um fantoche
que tem os barbantes cortados. Quedou-se;
imvel para sempre, as costas mergulhadas na lama
deixada pela chuva da noite anterior, o brao direito
cado ao lado do corpo, o esquerdo na direo de
Emiliano. A mo se abrira, soltando o Magnum 3.57
prateado. Por baixo de sua cabea comeou a formar-
se uma poa escura, que empapou a touca de l e
foi-se misturando ao barro. Do buraco entre os olhos,
pouco maior que uma moeda de 50 centavos, quase
no saa sangue.
Barbara desceu do metr da Linha Vermelha uma
estao antes. Foi um impulso. Quis rever a praa
onde passeava com os pais aos domingos e, menina
que nunca sara da cidade emparedada por concreto,
acreditava ser uma fazenda por causa do lago e do
amontoado de rvores.
Subiu os dois nveis, saiu ao ar livre.
Clareava. No chovia mais.
Saltou uma poa.
Respirou fundo, sentindo o cheiro familiar e reconfortante
penetrar suas narinas, mistura do cortante ar
frio da manh daquele 21 de agosto com o olor acre
217

de fumaa de combustvel queimado pelos milhares
de nibus e automveis em permanente circulao
pela metrpole de dez milhes de habitantes, nesta
tera-feira acrescido do odor de grama mida e terra
dos canteiros malcuidados da praa da Repblica.
Era uma despedida.
Um vento frio soprou sacolas de plstico vazias,
jornais, folhas, maos de cigarros amassados, os dejetos
largados pelas caladas durante a madrugada.
Uma lata de cerveja rolou at seus ps.
Puxou a gola do casaco para melhor proteger a
nuca, ps as mos nos bolsos da cala jeans e com
passos firmes, andando sem pressa, atravessou a praa
e encaminhou-se para o curso de Ingls Para Secretariado
na rua Maria Paula, a treze quadras dali, atenta
e registrando cada rvore, cada banco, cada canteiro,
cada recorte do cu acima, cada meio-fio, cada semforo,
cada marquise, cada vitrine fechada, cada ponto
de nibus, cada janela, cada muro, cada grafite, cada
cartaz rasgado, cada lata de lixo, tomada pela sensao
pesada de liberdade e receio que carregaria para
sempre.
Tornara-se uma adulta.
Emiliano guardou a arma, abaixou-se, pegou o
menino no colo, levou-o at o automvel, deitou-o no
218

banco traseiro, retirou o cobertor sujo, sentiu-lhe
a testa.
A febre passara.
Arrastou o cobertor at onde estava o corpo de Alfonso
e o cobriu.
A mo com o Magnum ficou de fora.
Agora  intil para ti, disse, tomando posse do revlver.
Retornou ao carro, colocou as armas no assento ao
lado do motorista, tirou o casaco e ia enrol-lo na
criana quando o garoto abriu os olhos.
No se mostrou assustado. Fitou Emiliano com
interesse por alguns segundos. Depois inclinou a cabea
para o lado. E sorriu.
Emiliano colocou o casaco sobre seu corpo pequeno.
O menino sorriu de novo, agradecido ao homem
que o aliviava da sensao de frio.
Vou te deixar em algum lugar seguro, garoto. No
te preocupes, disse, entrando no carro e partindo,
O menino voltou a fechar os olhos e adormeceu.
219


Em memria de Edmond Silvestre



Captulo 7

p. 63 "Vogue" (Madonna)
p. 64 "Another day in paradise" (Phil Collins)
p. 65 "Here we are" (Gloria Estefan)
Captulo 8

p. 74 "I will always love you" (Whitney Houston)
p. 78 The winner takes it all" (Abba)
p. 79 "Desafinado" (Tom Jobin e Newton Mendona)
p. 80 "Nuvem de lgrimas" (Paulinho Rezende e Paulo Debtio)
Captulo 16
p 192 "Rosas" (Jorge Luis Borges)
p 192 "Cambalache" (Carlos Gardel e Henrique Santos Discpulo)
21:00 - 30/12/2011 - sexta-feira

